Por Eliaquim Junior – Depois de ser “cancelado” e “engavetado” em 2023, finalmente Coyote vs Acme (2026) chega aos cinemas para o alívio e alegria dos fãs, seus realizadores e todos aqueles que amavam, e ainda amam, os Looney Tunes. E mais, o filme, que mistura animação e live action, é um deleite visual e nostálgico, ou seja, é surpreendente bom. Na verdade, nem precisava ser tão bom assim depois de todo o perrengue enfrentado para simplesmente chegar às telas.
Em tempos em que “nostalgia” virou praticamente um gênero cinematográfico e serve como justificativa para ressuscitar franquias, personagens e histórias que nem sabíamos que ainda poderiam render alguma coisa – Top Gun: Maverick é um ótimo exemplo; Gladiador 2, nem tanto, a decisão do CEO da Warner, David Zaslav, de engavetar o filme em 2023 foi, no mínimo, curiosa. Tudo isso para obter uma dedução fiscal de US$ 30 milhões. Para um estúdio do tamanho da Warner, é quase como cancelar o almoço para economizar no cafezinho.
Estamos falando dos Looney Tunes, um marco do entretenimento mundial desde 1930. Pernalonga, Patolino, Coyote, Piu-Piu e companhia fazem parte da história da animação, da Warner e, especialmente, da infância de muita gente.
O que aconteceu seria mais ou menos equivalente a Disney cancelar um filme do Mickey e depois vendê-lo para uma distribuidora aleatória. No caso de Coyote vs. Acme, foi a pequena Ketchup Entertainment que adquiriu os direitos do longa no ano passado. E, ironicamente, coube a uma empresa menor fazer aquilo que o gigante não quis: deixar o Coyote correr livremente para encontrar seu público.
Deixando a polêmica de lado, Coyote vs. Acme é uma das maiores surpresas cinematográficas do ano, daquelas que você não sabia que precisava até assistir. A premissa, por si só, é de uma inventividade singular e nasceu de um artigo publicado em 1990 na revista The New Yorker. Cansado de ser explodido, esmagado, atropelado e humilhado das mais variadas formas pelos produtos defeituosos da ACME, o Coyote decide fazer aquilo que qualquer pessoa sensata faria depois de décadas de acidentes de trabalho: processar a empresa.
Para isso, ele contrata o advogado Kevin (Will Forte, fantástico), um sujeito sem grandes ambições, preguiçoso e desacreditado, que definitivamente não está interessado em comprar briga com uma corporação gigantesca. Aos poucos, porém, o Coyote consegue convencê-lo a entrar nessa batalha.
O filme recupera o humor anárquico e inteligente dos desenhos, tem ritmo frenético, uma história enxuta, sem nenhuma gordura narrativa. Tudo funciona muito bem. A expressividade do Coyote é impressionante – parabéns à equipe de animação – e suas interações com Kevin são o motor e o coração do longa. Também é surpreendente a maneira como os personagens animados e os demais elementos digitais se encaixam no mundo real sem parecer que alguém simplesmente abriu um desenho e o jogou dentro do filme.
Voltando aos infortúnios envolvendo a produção, toda essa situação acabou criando uma ironia deliciosa que não posso deixar de comentar: o próprio filme virou o Coyote.
Ele foi produzido, concluído, teve gente trabalhando nele durante anos e, quando estava pronto para encontrar seu público, uma corporação decidiu que ele não valia o investimento necessário para ser lançado. Depois, justamente como na trama, um “pequeno” personagem enfrentou um gigante.
No fim, Coyote venceu, ele não conseguiu pegar o Papa-Léguas, mas venceu porque conseguiu continuar existindo. E, para uma indústria cinematográfica cada vez mais preocupada em determinar antecipadamente o que é “rentável”, Coyote vs. Acme deixa uma provocação bastante pertinente: talvez Hollywood precise parar de tentar prever o sucesso de todos os filmes e voltar a permitir que alguns simplesmente sejam filmes. Filmes feitos para divertir, emocionar, surpreender e, principalmente, entreter.
NOTA 9/10 

*Eliaquim Junior é cinéfilo e viciado em café (a ordem é discutível, o vício não). Escreve sobre filmes para justificar o tempo gasto assistindo a eles – e para reclamar com embasamento. Viu 125 filmes em 2025 e segue insatisfeito. Fã assumido de Spielberg e Hitchcock. Jornalista formado, e atua com edição e revisão de textos, mantendo vírgulas no lugar e expectativas altas no cinema.
