
Duas noites de insônia, o fantasma do leitor de jornal surgindo em sua tela de computador, o gênero a ser desbravado a partir dos 50 anos, a adaptação aos 2.900 toques (no máximo) e a possível falta de inspiração foram alguns dos desafios enfrentados por Cristóvão Tezza, segundo o próprio, ao aceitar o convite da jornalista Sandra Gonçalves, então diretora da Gazeta do Povo e, em suas palavras, tornar-se um “cronista acidental”, a partir de fevereiro de 2008.
Em cinco anos, o trabalho “operário” do romancista rendeu 355 crônicas, um livro finalista do Jabuti e agora é encerrado com “A máquina de caminhar”, que traz 64 textos selecionados e um bônus: o ensaio “Um discurso contra o autor”, em que ele afirma encerrar de vez a sua carreira no gênero. “Sofro de uma espécie de Transtorno Obsessivo-Compulsivo Literário, que me obriga a ‘fechar’ de algum modo tudo que eu começo, de modo a criar uma simetria imaginária que equilibre minha obra e minha história pessoal”, escreve Tezza.
No ensaio, em que confessa nunca ter sido um leitor de crônicas e afirma que somente em casos-limite ela pode se metamorfosear em literatura, Tezza utiliza dois textos de Machado de Assis para analisar o gênero e investigar sua essência originalmente brasileira. E arrisca uma definição básica: “Um texto de jornal impresso, de publicação regular, de breve extensão, com unidade temática e estrutural, tratando ou partindo de assunto contemporâneo, ou mesmo imediato (…), em tom cordial, bem-humorado, conversa com o leitor”.
NOVA OBRA DE TEZZA (3)
Assim como “Um operário em férias”, “A máquina de caminhar” também foi organizado por Christian Schwartz e com ilustrações de Benett. Na apresentação, Schwartz afirma que a inspiração para o título deste novo volume veio da crônica “Esteira Sherazade”, em que o escritor revela ter encontrado uma única inspiração para começar a se exercitar, por recomendação médica: a leitura de livros durante as caminhadas na esteira.
“Emerge, ali, a imagem-síntese do cronista virando as páginas de algum livro enquanto se deixa conduzir por Sherazade (literal ou metaforicamente) ‘em passadas regulares como um Dr. Livingstone das nuvens’, numa evocação em movimento do que talvez seja a principal qualidade destas crônicas: criar pontos de contato entre o mundo mental da literatura e o mundo ‘de verdade’ da política, da cultura, do futebol”, escreve Schwartz.

