sexta-feira, 11 setembro, 2026
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Aumento de afastamentos por saúde mental desafia empresas

Assessoria – O Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos do trabalho por transtornos mentais em 2025, um aumento de 15% em relação a 2024, segundo dados da Previdência Social. O número faz parte de uma sequência de recordes registrados ao longo da última década e chama atenção para as condições encontradas pelos trabalhadores no dia a dia das empresas.

Para Rodrigo Precoma, psicólogo, especialista em neurociência e Sócio Diretor da Humanii, entre os fatores do ambiente de trabalho que podem representar riscos para a saúde mental e o bem-estar dos profissionais estão a sobrecarga, mudanças frequentes ou mal gerenciadas, a falta de clareza sobre papéis e prioridades, a baixa autonomia, relações abusivas e a ausência de reconhecimento.

Precoma destaca que o problema não está necessariamente em trabalhar muito. A forma como as atividades são organizadas também pode aumentar o desgaste das equipes. Quando novas demandas chegam constantemente sem que prioridades sejam revistas ou outras atividades sejam retiradas, por exemplo, aumenta-se a sensação de sobrecarga, o retrabalho e a percepção de que, por mais que se faça, o trabalho nunca é suficiente.

“Não é só uma questão de trabalhar muito. É também uma questão de condição de trabalho, de trabalhar naquilo que realmente importa”, diz.

Mudanças de comportamento podem indicar sobrecarga

Alguns sinais podem ser percebidos antes que a situação se agrave. Irritabilidade, erros incomuns, dificuldade de concentração, cinismo, falta de interesse e o presenteísmo, quando a pessoa está no trabalho, mas não consegue desempenhar suas atividades normalmente, estão entre eles.

O psicólogo ressalta que esses sinais não devem ser usados para diagnosticar colegas ou funcionários. A orientação é observar mudanças de comportamento e tentar entender o que pode estar provocando aquela situação.

Dentro das equipes, também merecem atenção a perda de prazos, a falta de participação em reuniões e ambientes nos quais as pessoas deixam de apresentar opiniões ou questionamentos por receio da reação da liderança.

Hiperconectividade mantém o trabalho fora do expediente

O uso constante do celular também pode contribuir para o desgaste. O mesmo aparelho usado para lazer e comunicação pessoal é utilizado para tratar de assuntos profissionais, muitas vezes fora do horário de trabalho.

Mensagens recebidas durante a noite, por exemplo, podem manter o trabalhador em estado de alerta permanente. Para Precoma, empresas e equipes podem reduzir esse impacto estabelecendo acordos claros sobre os canais e horários de comunicação.

“É importante construir acordos coletivos entre as equipes, definir quais são os canais oficiais de comunicação da empresa e estabelecer horários”, afirma.

Para ele, esse tipo de medida depende também da postura das lideranças e da capacidade de ouvir os profissionais.

NR-1 exige mais do que ações pontuais

A gestão dos riscos psicossociais prevista na NR-1 também precisa ser incorporada à rotina das empresas. Na avaliação de Precoma, a norma não deve ser tratada apenas como uma obrigação a ser cumprida.

“Oferecer uma palestra, uma atividade de meditação ou um benefício voltado à saúde mental não resolve situações em que continuam presentes problemas como assédio, falta de clareza nas prioridades ou relações inadequadas entre líderes e equipes”, alerta.

O primeiro passo, segundo ele, deve ser entender o que acontece dentro da organização. “Isso envolve diagnóstico, escuta dos trabalhadores, identificação dos riscos, prevenção e acompanhamento. A preparação das lideranças é parte importante desse processo”, explica

Medo de perder o emprego também aumenta a pressão

A insegurança profissional pode ser outro fator de desgaste. Para trabalhadores que construíram uma carreira longa em uma mesma empresa, o medo de perder o emprego pode representar uma carga emocional importante.

“Sentir medo de vez em quando é natural. O problema é quando ele vira parte do dia a dia e começa a afetar o bem-estar e o trabalho.” explica Precoma.

Além das condições oferecidas pelas empresas, alguns cuidados individuais podem ajudar na manutenção da saúde mental. O psicólogo recomenda atenção ao sono, atividade física, alimentação equilibrada e momentos de pausa.

Ter uma rotina de sono adequada, evitar bebidas alcoólicas e estimulantes antes de dormir e encontrar uma atividade física possível para cada pessoa estão entre as recomendações. Para quem não pratica esportes, uma caminhada já pode ser uma alternativa.

Para Precoma, o enfrentamento do problema passa pela combinação entre hábitos individuais e mudanças na forma como o trabalho é organizado. “De nada adianta fazer coisas isoladas e não olhar para o sistema por completo”, afirma.

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