
Quais as ligações da longínqua cidade paranaense de Mamboré com o regime nazista?
Para o jornalista Marcos Guterman, de O Estado de São Paulo, a cidadezinha foi abrigo de Joseph Mengele, um dos tantos fugitivos oficiais nazistas que permearam logo após o fim da II Guerra Mundial, até anos 1970, o panorama da Argentina, Paraguai e pontos do sul Brasileiro.
O assunto Mamboré é parte de outros capítulos em que Marcos, no recém lançado livro “Nazistas entre nós – a trajetória dos oficiais de Hitler depois da Guerra”, mergulha fundo em alguns “ninhos nazistas” da América do Sul estabelecidos a partir de 1945.
ALGOZES
O livro prende atenção do começo ao fim, pois ordena, em linguagem jornalística e fundamentado em fontes seguras, a trajetória de algozes de judeus e outras minorias (como ciganos, homossexuais e deficientes físicos e mentais) nos países citados e também na Bolívia e Chile. Em La Paz, incrível, Claus Barbie, o carrasco de Lyon, não só ganhou cidadania boliviana, como se tornou autoridade de primeiro escalão de Garcia Meza, o presidente ditador e alimentado por projetos nazifascistas.
MENGELE
Segundo relato do livro de Guterman, “Mengele teria sido visto um par de anos na remota Mamboré, no Paraná, cidade que na época tinha menos de 10 mil habitantes. Com o nome de Joseph Kanat, o carrasco teria feito diversas cirurgias sem anestesia, partos sem cuidados e outras barbaridades na cidade”.
Guterman garante que a Interpol chegou a ser acionada, mas, após rápida investigação, concluiu que se tratava de mero boato.
VOLTOU EM 67
Ainda segundo o livro, Mamboré voltaria ao noticiário em 1967, quando a Polícia Federal informou ao governo da então Alemanha Ocidental que Mengele poderia estar naquela região, próxima ao Paraguai e Argentina. A polícia suspeitava que o carrasco não teria residência fixa, transitando entre Campo Mourão, Cascavel, Cordélia e Iporã, além de entrar e sair da Argentina com documentos falsos.
REDE DE APOIO
Para os que não desconhecem a dimensão que assumiu a presença nazista no Brasil, o livro assegura ainda sobre Mengele: “As informações foram obtidas quando a Polícia Federal estava empenhada em desarticular uma rede de proteção de nazistas no Paraná”.
NÃO ERAM POUCOS
Prossegue o livro, mais adiante: “As autoridades brasileiras sabiam da existência de nazistas naquela região do país, e que não deveriam ser poucos. A região pode ser vista como ideal, na época, para abrigar criminosos nazistas e seus cúmplices: tinha forte presença de imigrantes alemães, e, além disso, ficava próximo da Argentina e Paraguai, dois conhecidos refúgios de remanescentes do Terceiro Reich”.
Foi esse “clima” germânico (um tanto nazista, sugere o autor) que fez com que Mengele se sentisse um tanto “em casa”, nos seus primeiros anos de América do Sul.
O livro é lançamento da Editora Contexto.
Eu mesmo posso dar testemunho: encontrei, nos anos 1970, vestígios deixados por dois ex-oficiais nazistas num mosteiro cisterciense no interior de São Paulo.
Os dois haviam professado como monges (irmãos) e vivido em Itatinga por vários anos, em absoluta reclusão. Isso não os fez desfazerem-se de marcas de seus passados, como espadas, quepes e uniformes das tropas nazistas da II Guerra.
Os corpos dos dois estão enterrados no pequeno cemitério da comunidade religiosa paulista.
