
O jornalista Luiz Geraldo Mazza, entrevistado do livro “Encontros do Araguaia”, organizado por este jornalista, e ainda sem data de lançamento, já viveu pelejas com o escritor mais famoso do Paraná, Dalton Trevisan.
Não que vivam às turras. Dalton, por exemplo, não o elegeu como alvo, mas o inscreveu na lista de futuros desafetos, o que é uma honra, diga-se.
PÃO E SANGUE
Em 1988, ao publicar o livro de contos “Pão e Sangue”, Dalton incluiu nele um poema-paródia da “Canção do Exílio” (aliás, com o mesmo título) e, entre os apelos a Deus para que não permitisse que ele jamais morresse em Curitiba, apresentou como motivo o “gorjeio” de Mazza, e também do livreiro Aristides Oliveira Vignoles, aos primores da cidade.
Trecho do poema vai abaixo.
“ah nunca morrer em Curitiba
para sofrer até o Juízo Final
a araponga louca da meia-noite
o Vinholes e o Mazza gorjeando os primores que tais não encontro eu cá não permita Deus sem que daqui me vá”
LIVRAI-NOS DOS CHATOS
Mazza teve o privilégio de acompanhar Dalton em uma caminhada. O encontrara na Boca Maldita e foram embora juntos. Arriscou-se a falar de literatura. O tema eram os romances sociais e toda aquela coisa parte “Vidas Secas”, parte “Vinhas da Ira”. Quando deu por si, falava sozinho.
Dalton apertara o passo e seguira adiante. Para todos os efeitos, Mazza fora nomeado o chato de galochas e o dístico era “Livrai-nos dos Chatos”.
ALVINO CRUZ, O ESMAGA
Foi talvez por essa época que Dalton agarrou-se ao Esmaga, apelido de Alvino Cruz, um pobre coitado – mas personagem marcante da Boca Maldita – que palmilhava a Rua XV pedindo emprestado o que, se sabia, nunca iria pagar.
Por que Dalton o adotou não se sabe. Talvez visse no Esmaga um personagem em gestação. Pagava-lhe o café. Dava-lhe algum dinheiro e deixava que ele lhe fizesse sombra quando enfiava as mãos nos bolsos e despencava na Amintas de Barros. Pensativo, cabeça a meio pau.
Esmaga era de dizer tudo o que pensava. Ao ministro Paulo Brossard, do STF, indagara, sem fazer rodeios: “Como anda a demagogia?”, batendo-lhe a pança. Escapou-lhe Ernesto Geisel no Café Alvorada, mas não Alvaro Dias nem Cecílio Rego de Almeida. Dalton devia deliciar-se com as histórias. Mas não por muito tempo.
A VINGANÇA
Um dia, Mazza encontrou o Esmaga, embatucado ao canto de uma coluna de concreto e mármore, na Boca. “O que é de Dalton?”, perguntou-lhe. E o Esmaga, sem fazer rodeios: “É um chato”. Claro que Mazza não disse ali, mas sentiu-se vingado. Agora era Dalton quem frequentava a fila dos chatos de todo dia, os chatos das orações, os chatos da Ave-Maria, os chatos a quem o Esmaga não poupava.
Pensou: “Livrai-nos dos chatos”. Amém.
