terça-feira, 28 abril, 2026
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Mamboré, Cascavel e Campo Mourão estiveram no “roteiro nazista”

Joseph Mengele, Marcos Guterman e Claus Barbie
Joseph Mengele, Marcos Guterman e Claus Barbie

Quais as ligações da longínqua cidade paranaense de Mamboré com o regime nazista?

Para o jornalista Marcos Guterman, de O Estado de São Paulo, a cidadezinha foi abrigo de Joseph Mengele, um dos tantos fugitivos oficiais nazistas que permearam logo após o fim da II Guerra Mundial, até anos 1970, o panorama da Argentina, Paraguai e pontos do sul Brasileiro.

O assunto Mamboré é parte de outros capítulos em que Marcos, no recém lançado livro “Nazistas entre nós – a trajetória dos oficiais de Hitler depois da Guerra”, mergulha fundo em alguns “ninhos nazistas” da América do Sul estabelecidos a partir de 1945.

ALGOZES

O livro prende atenção do começo ao fim, pois ordena, em linguagem jornalística e fundamentado em fontes seguras, a trajetória de algozes de judeus e outras minorias (como ciganos, homossexuais e deficientes físicos e mentais) nos países citados e também na Bolívia e Chile. Em La Paz, incrível, Claus Barbie, o carrasco de Lyon, não só ganhou cidadania boliviana, como se tornou autoridade de primeiro escalão de Garcia Meza, o presidente ditador e alimentado por projetos nazifascistas.

MENGELE

capa_nazistas_entre_nos_impSegundo relato do livro de Guterman, “Mengele teria sido visto um par de anos na remota Mamboré, no Paraná, cidade que na época tinha menos de 10 mil habitantes. Com o nome de Joseph Kanat, o carrasco teria feito diversas cirurgias sem anestesia, partos sem cuidados e outras barbaridades na cidade”.

Guterman garante que a Interpol chegou a ser acionada, mas, após rápida investigação, concluiu que se tratava de mero boato.

VOLTOU EM 67

Ainda segundo o livro, Mamboré voltaria ao noticiário em 1967, quando a Polícia Federal informou ao governo da então Alemanha Ocidental que Mengele poderia estar naquela região, próxima ao Paraguai e Argentina. A polícia suspeitava que o carrasco não teria residência fixa, transitando entre Campo Mourão, Cascavel, Cordélia e Iporã, além de entrar e sair da Argentina com documentos falsos.

REDE DE APOIO

Para os que não desconhecem a dimensão que assumiu a presença nazista no Brasil, o livro assegura ainda sobre Mengele: “As informações foram obtidas quando a Polícia Federal estava empenhada em desarticular uma rede de proteção de nazistas no Paraná”.

NÃO ERAM POUCOS

Prossegue o livro, mais adiante: “As autoridades brasileiras sabiam da existência de nazistas naquela região do país, e que não deveriam ser poucos. A região pode ser vista como ideal, na época, para abrigar criminosos nazistas e seus cúmplices: tinha forte presença de imigrantes alemães, e, além disso, ficava próximo da Argentina e Paraguai, dois conhecidos refúgios de remanescentes do Terceiro Reich”.

Foi esse “clima” germânico (um tanto nazista, sugere o autor) que fez com que Mengele se sentisse um tanto “em casa”, nos seus primeiros anos de América do Sul.

O livro é lançamento da Editora Contexto.

Eu mesmo posso dar testemunho: encontrei, nos anos 1970, vestígios deixados por dois ex-oficiais nazistas num mosteiro cisterciense no interior de São Paulo.

Os dois haviam professado como monges (irmãos) e vivido em Itatinga por vários anos, em absoluta reclusão. Isso não os fez desfazerem-se de marcas de seus passados, como espadas, quepes e uniformes das tropas nazistas da II Guerra.

Os corpos dos dois estão enterrados no pequeno cemitério da comunidade religiosa paulista.

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