domingo, 19 abril, 2026
HomeMemorialCaricatos e "piedosos", deputados decidiram em meio a um "show"

Caricatos e “piedosos”, deputados decidiram em meio a um “show”

Plenário da Câmara dos Deputados, na hora da votação da admissibilidade do impeachment de Dilma Rousseff
Plenário da Câmara dos Deputados, na hora da votação da admissibilidade do impeachment de Dilma Rousseff

Alguns dos poucos bons jornais brasileiros que restam – Folha de S.Paulo, O Estadão e O Globo, na derradeira relação preciosa – abordaram segunda-feira o festival de baboseiras que inundou a Câmara dos Deputados, domingo, na mais longa sessão lá realizada, 8 horas de duração.

E a abordagem foi muito pelo lado absolutamente cômico com que muitos – até seriam a maioria – parlamentares responderam à chamada de seus nomes e foram votar sobre a admissibilidade do impeachment de Dilma Rousseff.

A pretexto de votar, e por alguns segundos de brilho nacional televisivo, houve os que mandavam beijos, abraços e “saudades” para toda família. O suporte mais forte das mensagens foi o nome de Deus.

Houve um que voltou, depois de ter proferido o voto, dizendo que havia “esquecido de mandar um beijo para meu filho”.

O comportamento da maioria, despido do conteúdo que a hora pedia, reflete o grau de imaturidade de nossa representação parlamentar de hoje. Isso embora, reconheça-se que mesmo parvos como são, esses deputados têm todo o direito de votar. E de ter a fé que quiserem. Só não podem misturar alhos com bugalhos.

Na decisão final, reconheço, eles acabaram refletindo anseio nacional por renovação.

Mas poderiam ter poupado a Nação de dissecar a indigência de nosso parlamento, tal como se viu.

Os votos bem sustentados, pró ou contra o impeachment, não prevaleceram.

Mas, mesmo poucos, marcaram de forma definitiva, como o do deputado Jarbas Vasconcellos, ex-governador de Pernambuco, que não só votou para que Dilma deixe a Presidência como lançou anátemas e acusações diretas a Eduardo Cunha.

Disse que Cunha não poderia estar presidindo a sessão, por ser réu no STF e ter um passado de falcatruas e ladroagem.

Vasconcellos é notoriamente um peemedebista equilibrado, dono de uma vida irrepreensível, com autoridade para fazer desabafo desse nível.

Outro que andou no mesmo tom de Jarbas Vasconcellos, mas noutra direção (pró Dilma) quanto ao impeachment, foi Ivan Valente, um radical da esquerda, do PSOL. Ele não usou de meias palavras para condenar a presença de Cunha na presidência da Câmara. Acusou-o de ladroagem. E acusou os opositores do PT de golpistas, na velha cantilena.

Impressionou-me o papel de certas mulheres fortes, desconhecidas dos leitores e dos ouvintes de noticiários políticos. Elas expressaram seu inconformismo com as acusações feitas contra Dilma. Havia, em quase todas, um claro conteúdo de defesa de gênero, num momento em que as mulheres recuperam o tempo perdido e ganham espaços na vida moderna. Isso me ficou claro.

Mas Luiza Erundina, ex-prefeita de São Paulo, que se desligou do PT há muitos anos, acusando a sigla de, naqueles 1990, ser conivente com bandalheiras, colocou sua respeitabilidade no voto em favor de Dilma. Sem conotações de gênero.

AS PAIXÕES

Eros Biondini e Jarbas Vasconcellos
Eros Biondini e Jarbas Vasconcellos

Não consegui registrar manifestações futebolísticas, de torcida por algum time, nesse desfilar de comicidade e ridicularia na hora do voto.

Essa outra “religião” brasileira, o futebol, recolheu-se, a não ser por uma rápida referência de um deputado ao Corinthians.

O que vi e avaliei mesmo, com segurança, é quanto a Câmara dos Deputados passa a ser – de forma expressiva – um colegiado comandado por sentimentos religiosos, pura religiosidade popular, massa de manobra fácil de certas lideranças.

E muitas vezes repetindo tradicionais expressões bíblicas, como aquela que fala da “Nação que teme o Senhor”.

