
Neste sábado, 22, Celso Nascimento, Maria Luiza Nascimento Mendonça (Maí) e eu passaremos algumas horas falando ao jornalista Diego Antonelli, 31, sobre um dos capítulos mais importantes da moderna imprensa do Paraná: o semanário “Voz do Paraná” em sua fase renovadora registrada a partir de 1973. Foi quando passou a exercer papel importantíssimo na sociedade abrangente, fase que durou até 1985.
A entrevista será a primeira de uma série que teremos de dar ao Antonelli, em busca do chamado tempo perdido. Para que não prevaleçam versões fantasiosas dos fatos que definiram a importância do jornal.
VERDADES E MENTIRAS
Infelizmente, versões as mais esdrúxulas têm sido passadas sobre a vida de “Voz do Paraná”. Até a de que seria um “ninho de comunistas”. O que era um absurdo amplo e irrestrito. A começar pelo fato de o diretor geral e representante do grupo proprietário era o médico Roaldo Amundsen Koehler, notoriamente de centro-direita.
E nós – a exemplo meu, diretor de redação – éramos apenas jornalistas cristãos. Não tínhamos militância partidária, nem pretensões de fazermos jornalismo libertário. Queríamos apenas seguir a orientação da Igreja no Brasil, que era, naturalmente, contra as arbitrariedades praticadas pelo regime militar.
SAIR DAS SACRISTIAS
Essa importância na sociedade abrangente “Voz do Paraná” conseguiu ao sair das sacristias e das portas das paróquias e ganhar o mundo, tornando-se mais “secular”. Isso sem jamais perder sua marca maior, o compromisso com valores cristãos católicos.
Esses compromissos foram levados muito a sério. Um deles, o da defesa do direito de expressão, o que chegou a render ao jornal vigilância da Polícia Federal com sua censura de então.
AR LIBERTÁRIO
Esse ar libertário, em tempos de chumbo e violenta repressão aos jornais, rádios e televisões, deu a “Voz do Paraná” uma aura única. Nos meios jornalísticos a publicação começou até a ser vista como espécie de fortim do livre pensar. Muito dessa realidade decorreu mesmo da abertura que o jornal propiciou, tornando-se porto seguro para jornalistas – muitos – que não conseguiam emprego por serem politicamente de esquerda, opositores declarados ao regime vigente.
Um dos exemplos mais notáveis foi o de Teresa Urban, que ao sair da prisão política era evitada por quase todos, conforme ela mesma registrou em depoimentos à imprensa. Mas que encontrou as portas de Voz do Paraná abertas para ganhar o pão de cada dia.
SACRISTIA, NO COMEÇO
É importante lembrar: “Voz do Paraná” foi fundada nos anos 1950, pela Congregação dos Padres Claretianos, a pedido do então arcebispo de Curitiba, dom Manuel da Silveira D’Elboux. Manteve-se como jornal oficial da Cúria Metropolitana de Curitiba – com ampla penetração em outras dioceses paranaenses, onde mantinha distribuidores e correspondentes; tinha assinantes também em São Paulo e Minas Gerais.
GRANDE TIRAGEM
Os tempos facilitavam tanta expressão do jornal, que chegou a ter tiragem de 20 mil exemplares, número muito significativo para a época (e mesmo para os dias de hoje, dada a realidade brasileira da mídia impressa). Além dos assinantes, o jornal tinha venda avulsa a partir das paróquias. Na fase dos padres claretianos, havia religiosos (irmãos leigos) que faziam amplo roteiro vendendo assinaturas do jornal.
MÉDICOS CATÓLICOS
O livro que Antonelli começa a escrever, com o apoio dos três jornalistas, Maí, Celso e eu – ainda não tem nome definitivo. Por ora está sendo chamado de “História definitiva do jornal ‘Voz do Paraná’”, dentre outros nomes temporários.
Posso garantir que levar adiante a proposta do livro – plenamente aceita por Antonelli, que vem se especializando em História do Paraná – foi questão de responsabilidade histórica. Isso porque o grupo foi lendo e ouvindo as mais desencontradas e às vezes “enfeitadas” informações sobre o periódico.
Para a consecução da obra contamos com o apoio imprescindível do advogado, empresário e “publisher” Luiz Fernando de Queiroz. Ele tem um sólido currículo de investir em obras culturais, especialmente livros.
ELITE MÉDICA
O médico Roaldo Koehler – que foi secretário de Saúde de Bento Munhoz da Rocha Netto – tinha como sócios na Evopar, a editora que editava o jornal “Voz do Paraná”, outros médicos que então estavam na mais prestigiada primeira linha da Medicina local: João Átila Rocha, Amaury Munhoz da Rocha, Giocondo Villanova Artigas. Também o engenheiro Euro Brandão (ministro da Educação em substituição a Ney Braga e depois reitor da PUCPR) fazia parte do grupo, assim como o empresário Marcos Baggio Filho.
CENSURA DA “VEJA”
Para muitos que apenas o conheciam superficialmente, o médico radiologista Roaldo Koehler poderia ser tido como um “cabeça dura”, tal a obstinação com que defendia seus pontos de vista.
Na verdade, ele era homem de diálogo e dono de um dos corações mais moles que já conheci em minha vida. Mas intransigente, isso sim, no observar, com fidelidade, aos princípios de fé e moral da Igreja. Mas não flertava com os radicais, sejam eles de esquerda ou direita, esclareça-se.
“BILHETINHOS”
Até por isso, porque era homem de diálogo, foi que ele aceitou os argumentos da redação: deixou que reproduzíssemos a reportagem de capa da revista “Veja” que publicou a queda do governador paranaense Haroldo Leon Peres. Acusado de corrupção pelo governo militar.
Com aquele feito, “Voz do Paraná” não apenas rompeu a barreira da censura, fato único (“Veja” foi recolhida em todo o Brasil): o jornal “inocente” começou ali a ser olhado sob olhares de suspeição da antiga PF. E a receber os “bilhetinhos” de censura, realidades que ajudaram a colocar “Voz do Paraná” na História do moderno jornalismo paranaense.
Outras realidades menos conhecidas que ajudaram a moldar o perfil histórico do jornal estarão no livro.
