sábado, 25 abril, 2026
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O mentor da Lava Jato, em “Documento Reservado”

Capa do nº 1 da revista Documento Reservado. No nº 2: nova fase
Capa do nº 1 da revista Documento Reservado. No nº 2: nova fase

Quem imaginava que a mídia impressa estaria vivendo seu estertor no Paraná, agora tem sérios motivos para admitir que não. Isso especialmente no caso de revistas ilustradas mensais, em que, até meses atrás, reinava absoluta, em qualidade e frequência, a Ideias, de Fábio Campana Edição da Travessa dos Editores.

No que toca a jornais, Curitiba, por exemplo, limita-se apenas à Gazeta do Povo, jornal líder do Paraná, mas sem o brilho de poucos anos atrás, quando os irmãos Ana Amélia e Guilherme Cunha Pereira assumiram o comando da publicação. E a direção de redação era de Sandra Gonçalves.

RESTAM AS DUAS

Pois a alta qualidade editorial e gráfica da revista Ideias passa a ter uma parceira à altura: a revista Documento Reservado (nova fase, ou segundo tempo), que o jornalista Pedro Ribeiro cedeu em arrendamento ao grupo jornalístico (do qual faz parte Rádio Barigui) comandado por Érico Mórbis e Marcos Batista (ex-TV RPC).

“INTOCÁVEIS”

O segundo número do Documento Reservado nessa nova fase, já nas bancas e acessível pela web, tem uma pauta jornalística que só quem é mesmo do ramo mesmo sabe montar.

A “pièce de resistence” dessa pauta é a Lava Jato e seu mentor, o muito experiente procurador Carlos Fernando do Santos Lima. Mas concede espaço igualmente à “estrela” da operação, o midiático procurador federal Deltan Dallagnol, o que mais ‘brilha’ Brasil afora, sem ser, no entanto, o mais importante, é certo.

“GAFANHOTOS”

Carlos Fernando dos Santos Lima: discrição e eficiência
Carlos Fernando dos Santos Lima: discrição e eficiência

Na minha opinião, só o conjunto da Lava Jato é importante, embora se reconheça, por justiça, em Carlos Fernando ser o “primus inter pares”.

Carlos Fernando, maduro e experimentado na vida do Ministério Público Federal (MPF) concede-se momentos de bom humor na entrevista:

Num deles cita Dallagnol, de quem, sutilmente justifica o “brilho”, por ser bonito e mais jovem que ele…

A revista abre amplo espaço para os dois. Em comum, Carlos Fernando e Dallagnol mostram uma profunda decepção com os caminhos da justiça que, por vias diversas acaba gerando impunidades. Tal como aconteceu com as operações ‘Gafanhotos’ e ‘Banestado’.

Leia trechos das entrevistas, a seguir:

MORTE ANUNCIADA

“Carlos Fernando dos Santos Lima diz que exerce uma função mais gerencial.

“Resolvo problemas que a Lava Jato enfrenta diariamente. Um deles é que o seu fim é anunciado todo dia. E aí, precisamos desmentir e mostrar que a operação está forte graças ao apoio da população”.

O procurador também é muito solicitado para dar palestras, mas diz que sempre prefere “passar a bola” para o coordenador da Lava Jato, Deltan Dallagnol, que considera “uma figura mais bonita, mais jovem e que tem mais facilidade de falar em público”, diz em tom de brincadeira.

AJUDA DA SORTE

Numa dessas palestras, em Curitiba, o procurador falou que parte do sucesso da Lava Jato se deve à sorte, e claro, à genialidade do grupo de trabalho.

“Se o país não estivesse vivendo uma crise econômica, talvez os grupos políticos dominantes tivessem conseguido impedir as investigações. Tivemos sorte na ausência de lideranças políticas capazes de frear o nosso trabalho”. E acrescenta que provavelmente elas não tenham percebido a importância das investigações e que elas alcançariam tamanha dimensão. “Hoje, é quase impossível que ela, efetivamente, seja parada. Entretanto, enfrentamos diariamente uma luta pela sobrevivência dessas investigações”.