Prevaleceram manifestações claramente pentecostais quando esses deputados e deputadas se expressaram “em nome da Nação Evangélica”; nesse caso, estão fundamentalmente falando das igrejas pentecostais (como Assembleia, Evangelho Quadrangular e denominações em franco crescimento, como a Deus é Amor, fundada pelo Missionário David Martins Miranda) e até neopentecostais (como a Igreja Mundial do Poder de Deus, do chamado apóstolo Valdemiro Santiago).

Cunha, que ano passado deixou a Igreja Sara Nossa Terra, hoje é membro da Assembleia de Deus, o maior conglomerado protestante do Brasil.

Ele, num passe mágico, conseguiu retirar um membro do PRB na Comissão de Ética que vai julgá-lo, colocando em seu lugar uma “crente” de nome Tia, animadora de programas populares no Norte do país.

Mais contidos, mas não menos partidários, mostraram-se alguns membros da Universal acolhidos pelo PRB ou PSC, dois partidos que aglutinam basicamente evangélicos.

O PRB é o partido de intenso brilho nessa seara; e seu presidente, um bispo da Universal licenciado – Marcos Pereira – é tratado como “doutor” Marcos por deputados fieis à cartilha da legenda, em que brilham estrelas como Celso Russomano, pré-candidato a prefeito de São Paulo.

Russomano declara-se católico romano, exceção na sigla, acredito.

Aliás, alguns representantes da Assembleia de Deus e da Igreja do Evangelho Quadrangular mencionaram abertamente suas filiações.

Os evangélicos tradicionais são minoria na bancada Evangélica da Câmara (90 membros?). Há poucos evangélicos históricos na Câmara (batistas, metodistas, presbiterianos, luteranos…)

MARIA DE NAZARÉ

Não se excluam os católicos dessas manifestações, durante a votação do impeachment, identifiquei pelo menos dois deputados católicos ligados à Renovação Carismática Católica (linha chamada ‘pentecostalismo católico’). Um deles, o mineiro Eros Biondini, que se divide entre a RCC e a Canção Nova, dois poderosos e influentes braços da Igreja, e que estão em franca expansão. Ele é cantor, com ar de “eterno jovem”, embora tenha filhos grandes, adultos.

Outro que não escondeu ligações idênticas – RCC – foi o ponta-grossense Diego. Ambos votaram pelo impeachment.

No entanto, o mais explicitamente católico de linha popular foi um parlamentar do Pará, que mandou sua mensagem de devoto da Virgem de Nazaré, a enorme paixão do Norte do país, responsável por procissão anual em que os participantes se contam (geralmente) em milhões de pessoas.

Pensei que ia cantar a música do padre Zezinho, “Virgem de Nazaré…”

SEITAS SINDICAIS

Lula e Vicentinho
Lula e Vicentinho

Vicentinho até foi formado em Comunidade Eclesial de Base (CEB), em Natal, e depois tornou-se líder sindical em São Paulo. Ficou muito conhecido por falar, anos a fio, com a língua pegada, problema que desapareceu.

Milagre ou cirurgia?

Ele se apresentou simples, dizendo-se alma limpa e sem fortunas, mas comprometido com as propostas do PT e das causas de Dilma. Não transpirou raiva, como aconteceu com outros sindicalistas.

Já Paulinho da Força, umbilicalmente ligado a Cunha, não negou fogo às suas convicções que os inimigos classificam de “próprias de um pelego”. Vomitou raivas contra os opositores.

Voltando à linha católica (há 2 bancadas católicas na Câmara, atuando sem a estridência dos evangélicos), esclareço: os fieis seguidores das orientações da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) não são muito visíveis. Mas atuam, quase sempre munidos de sólida argumentação fornecida por orientadores eclesiais. Operam mais “à gauche”, e estiveram, até anos recentes, próximos de Gilberto de Carvalho, o controvertido braço direito de Lula.

Além das religiões, seitas sindicais, radicalismos ideológicos, carreirismos e oportunismos, a sessão de admissibilidade do impeachment de Dilma foi um momento único, dificilmente repetível: deixou claro, durante 8 horas de domingo, 17, de que matéria é feita a massa crítica que compõe o Congresso Nacional.

Pobre Congresso.

Eu, de minha parte, repito invocando o Salmo 51, no incomparável original da Vulgata: “Domine, miserere nobis”.

Leia Também

Leia Também