quarta-feira, 13 maio, 2026
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ALOAR ODIN RIBEIRO (1932-2018), UM OBITUÁRIO ESSENCIAL

Aloar Odin Ribeiro: na história do bom jornalismo (foto Marcelo Elias/Gazeta do Povo)
Aloar Odin Ribeiro: na história do bom jornalismo (foto Marcelo Elias/Gazeta do Povo)

Um obituário deve cumprir regras básicas. A primeira é registrar a data de nascimento do perfilado. Não se morre sem antes nascer. A obviedade ululante, contudo, não parece ser observada nos necrológios publicados na imprensa sobre Aloar Odin Ribeiro. Inclusive no jornal em que trabalhou por mais de metade de sua vida.

86 ANOS

Pois bem. Registre-se: filho de Ludgério Vidal Ribeiro e de Anna Maria de Bitencourt Ribeiro, Aloar nasceu em 30 de dezembro de 1932, em Belo Horizonte. Faleceu em 11 de fevereiro de 2018, em Curitiba, vítima de parada cardíaca. Tinha 86 anos.

PAIXÃO PELO ‘NOIR’

Morreu em um domingo de Carnaval e quem o conhecia um pouco, sabe que ele detestava a folia momesca. Nos quatro dias de festa, enfurnava-se em seu apartamento a ver filmes antigos, em especial os policiais “noir” da Warner Brothers. Não era um hobby, como afirmam os desinformantes nativos. Era uma paixão. Ele podia discorrer sobre roteiros, citar os atores principais, pincelar em seu arquivo críticas cuidadosamente arquivadas e imitar, com aquele jeitão de figurante de “O Poderoso Chefão” (lábios grossos, sobrancelha arqueada), o seu ator preferido:

Edward G. Robinson.

À ESPERA DE NOTÍCIAS

Foi locutor, colunista e editor, mas antes foi repórter. Nos 46 anos que trabalhou em tempo integral na Gazeta – não era dado a meio expediente – dormiu por diversas vezes sobre as bobinas do jornal esperando uma radiofoto ou um telegrama que vinha do outro lado do mundo com notícias da seleção brasileira.

SANTA RAINHA DE COPAS

De fato, quando editor de esportes da Gazeta do Povo, Aloar não admitia que dirigentes de futebol, a maioria a preencher uma lacuna com sua ausência, ameaçassem repórteres de “demissão”. Sim, a prática era essa mesma: pedir a cabeça do jornalista ao Dr. Francisco (Cunha Pereira Filho), o dono do diário. Jihadi John era fichinha. A Rainha de Copas era provecta.

TUDO É UMA QUESTÃO DE TORCIDA

Aloar era coxa-branca. Ora, todos são torcedores de alguém ou de alguma coisa em algum momento. Há aqueles que torcem para os leões contra os cristãos. Ou para os cristãos contra os leões. Tudo é uma questão de torcida.

ORGULHO FUTEBOL CLUBE

Aloar Ribeiro, entretanto, jamais entraria em uma briga por causa do Orgulho Futebol Clube da cidade. A tarimba, a experiência e o profissionalismo o impediriam. Se um repórter da CNT enfiasse o microfone pela janela do vestiário e gravasse a conversa do técnico do Atlético com seus jogadores, Aloar consideraria o fato um furo jornalístico. E era mesmo. Caso um colunista se mostrasse inconfidente o bastante para apontar um amigo atleticano que teria vibrado com o campeonato brasileiro conquistado em 1985 pelo Coritiba, Aloar chamaria a isso de “bairrismo solidário”. Jamais demitiria o indiscreto.

‘ATÉ AMANHÃ’

A certa altura, o jornalista perdeu a corrida para a modernidade. Não era íntimo do computador, apesar de não rejeitá-lo, e tampouco da internet e seus muitos malabarismos. Chegava pela manhã na redação, remexia seus arquivos e dele tirava material para a coluna de memórias intitulada “Ontem e Hoje”. Saía às onze horas para almoçar com a esposa (não tinha filhos) e retornava por volta de duas da tarde. Escrevia o pequeno texto, enviava as fotos de arquivo para os paginadores e redigia uma ou outra notícia que raramente era aproveitada. Às seis ou sete horas, depois de ouvir as notícias esportivas no radinho, ia se embora com saudação discreta. Ouvia quem estava ao seu lado. Os outros sequer notavam o aceno que seguia o “até amanhã”.

RESISTÊNCIA

Fosse por ele jamais se aposentaria. A Gazeta intuiu que ele gostaria de pendurar as chuteiras. Errou feio. Aloar resistiu até onde pôde. Queria que o mandassem embora, que lhe pagassem a indenização merecida por tantos anos de dedicação. Foi a vez do jornal resistir.

ELE ABRIA PORTAS

Um repórter que trabalhou ao lado de Aloar Ribeiro durante dois anos impressionava-se com a facilidade que ele tinha de cavar informações com dois ou três telefonemas. “Ele abria portas. Seu nome quando dito pela secretária já era suficiente para que o dirigente do clube, do outro lado, atendesse a ordem. Sim, era uma ordem”.

Merecidamente, Aloar Odin Ribeiro irá figurar na galeria dos jornalistas célebres da imprensa paranaense. Não por acaso seu nome do meio é Odin.

Morto, mas teimosamente imorrível.

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