quinta-feira, 30 abril, 2026
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Osmar: “Governar o Paraná é alvo definitivo” (final)

José Richa e Ernesto Geisel
José Richa e Ernesto Geisel

Osmar Dias, concluo de nosso recente encontro em seu escritório no Alto da Glória, vai mesmo definir as alianças de sua candidatura ao governo do Paraná só “depois do Carnaval”.

Mas a decisão de concorrer é irrevogável: desta vez o Palácio Iguaçu é um alvo muito forte, objetivo de que se ocupa integralmente.

Acredita piamente que sua hora é agora e que reina uma grande corrente de apoio ao seu nome no Estado todo.

Será sua terceira tentativa de chegar lá, tendo sido histórica, por exemplo, a campanha de 2006, quando perdeu a eleição para Roberto Requião por apenas 10 mil votos. Em 2010, foi derrotado por Beto Richa.

CPI DA CORRUPÇÃO

Algumas alianças para 2018, no entanto, já começam a ser discretamente examinadas, é o que entendo. Mas ele não cita nomes.

Discrição é uma das marcas desse político que não esconde ter no irmão Álvaro um grande referencial. Viveu alguns projetos políticos com ações fraternas conjuntas, como foi aquela quando ousou, no segundo Governo do FHC, a apoiar da CPI da Corrupção, encabeçada por um político paradigmático, o senador Pedro Simon (PMDB-RS).

EXPULSOS

Álvaro e Osmar – lembram-se? – ousaram discordar das diretrizes tucanas, reclamaram e votaram pela apuração de bandalheiras que teriam sido praticadas pelo Governo Federal; como consequência, foram expulsos do PSDB. Em 2001, os dois se abrigaram no PDT, partido que Osmar preside no Paraná.

Por vezes tenho a impressão que há uma enorme ‘gap’ entre o perfil e a história do ex-senador e a de estranhos nomes que dirigem a sigla pedetista nacionalmente.

PARA ENTENDÊ-LO

O ‘facies’ psicológico de Osmar Dias deixa bem à mostra o seu tema preferido, dominante na vida desse homem público que nasceu e se criou nas lides do campo: a agropecuária, o agronegócio.

Quatro dos outros irmãos, um deles Álvaro Dias, foram para o seminário diocesano de Botucatu. Era uma boa alternativa para as famílias, nos anos 1950, educarem os filhos, com ensino de qualidade. Vocação religiosa para o sacerdócio não era a preocupação primeira.

Osmar, no entanto, ficou “na roça”, acordando com o toque da alvorada pelo pai às 6 horas – “quando se tomava um café reforçado” -, e se embrenhavam todos no campo para toda sorte de trabalho, nas lavouras, com o gado, com os suínos. Às horas, 10 horas, almoço; às 13h30, lanche; às 18 horas, jantar.

BIOSSEGURANÇA

Ao examinar a trajetória de Osmar Dias, lembro-me de depoimentos que me deram alguns personagens da área científica – como o hoje reitor da PUCPR, Waldemiro Gremski -, sobre como Osmar conduziu no Senado certas ações. Como exemplo, ao presidir a comissão que tratou de questões vitais, como a dos transgênicos e a das células embrionárias em pesquisas científicas.

Dele ficou a autoria de uma lei de desdobramentos na vida do país, a que criou a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio).

Trata-se de instância colegiada multidisciplinar para dar apoio técnico e assessoramento ao Governo na implementação da política de biossegurança de organismo geneticamente modificados, dos organismos vivos e do meio ambiente.

INFORMALIDADE RURAL

A entrevista com ele vai, no entanto, fluindo, em torno de realidades que o ex-senador (teve dois mandatos, totalizando 16 anos, a partir de 1995) construiu. Uma das muito significativas para as relações trabalhistas foi o seu projeto gerador da PEC 28.

A PEC pôs fim à informalidade trabalhista no campo. A lei deu tratamento igual ao empregado rural ao urbano.

A emenda constitucional gerou, logo em seguida, cerca de 500 mil registros de trabalhadores rurais em carteira de trabalho. A informalidade, lembra Osmar, era um mau negócio tanto para os trabalhadores rurais quanto os empregadores.

PRIORIDADE NO SUS

Na história de vida de Osmar há outros marcos de que se orgulha, como a lei que deu legalidade aos estágios. Sem mencionar nome, lembra que é de sua autoria (e não de um deputado) a lei que estabeleceu prioridade no atendimento no SUS de mulheres com sintomas de neoplasia, bem assim como a legislação que dispôs sobre a questão tributária das cooperativas.

MÚSICA DE RAIZ

Osmar não precisa fazer força para “inserir-se” na chamada cultura popular. Seus mais próximos sabem que ele é um amante inveterado de música de raiz, a sertaneja, e sempre teve como amigos gente de expressão na área, como Zé Rico (da dupla Zé Rico e Milionário), de quem tem – dizem – todas as gravações, sempre disponíveis no carro, especialmente nas longas viagens. Nessas andanças, sempre se cercou de amigos de outro estrato social, mas de quem foi muito próximo, como Odilon, que fora ponta esquerda do Coritiba, e Macalé, que jogara no Santos e no Bandeirantes. Foram motoristas e companheiros de jornadas eleitorais do ex-senador.

Barão do Serro Azul e Zé Rico
Barão do Serro Azul e Zé Rico

Macalé, lembra Osmar, era o companheiro que, por vezes, dizia-lhe:

“Vamos parar um pouco e entrar numa igreja, para uma oração”. E iam rezar.

Junto com a música de raiz, e tendo ainda entre amigos gente como o cantor Sergio Reis, Osmar foi ao mesmo tempo um devoto de futebol. Na verdade, entre seus auxiliares mais próximos, havia outros jogadores, como Mauro e Oscar, expoentes de uma época no futebol do Paraná.

BARÃO DO SERRO AZUL

Orgulhos para Osmar são as filhas: Rebeca, com doutorado em História do Direito, feito em forma de “sanduíche”, entre Europa e Brasil; e Daniela, juíza em Jaraguá do Sul, nos próximos dias, e que até agora atuou em Chapecó, estando, pois, profundamente chocada com a morte dos craques do Chapecoense: “Os filhos de certos jogadores brincavam com meu netinho, na área de lazer do prédio da filha…”, diz.

ELITES DECISÓRIAS

Com tanta exposição na sociedade paranaense abrangente, e aceitação em áreas as mais diversas, como o agronegócio, seu chão, faixas populares e elites decisórias, Osmar pode exibir um portfólio único em sua história de vida.

De suas marcas mais apreciáveis é o fato – lembra – de ter conseguido, por meio de lei apresentada no Congresso, colocar o Barão do Serro Azul na relação dos Heróis da Pátria. Depois de o Barão ter sido apontado como “traidor”, decorrência de momento histórico da Revolução Federal de 1892.

Esses registros que faço são uma amostra do perfil que estou construindo – com Marleth Silva – para o volume 9 de “Vozes do Paraná”, em que Osmar será personagem ao lado de outros construtores do Paraná moderno.

Leia mais:

Osmar: “Governar o Paraná é alvo definitivo” (1)

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