
Se há um discurso repetido à exaustão por prefeitos nos primeiros dias de mandato é o de apontar o antecessor como culpado pelas promessas que ele incorporou à sua campanha e que, eleito, não poderá cumprir.
É o conto do vigário revelado. Ai do eleitor que caiu nessa. Assim como o pedetista Gustavo Fruet, que acusou o prefeito imediatamente anterior, Luciano Ducci, de deixar-lhe uma conta de R$ 576 milhões, Greca registrou dívida herdada de R$ 1,2 bilhão de seu antecessor. Tudo negado pelos respectivos acusados.
A realidade de receitas e despesas do município não muda de uma hora para outra. Ainda assim, durante a corrida eleitoral, há sempre uma solução mágica para problemas de difícil solução.
FICOU O AUMENTO DA PASSAGEM
Fruet fez o que Greca faz já nos primeiros meses de administração.
Empurrou a dívida com fornecedores para o prefeito anterior e aumentou o preço da passagem, de R$ 2,60 para R$ 2,80 – uma alta de 9,6%. Greca foi à imprensa para denunciar uma “pendura” já conhecida por sua equipe de transição. Quando decidiu aumentar a passagem foi mais generoso com os empresários do transporte urbano. De R$ 3,70 para R$ 4,25 – um acréscimo de 14,8%.
VOTO DE CONFIANÇA
O que os diferencia é o voto de confiança. Fruet gozou de certo crédito do curitibano nos primeiros 100 dias de governo. Em abril de 2013, um levantamento da Paraná Pesquisas registrava a aprovação de 66% da população ao então prefeito. O pedetista viveu ainda uma lua de mel com a população da capital: 32% acreditavam que ele precisaria de um ano para trabalhar todos os pontos das propostas de governo.
Rafael Valdomiro Greca de Macedo não usufruiu dessa trégua. Com a promessa de devolver Curitiba ao curitibano, o prefeito, em 100 dias de gestão, só conseguiu contabilizar, em sua lista de realizações, os mutirões de saúde e uma propagandística lavagem da Rua XV. Por sorte, não copiou o prefeito de São Paulo, João Doria, e vestiu o uniforme de gari.
PROFETA
No confronto com servidores públicos para aprovar o “pacotaço fiscal” que daria poderes ao município de sacar R$ 600 milhões do IPMC (Instituto de Previdência dos Servidores do Município de Curitiba), deixou de ser prefeito para ser profeta. As declarações eram quase heréticas: “Vocês não sabem o que fazem” e “Bem aventurados os que têm sede e fome de justiça”. E dá-lhe gás de pimenta.
Os efeitos na largada da administração que eram visíveis aos 100 dias de governo, com aprovação de 37,7% e desaprovação de 54,8%, são maiúsculos aos 180 dias, com um índice de 69,3% de desaprovação (27,9% de aprovação), segundo o mesmo Paraná Pesquisas. Os números de impopularidades só não são comparáveis aos de Michel Temer, porque no caso do presidente não há mesmo como comparar.
OTIMISMO EM TURFAS
Quanto ao otimismo presente nos primeiros dias da administração de Fruet, Greca já o enterrou. Talvez em turfa, o mesmo material orgânico que o fez afundar quando era secretário de Requião. A expectativa dos entrevistados em relação à administração de apenas seis meses do prefeito de Curitiba é a mesma do início do governo para 56,5% e pior para 33,8%. Ou seja, o descrédito e a desconfiança rondam o paço municipal e traduzem a imagem de alguém que vendeu, mas não entregou.
Com Greca, as expectativas eram mesmo muito modestas. Agora ficou pior.
Resta a impressão de que “ele não sabe o que faz”.
Os números aqui citados, da recente avaliação feita pelo Paraná Pesquisas, foram levantados a pedido de Celso Nascimento, jornalista da maior credibilidade possível no mundo político paranaense, revelados na edição do final de semana da agora revista Gazeta do Povo.

