sábado, 25 abril, 2026
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Baixarias e crenças religiosas marcam campanhas no país

Além das baixarias que vêm permeando as campanhas de segundo turno para prefeito em todo o Brasil, muitas sobre supostos erros ‘imperdoáveis’ de candidatos, há outro importante fator a registrar, animador de argumentos prós e contras de cada pretendente a prefeito. É o fator religião.

Antes, no entanto, de entrar no “religare”, lembro níveis de baixo calão a que chegamos nestas campanhas, em que quase nada é poupado.

EXCLUI OS GLÚTEOS

Nas redes sociais, por exemplo, referindo-se à sua pretensão de voltar à Prefeitura de Curitiba, Rafael Greca assegura, em entrevista a uma televisão – concedida a Oggier Buch – que não irá governar com os glúteos.

Ele usa a palavra popular de glúteos (b…) depois de negar que pratique qualquer comportamento sexual não heterossexual. E de dizer-se bem casado; embora não discrimine, assegurou, ações sexuais diversas de terceiros. “Não governarei com a b…”, registrou o histriônico ex-prefeito, como quem diz que o tema não é relevante.

DROGAS ILÍCITAS

Ney Leprevost, dono de ficha limpíssima, não escapa dos malabarismos de linguagem, em que até um irmão dele é injustamente envolvido em supostos interesses numa associação de caridade.

Assim, ao jovem Ney, com largo portfólio de iniciativas na área de saúde – como o Teste do Pezinho – procura-se imputar familiaridade com drogas ilícitas. Palavras, enfim, ao vento, sem fundamentos, sem uma prova, pura especulação com objetivos bem definidos.

CRENTE OU NÃO CRENTE

Deus e as forças do celeste têm estado na campanha de segundo turno de Curitiba. E no Brasil todo.

Desta vez, o catolicíssimo Rafael Valdomiro Greca de Macedo de hoje é bem diferente do candidato a prefeito de 1992, quando centrava as suas falas em grandes acentos da realidade popular católica.

Naqueles dias, quando a Igreja Católica ainda vivia em Curitiba seus últimos tempos de domínio das massas, Greca insistia na devoção a Nossa Senhora da Luz, invocação da padroeira da cidade e marca de sua Catedral.

O grande ícone pentecostal da Curitiba de então, pastor Pimentel Carvalho, da Assembleia de Deus, sequer era mencionado pelos prefeituráveis como possível cabo eleitoral.

OUTRA FACE DA FÉ

Hoje Greca ainda se segura em Deus, é certo. Mas, esperto, não dá socos contra os ventos: sabe que o pentecostalismo, em suas diversas formas, vai-se agigantando na Curitiba das periferias pobres, sobretudo. Por isso mesmo, sua fala de agora tem certo tom ecumênico. A Virgem foi esquecida.

Já Ney Leprevost se confessa “católico não dogmático”, uma expressão a ser decodificada, pois a Igreja Católica se fundamenta em dogmas, alguns comuns também da crença dos protestantes/evangélicos. Como exemplo, a concepção virginal de Jesus, a Ressurreição dos Mortos, a Vida Eterna… De qualquer forma, Ney sempre se mostrou cristão aberto ao ecumenismo: recebe bênçãos de pastores, recebe apoios de igrejas como a Primeira do Evangelho Quadrangular, aposta nas casas terapêuticas das igrejas para recuperação de “homeless” e drogaditos.

Da mesma forma, aconselha-se – ou diz ouvir – a opinião de personagens da vida católica, como o arcebispo de Curitiba sobre a realidade social da cidade.

UNIVERSAL DO REINO

A forma amena com que Greca de Macedo e Ney Leprevost deambulam em torno do tema religião não tem nada parecido como que o Rio encara sua “guerra religiosa” em torno da sucessão na Prefeitura da cidade.

Os dois Marcellos – Crivella, bispo da Igreja Universal -, e o deputado estadual (PSOL) Freixo, até dias atrás identificado por radicalismos à esquerda, confrontam-se duramente em tono da religião.

Na semana, 12 padres do Rio de Janeiro, e uma centena de fiéis católicos participantes de pastorais (incluindo uma freira) largaram manifesto em favor de Freixo. Cometeram o erro essencial no mundo católico de apresentar suas opiniões como se fossem da Igreja Romana no Rio, fato desmentindo pelo cardeal arcebispo dom Orani Tempesta.

FALA COM OS POBRES

O bombardeio a Crivella, típico cidadão do agrado da classe média carioca (e dos pobres, idem) tem sido constante.

Os veículos de divulgação, como O Globo e rede Globo e outras televisões – não têm poupado o representante de Edir Macedo, o dono da Rede Recorde de Rádio e Televisão. Edir é tio de Crivella.

A eleição de Crivella (muito provável) seria vista como ameaça pela Globo, e como ponto de partida para a consumação do projeto da Igreja Universal de, tão cedo quanto possível, chegar à Presidência da República.

ABORTO E CASAMENTO

A Igreja Católica, no Rio, não dá uma palavra sequer – oficialmente – em favor de qualquer um dos dois Marcellos. Mas uma autoridade da Cúria carioca foi precisa, ao negar o direito de aquele grupo de padres e leigos falarem em favor de Freixo como se estivessem falando pela Igreja: lembrou que o deputado do PSOL é pelo casamento de pessoas do mesmo sexo e defende a descriminalização do aborto.

Esses pontos – aborto e casamento gay – são pontes que ligam a doutrina católica à de igrejas pentecostais. Mas não necessariamente a todas as denominações protestantes, como Luterana, Anglicana e ramos do metodismo e presbiterianismo no Brasil.

CHUTE NA SANTA

O bombardeio recente contra Crivella foi amplificado nas últimas horas. Sempre em torno de sua “obra” anticatólica e contra as religiões de matrizes afro-brasileiras (macumba, candomblé, etc.). E mais que isso, até atos supostamente criminosos.

FICHA POLICIAL

A revista ‘Veja’ conseguiu a policial de Crivella, quando ele foi fichado por ter expulsado uma família no muque e com revólver, moradora nos fundos de propriedade da Universal, no Rio.

Mas mais pesadas ainda foram as “obras” do pastor Crivella, a favor do chute na imagem de Nossa Senhora Aparecida e sua aversão à religião católica e ao candomblé, tudo redescoberto com a leitura de um livro que o bispo/pastor escreveu nos anos 1980.

ARREPENDIDO

Claro que Crivella se diz arrependido pelos que chamou de “erros da juventude”, proclamou sua conversão ao ecumenismo e aversão aos radicalismos religiosos.

Para quem conhece as verdadeiras bases do neopentecostalismo da Teologia da Prosperidade constantes da Igreja Universal do Reino de Deus, será mesmo difícil alguém permanecer nessa denominação de Edir Macedo dividindo espaço com os “demônios” encarnados pela Igreja Católica e as religiões de matrizes afro.

Mas Crivella é capaz dessas ambiguidades. A mais recente é de garantir que governará para a Zona Sul carioca – “espelho do Rio”. Isso – deixou bem claro – sem desagradar a gente pobre, com a qual, alega, por sua condição de evangélico, tem muita facilidade de penetração. Enfim, Deus continua sendo um enorme leitor neste segundo turno.

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