Por Eloi Zanetti – eloizanetti@gmail.com.br – Empresas apregoam aos seus funcionários que evitem erros com ordens quase sempre ameaçadoras: antes de agir, analisem com extremo critério todas as possibilidades e relacionem cuidadosamente os prós e os contras. Investiguem todas as alternativas sendo reflexivos e ponderados, e não se esqueçam de usar nosso caríssimo e complexo software de análise estatística, pois a qualquer deslize o bicho-papão da demissão pegará vocês.
Ora, ao cercear as possibilidades de erro, a empresa não inovará nem fará com que suas equipes sejam criativas — a maior exigência do mundo atual — e criará um bando de carneirinhos adeptos do Yes, sir!. Funcionários podem ser criativos em casa, na rua, com os amigos e com seus hobbies, mas, ao bater o cartão de ponto, deixam de sê-lo. A ordem “não se pode errar” é a mesma de “não se pode ousar, criar e inovar”. Quem não está disposto a arriscar não vai ser criativo e inovador nunca.
Nas empresas: muitos para dizer “não” e pouco para dizer “sim”
Este contexto é contraditório porque, ao mesmo tempo em que se prega a necessidade da inovação, solicita-se o extremo cuidado na tomada de decisões. É por isso que temos tanta gente com muita capacidade para dizer “não” e pouquíssima com capacidade para dizer “sim”. Hoje, as decisões, quando acontecem, são repartidas em comitês porque ninguém tem a coragem de se arriscar. Com isso, emperram-se os processos, perde-se tempo e as oportunidades vão bater à porta da concorrência. Gente criativa não fica em empresa castradora; se ficar, será tão infeliz que não vai ajudar em nada.
Dirigentes precisam entender que uma das funções do erro é detonar o início das histórias, que produtos campeões nasceram muitas vezes de erros históricos e que foi preciso errar muitas vezes para se chegar a uma solução satisfatória. Não estou fazendo apologia ao erro e ao descuido; estou dizendo que falhas grosseiras, chulas, advindas da falta de atenção ou do relaxo devem ser punidas. Erros oriundos de iniciativas para se fazer melhor devem ser incentivados.
O filósofo Schopenhauer nos diz que, se cometemos um erro e este custou 10 reais e não aprendemos, pagamos caro; mas, se cometemos um erro e este custou mil reais e aprendemos, pagamos barato. É preciso entender que não aprendemos com os erros, mas sim com a correção deles.
Ao iniciar um novo projeto, não devemos ter medo de errar; aliás, devemos, sim, errar bastante, e quanto mais cedo errarmos, melhor. Se não deu certo, não tem importância: o aprendizado nos ajudará a recomeçar novos projetos já com a expertise incorporada. Se, ao longo de um processo, não erramos em nada, com certeza é sinal de que também não inovamos. Processos, sistemas e projetos precisam ser corrigidos sempre. Warren Buffett, um dos homens mais ricos do mundo, disse: “Se a cada dez tentativas errarmos quatro, isto não é errar”.
O medo de errar inibe a criatividade
O receio de se arriscar, hábito que aprisiona e inibe a criatividade, tem a ver com o julgamento e a culpa, frutos de uma busca de perfeição desnecessária, pois nem sempre os trabalhos empresariais precisam de 100% de perfeição. Sendo menos rigorosos com o nosso desempenho, enfrentaremos melhor os desafios e compreenderemos que uma bola na trave vale mais do que uma para fora. Bolas na trave indicam que estamos muito perto do ideal e que não podemos nos acomodar. O compartilhar das tentativas e das correções motiva a todos e os mobiliza na busca do rumo correto. Zonas de conforto induzem ao medo de errar, e este, à imobilidade.
Só perde pênalti quem se arrisca a bater pênalti
Por outro lado, não é bom ficar preso aos erros do passado e em lamentações sem fim. Tal atitude só piora a situação. Um dos truques para se livrar dessa culpa é rememorar o erro (pela última vez) criando uma história fictícia, é claro, mas com final feliz para a situação, e repeti-la algumas vezes. O erro e a culpa irão embora da nossa mente e estaremos preparados para cometer novos erros e, com certeza, com a capacidade criativa liberada. Ao se livrar do medo dos erros, um novo e brilhante caminho em nossa carreira será aberto. Só perde pênalti quem se arrisca a bater pênalti.


Eloi Zanetti é escritor, palestrante, especialista em marketing e comunicação corporativa. Contato: eloizanetti@gmail.com
