
Meu olhar volta-se de forma especial para a Academia Paranaense de Letras, na qual, nesta segunda-feira, 25, quando o jornalista Antonio Carlos Carneiro Neto tomará posse na Cadeira 40, cujo patrono é o poeta (1884-1908) Cícero França. O fundador da cadeira foi Generoso Borges de Macedo (1875/1945).
Tudo o que eu possa dizer sobre Carneiro Neto pode soar suspeito. Mas é verdadeiro. Procuro apenas fazer justiça ao amigo de longa data, jornalista a quem acompanhei pouco além do seu nascedouro na profissão em Curitiba, ele atuando na redação do Diário do Paraná, anos 1960/70, antológico jornal da Cadeia Associada.
Trabalhava ao lado, e com ‘monstros’ inesquecíveis da chamada crônica esportiva. Dentre eles, Vinicius Coelho, Clemente Comanduli, Machado Neto e Airton Ravaglio Cordeiro. Que escola!
OBSERVATÓRIO
Naquele jornal de Chateaubriand, o Diário do Paraná, onde fiz boa parte de minha carreira, tive um observatório privilegiado, para o nascimento ou a consolidação de uma seleção primorosa de jornalistas que marcaram um tempo raro na imprensa do Paraná. Quem não se lembra do Paulo Roberto Marins de Souza, Jorge Narozniak, Ayrton Luiz Baptista, Emílio Zola Florenzano, Adherbal Fortes Sá Jr, Luiz Geraldo Mazza, Léo Kriger?; e do mentor de tantos que foi Carlos Danilo Costa Côrtes, ou Rosy Cardoso? Por lá haviam passado Léo de Almeida Neves, René Dotti, Eduardo Rocha Virmond, José Richa, Silvio Bach, Eddy Franciosi, Dino Almeida, Luiz Alfredo Malucelli…
Digo tudo isso sem saudosismo. Pura rememoração e uma questão até de justiça para com a memória da imprensa do Paraná.
Desde o primeiro dia de Carneiro Neto no DP, e já então estando a observá-lo também atuando em outros veículos, como rádios e televisões, vi nele um ser singular.
BOM BERÇO

É verdade que ele trazia de casa, do berço, a formação humanística bordada pelo pai, o desembargador Armando Jorge Carneiro, que presidiu o TJPR e ocupou o governo do PR interinamente por vezes. E que foi meu amigo também.
Carneiro Neto nunca escondeu uma certa ânsia por conhecer os meandros do mundo imediato, o do derredor, suas peculiaridades, suas contradições e a fauna humana que o compunha. Sem excluir, ao mesmo tempo, uma funda análise do universo, parte da qual iria depois conhecer por meio de dezenas de viagens a trabalho e mais tarde como turista dotado de olhar privilegiado a pesquisar História nas grandes fontes da Europa.
Nessa busca – muitas vezes me parecendo um etnógrafo, procurando o ethos de todas as gentes -, Carneiro Neto foi dando pistas de que o jornalista, o homem da informação e opinião futebolísticas iria dividir-se com o escritor. E assim aconteceu.
A OBRA
Hoje tem uma obra presente em livros que, mais do que retratar jogadores, datas, clubes, torcidas organizadas e/ou biografias – Carneiro mostra sua veia de antropólogo amador.
Com competência, às vezes com “sense of humor” que pode lembrar o dos ingleses; outras, tem o humor cáustico de um Brasil que se expressa com maestria e mostra toda sua cara e cores nas arquibancadas, nos vestiários e nas confabulações e acertos dos cartolas; nos xingamentos e brigas que não excluem mães, opções (?) sexuais, juízes e suas linhagens, gêneros e nomenclaturas animais para definir seres humanos.
AREJAMENTO
Quero registrar ainda: a entrada de Carneiro nessa casa de “imortais” (APL) corresponde a uma nova arejada na instituição que se deve mover, com pressa, para perder os ares atuais de “sodalício”, convertendo-se num espaço de notáveis.
Que a APL seja uma espécie de Collège de França, aglutinando excelências humanas que podem englobar desde o melhor sapateiro (ainda existem sapateiros?) ao cientista de grande contributo à vida do Paraná.
O que não poderá significar, no entanto, a exclusão dos poetas e escritores, nem de outros que se notabilizam pelas belas artes também notáveis.
INTELIGÊNCIA
Gostar ou não do escritor Carneiro Neto é direito de cada um. Reconhecer que estamos diante de alguém que pertence ao melhor patriciado paranaense – alma inquieta, generosa, analítica, por vezes iconoclástica – isto é expressão de inteligência e honestidade.
Salve o Antonio Carlos Carneiro Neto, que será saudado por outro comunicador social com fértil e correto contributo na gestão do futebol, o também acadêmico Ernani Buchmann.
