
Nem toda mudança urbana é defensável. Algumas delas, como o desleixo com tradições, são, ao contrário, um retrocesso da cidade grande, sinal de perda da identidade, menosprezo às raízes.
Sempre que posso, registro esse “vai da valsa” urbano, do qual são culpados o poder público e também cada cidadão. Este é, por exemplo, o caso que me narra o jornalista e historiador do saneamento público paranaense Zair Schuster.
Em carta a este espaço, Zair lança um alerta que, espera-se, surta efeito, levando em conta até o período pré-eleitoral: está ameaçado um dos últimos redutos para a prática do jogo de bocha existentes em Curitiba.
Construído ao lado do Santuário N.S.de Lourdes, no Jardim Botânico, em terreno cedido pela Prefeitura, há 30 anos, à sociedade de amigos do bairro pelo então prefeito Maurício Fruet, a cancha da bocha local vai sendo demolida aos poucos. Vândalos de todo tipo, traficantes de drogas, desocupados, essa é a fauna que tem invadido sistematicamente o local, roubando utensílios, destruindo o imóvel.
CASO POLICIAL
Para Zair, essa gente – um caso também de polícia – quer se apossar do espaço, que não está mais deteriorado porque os bochófilos investem o pouco que podem na manutenção do endereço “histórico”.
Reclamar a quem?
Os cultores da bocha já reclamaram à Prefeitura. Pedem ajuda. Até em homenagem à memória do pai do prefeito Gustavo, os mantenedores dessa antiga tradição trazida pelos imigrantes italianos (como os Fruet) pedem socorro. Leiam a carta de Zair Schuster:
ABAIXO-ASSINADO
“Prezado Aroldo.
Ameaçados de serem “despejados” pelos traficantes e/ou dependentes das drogas, que atuam na região e que pretendem se apropriar do local, bochófilos (jogadores de bocha) que frequentam a cancha localizada ao lado da Paróquia de Nossa Senhora de Lourdes, no Jardim Botânico, enviaram um abaixo-assinado ao prefeito Gustavo Fruet, solicitando providências para realização de obras de melhoria do imóvel, quase abandonado.
MAURÍCIO FRUET
Consta que a referida cancha, em imóvel cedido pela municipalidade à Associação dos Moradores do Jardim Botânico, foi mandada construir pelo então prefeito Maurício Fruet. Nunca recebeu qualquer melhoria.
Simplesmente envelheceu e, atualmente, face à teimosia dos frequentadores, é feito o que é necessário para mantê-la. São constantes as práticas de pilhagens por vândalos, que cortam a tela protetora, invadem e se apropriam, como já o fizeram, de pratos, talheres, lâmpadas, fiação elétrica, e até de fechaduras do portão de entrada.
LEI DOS VÂNDALOS
“Estamos na iminência de sermos despejados pelos vândalos que rondam o local diuturnamente, pois querem se apropriar do local, seguramente para o tráfico de drogas”, revela o abaixo-assinado. Sugere, inclusive, que parte do imóvel, seja transformado para a prática de jogos, dos associados, como dominó, damas e de baralho, a exemplo do que ocorre no espaço destinado a idosos na rua Schüller, no Itupava.
“Por tais razões”, diz o documento, “vimos à presença de Vossa Senhoria para que, como filho do saudoso Maurício Fruet, receba com espírito de cidadania esta nossa reivindicação e, de alguma forma, se sensibilize diante dos nossos apelos”.
