segunda-feira, 29 junho, 2026
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Campana, aos 70 anos, faz inventário de muitos tempos

Fábio Campana, ao centro, e os filhos Rubens e Isabel
Fábio Campana, ao centro, e os filhos Rubens e Isabel

Estava pronto para cumprimentar Fábio Campana, na sexta, 10, quando ele entrará na casa dos setentões.

Mas o planejado “bem-vindo ao clube” ficou de lado quando li a confissão geral que ele faz no número deste agosto da revista Ideias.

Na verdade, o texto lapidar que assina é muito mais do que confissão. É inventário de vida de quem não tem medo de sua biografia, reconhece limitações e falhas, ao mesmo tempo que se desnuda, pedindo que não o julguem em fim de linha. E sintetiza, em frases para sempre memoráveis – aqui e acolá -, quão duradouro e difícil foi seu aprendizado de 70 anos.

UM PEDIDO

Com o pedido insólito citado, o do “fim de linha”, identifica-se, por ventura, um hiato de fraqueza do “Barba” ou “Zapata”, apelidos como o conhecemos nós, seus amigos de anos?

Não, é bem o contrário: ele domina o seu tempo, e assim sabe que nos dias de hoje prevalecem os ouvidos moucos e cegos que conduzem cegos. Advertir esse cortejo de almas errantes é quase obrigação, pois essa gente não tem olhos para ver nem ouvidos para ouvir. Impera por aí uma multidão de apedeutas.

Julgá-lo em fim de linha, acredito, seria matéria para néscios e os profissionais da invidia, um dos sete pecados capitais e doença de almas menores que não suportam conviver com vitoriosos.

Não se subestime, os néscios de plantão estão ativíssimos.

MORTALIDADE

Fábio tem uma ampliada noção de sua mortalidade.

É obcecado pela morte, admite. Tenta entendê-la e apresenta, em seguida, um universo de realidades “imortais” que viu, radiografou como homem de espírito, e absorveu ao longo de sua trajetória. Parece dizer, com isso, que já garantiu um pedaço de imortalidade, ao se fazer referencial de todo um tempo.

Nada mau para quem pode chegar inteiro diante do Anjo da Morte com acervo pessoal raro: poeta, romancista com laivos de historiador e etnógrafo, jornalista que se especializou em política e a viu de todos os lados: no palco, na plateia, como artesão de vitoriosos nas urnas eleitorais; como condutor de ‘lendas’ eleitorais transformadas em governantes às quais frequentemente deu vida, imitando assim o sopro de Javeh que infundiu o “pneuma” ao Nada Absoluto.

Não vou privar o leitor da oportunidade de acessar a uma das baladas afetivo-intelectuais que me tocaram nos últimos anos, esse inventário de Campana. Afinal, a web está aí, acessível a todos, e a revista circula pela cidade, todos podem partilhar da mesma graça.

Ainda tenho que registrar momento em que o texto sugere pena de gerações atuais. É, quando ele fala de quão venturosa tem sido sua vida por poder ter participado de “um tempo de renascença”, aquele da chegada da bossa nova, o cinema novo, o teatro transbordante “aquela inteligência toda concentrada em produzir arte ainda hoje insuperável”.

O mais elogiável e causa de admiração é que o antigo militante de esquerda, vítima de torturas inomináveis nos anos 1969/70, na Ilha das Flores e nas mãos de torturadores do Cenimar, não alimente autocomiserações. O que só sinaliza estarmos diante de alguém que nunca ficará velho. Por isso mesmo seu tempo é de crítica consistente, cortante, dispensando aquela reprovável “hora da saudade” que tanto estimula os mais velhos…

Salve o Fábio Campa, pai de Rubens e Isabel, avô de Antônio…

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