Cecília Helm, antropóloga, e a índia Célia, que nunca passou pela universidade, salvaram a cultura kaingang do esquecimento.

Célia, 60, é uma índia kaingang, paranaense, natural da célebre reserva indígena de Mangueirinha, Sudoeste, mas com presença também em outras áreas em que vivem membros de sua tribo.
A história de vida dessa mulher especial é exaltada com frequência por outra mulher especialíssima, a antropóloga Cecília Maria Vieira Helm, 80, que se projetou mundialmente em defesa dos índios kaingang e guaranis.
Foi graças a Cecília que, depois de dezenas de anos, a Justiça reconheceu o domínio da União sobre as terras de Mangueirinha.
USUFRUTO
É como resultado do trabalho hercúleo (esta é a expressão adequada) de Cecília Maria Helm, filha do antológico advogado Vieira Neto, que a Justiça Federal reconheceu ser pleno domínio da União a chamada Gleba B de Mangueirinha, e, portanto, garantindo o usufruto da área de 17 mil alqueires às duas tribos que lá habitam – kaingang e guarani.
Onde entra Célia nessa história que Cecília Maria, com olhar de antropóloga social quase apaixonado pela causa indígena, traz ao conhecimento deste espaço?
Respondo que foi graças ao trabalho dessa índia Célia que hoje a reserva de Mangueirinha e outras da etnia kaingang ministram aulas bilíngues para seus filhos – a língua nativa ao lado do português nos primeiros anos do fundamental.
Isso garante a transmissão de toda uma cultura multimilenar. E olha que Célia não é pedagoga formada, mas, poucos conhecem quanto ela, aspectos da Pedagogia no âmbito da preservação de culturas indígenas.
OBRA FASCINANTE
Ao começar a leitura de uma das obras mais fascinantes da história do Paraná, e mais desconhecidas, o livro “Laudos Periciais Antropológicos – Para investigação da antiguidade da ocupação de terras indígenas no Paraná (edição da autora), concluo que tudo isso só foi possível porque gente como Cecília Maria e Célia, confiou na Justiça. E lutou muito, uma luta indescritível.
Justiça que acatou as posições de Cecília Helm é a mesma que ao longo dos anos havia dado ganho de causa empresa madeireira que derrubava o pinheiral e expulsava os índios.
Foi graças a decisão, em 2005 do juiz federal Spalding, da Sétima Vara Federal de Curitiba, que se consumou a vitória de uma causa que se arrastava desde meados do século 20; depois confirmada pelo TRF da Quarta Região e pelo ministro Ayres Brito, do STF.
Voltarei ao assunto.
