
Já se disse quase tudo sobre o fantástico espetáculo que o mundo acompanhou sábado, a partir da Capela de São Jorge, na cidade de Windsor, que foi o casamento real de Meghan Markle e o príncipe Henry (Harry) do Reino Unido.
Que foram momentos de um moderno conto de fadas, ninguém duvida.
Muito correta também análise que identifica a boda real de sábado como uma adaptação da tradição monárquica britânica às realidades do século 21. A começar pela justíssima presença de um universo de personagens negros que jamais fora ator em tais dimensões num casamento da Monarquia, e muito menos ocupando relevo em atos litúrgicos.
MILAGRE DE MEGHAN
Essa realidade nova foi milagre gerado pela feminista e mestiça Meghan Markle.
Mas como não lembrar a presença e animação do coral gospel – como o balanço característico dos ‘negroes spirituals’ -, entoando o Stand by Me, do antológico B. King?
Também como ficar alheio à fala inspiradora do reverendo Michael Curry, o primeiro negro a presidir o ramo mais importante da Igreja Episcopal dos Estados Unidos (da Comunhão Anglicana).
Curry conseguiu unir perfeitamente uma pregação de fé cristã, de amor ao Cristo, com a convocação ao amor, como o que estava unindo os noivos naquele momento, à expressão do amor universal. Isso sem deixar – en passant – carimbar a prédica – com o entusiasmo e consistência comunicativa dos modernos pastores americanos – com uma citação de Martin Luther King.
O SINAL DA CRUZ
Meu olhar foi um tanto longe, vendo minúcias que podem ter passado em branco ao grande público.
Primeiro porque o reverendo Curry começou sua fala fazendo o sinal da cruz, à moda católica, como também é prática comum na tradição anglicana, mas que não fora feito pelo arcebispo da Cantuária na celebração; notável também a posição lateral com que o arcebispo ficou – sentado de lado, olhava não para frente nem para Curry, mas para a lateral, o que leva a uma interpretação de que o arcebispo não estaria necessariamente avalizando a pregação de Curry.
É a impressão que passou.
A NEGRA CAPELÃ DA RAINHA
De toda benfazeja presença do mundo afro na ‘empedernida’ tradição britânica, o que mais me impressionou mesmo foi a benção/homilia curta feita por uma reverenda anglicana. Ela foi apresentada como ‘capelã pessoal da Rainha Elizabeth II’, mulher que estando sob a orientação dessa teóloga negra parece estar dando um recado surpreendente: o de que se antecipou há tempos às mudanças que Markle começa a mostrar ao mundo inteiro.
Elizabeth, sabemos todos, é a chefe da Igreja da Inglaterra. E não é debalde que ela, à sua maneira discretíssima, vai com gestos como esse caminhando para um reinado fértil e mui longevo.