POLÍTICOS SABOTAM

Carlos Fernando afirma que o MPF tem conhecimento de que há uma movimentação de lideranças políticas para desacreditar essas investigações. “Então, precisamos continuadamente do apoio da população”.

Depois de dois anos e meio de muito trabalho na força-tarefa, Santos Lima ainda se surpreende com os rumos que as investigações tomaram depois que foi descoberta a doação de um carro para o então diretor da Petrobrás, Paulo Roberto Costa, por um dos quatro doleiros que vinham sendo investigados.

REDE DE CORRUPTOS

“A partir daí, chegamos a uma rede extensa de corrupção dentro da maior estatal brasileira, e mais tarde, verificou-se que praticamente toda a administração pública federal estava tomada pelos desvios do dinheiro público”. Os procuradores encontraram indícios de crimes na Eletrobrás, Eletronuclear, Caixa Econômica e nos ministérios da Fazenda e do Planejamento. “O pior é saber que isso acontece também em quase todos os governos estaduais e municipais”.

REFORMAS POLÍTICAS

O procurador federal também é um defensor de mudanças na maneira de se fazer política no Brasil. Mas para ele, não adianta só mudar a lei processual penal.

“Para bancar campanhas políticas tão caras, e eventualmente ter enriquecimento pessoal, o político não vê, ou não quer ver outra solução que não seja roubar dinheiro público. O país precisa aprovar uma reforma política, já”. Santos Lima afirma que é essa necessidade de dinheiro que gera criminalidade.

Na visão de Carlos Fernando, um dos maiores méritos da Lava Jato foi ter revelado como é financiada a política no Brasil: com recursos públicos desviados para o pagamento de propina. O integrante da força-tarefa também defende a diminuição do número de partidos políticos.

JUSTIÇA ELEITORAL

Segundo ele, são mais de 30 partidos que se beneficiam do dinheiro do contribuinte.

Além disso, afirma Carlos Fernando, a Justiça Eleitoral não funciona. “Os prazos para impugnar uma candidatura são exíguos. E o julgamento das ações é demorado. Muitas vezes, o político termina o mandato sem que a sua candidatura tenha sido julgada”.

Figuras como o Juiz Sérgio Moro, o procurador Deltan Dallagnol, o procurador-geral da república, Rodrigo Janot são emblemáticas, mas na opinião de Santos Lima, o brasileiro não pode ficar dependente de pessoas, e sim de instituições. “Precisamos de mudanças e que as coisas evoluam de forma positiva.

O que hoje é considerado excepcional, deve ser considerado normal no futuro”.

2,3 MILHÕES DE ASSINATURAS

A coleta de 2, 3 milhões de assinaturas para que o projeto das 10 medidas pudesse ser votado no Congresso Nacional, foi muito importante para o processo de mudanças, mas agora, “deputados federais e senadores têm o dever de analisar essas propostas elaboradas por especialistas de todo o país, e se tiverem ideias melhores, devem ser apresentadas.

O que a sociedade não pode deixar que aconteça é que destruam as dez medidas”.

“Há propostas, por exemplo, para criar o foro privilegiado para ex-presidentes. Outra quer impedir colaborações de pessoas presas”.

DELAÇÕES

Segundo o procurador, “do total de acordos na Lava Jato, 20% foram feitos com pessoas presas e 80% com quem está em liberdade. Então, nós temos no Congresso muitas dessas medidas que são sugeridas ao sabor do momento e quase alcançam o seu resultado: amordaçar o Ministério Público e impedir as investigações”.

Chamados de heróis, Carlos Fernando diz que juízes, procuradores, delegados e agentes que atuam nesse processo todo são apenas funcionários públicos que fazem o trabalho para o qual são pagos para fazer. “Nós ainda vamos ver muitas tentativas de colocar a população contra os procuradores e juízes, mas eu peço que ouçam a razão e continuem apoiando a operação desta instituição tão séria quanto é o Ministério Público Federal, assim como outras”, finaliza ele.

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