domingo, 10 maio, 2026
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‘A ESTAGIÁRIA’ NÃO É UMA CRÔNICA OFENSIVA. É SÓ MAL ESCRITA

Vinicius de Moraes: e a Garota de Ipanema?
Vinicius de Moraes: e a Garota de Ipanema?

O jornalista Guilherme Goulart escreveu crônica no “Correio Braziliense” em que tece considerações sobre uma estagiária do jornal. Deu a ela nome fictício e óbvio: Melissa, Melissinha. “Decotinho perverso, coxas de fora”. Ora, ora.

De pronto, provocou reação. Nas redes sociais, a página “Jornalista contra o Assédio” imediatamente se solidarizou com as jornalistas da redação sem que elas por essa solidariedade pedissem. É de praxe.

CURTA E GROSSEIRA

Afora a arrancada de Goulart no primeiro parágrafo, curta e grosseira, o restante da crônica se empenha em elogiar a simpatia da mocinha e sua voluntariedade. Está longe de Casanova, anos-luz de Rubem Braga e se é digno de indignação é muito mais pela ruindade do texto do que pela sedução.

Espanta que Goulart seja um cronista. Espanta que o Sindicato dos Jornalistas de Brasília, a página Jornalista contra o Assédio e semelhantes não tome a iniciativa de criticar o texto ruim e contra ele fazer uma bandeira.

Espanta também que a estagiária, codinome “Melissinha”, não tenha sido entrevistada por aqueles que se fizeram indignados. Trata-se de uma jovem de 19 anos, maior de idade, vacinada, e até onde se sabe capaz de opinar sobre a crônica. Talvez o lisonjeio tenha sido bem recebido e ela não se veja representada no protesto. Alguém perguntou?

TÍTULO INFELIZ

Carlos Zéfiro: “catecismo”
Carlos Zéfiro: “catecismo”

“A estagiária” é um título indecente. Sugere um “catecismo” de Carlos Zéfiro, com a ressalva de que este tinha um propósito definido e seu texto – aquele acima dos desenhos eróticos – era bem superior. Vide “A Gaguinha” (impagável).

Goulart foi previsível ao publicar um pedido de desculpas em texto intitulado “Um erro sem perdão”. Deu uma explicação desenxabida. Disse que, ao iniciar a crônica, tinha a “intenção de denunciar o assédio”, mas não conseguiu se expressar direito. Ora, ora.

O QUE SERIA DA ‘GAROTA DE IPANEMA’?

A editora-chefe do Correio Braziliense, Ana Dubeux, mãe, avó (e recatada?), saiu-se com a mesma desculpa esfarrapada ao colocar-se na trincheira contra o assédio nas redações. O problema não foi o suposto uivo do lobo da alcateia, a salivação do cão de Pavlov, o desfile da fêmea a despertar nos machos da savana o desejo de carne e cópula. O problema foi o texto ruim para uma argumentação rasteira. Há poesia na mulher ou o que seria de Vinicius de Morais? O que seria da “Garota de Ipanema”? Goulart não descreveu Melissinha como uma “estagiária gostosa”, mas quase. O que houve com o velho jornalismo?

LINK: http://bhaz.com.br/wp-content/uploads/2017/09/cronica-da-cidade.jpg

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