sábado, 25 abril, 2026
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Hanseníase tem tratamento, mas continua sendo ameaça

Professores Marcelo Távora Mira e Paula Cristina Trevilatto.
Professores Marcelo Távora Mira e Paula Cristina Trevilatto.

Quem tem medo da hanseníase, ou lepra (palavra em desuso) – indaga-se.

Nas páginas do Novo Testamento, assim como no Velho, os casos de leprosos e de curas de lepra são muitos.

Como são muito claro os sinais indicadores de que esses doentes “tinham” de ser segregados e, mais que isso, sofriam exclusão social quase absoluta.

No mundo ocidental moderno, durou até parte do século 20 a exclusão dos atingidos pelo bacilo de Hansen. Os chamados leprosários – como o São Roque, de Piraquara, há 30 anos transformado em Hospital Dermatológico – é exemplo de como a doença foi encarada no país. Era preciso isolar o doente nas chamadas colônias de leprosos, ou leprosários.

ESTIGMAS

A chamada lepra é doença que atravessa milênios e ainda permanece resistente em pleno século 21. Estigmatizada por longo tempo, a hanseníase perturba ainda hoje especialistas e pesquisadores. Afinal, mesmo sendo contagiosa, apenas cerca de 5% das pessoas que entram em contato com a bactéria desenvolvem a doença.

QUEM FICA DOENTE

O que leva a alguns indivíduos ficarem doentes e outros não? A resposta pode estar no nosso genoma.

Alterações em determinados genes podem indicar quais pessoas são mais suscetíveis a desenvolverem a hanseníase. É o que vem sendo estudado pelo Núcleo de Investigação Molecular Avançada da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Segundo o coordenador da pesquisa, o professor Marcelo Távora Mira, associado à professora dos Programas de Pós-Graduação em Ciências da Saúde e Odontologia, Paula Cristina Trevilatto, já foram identificados e confirmados em pelo menos duas populações de todo o planeta cerca de 20 genes envolvidos no controle da doença.

Ex-Leprosário São Roque, em Piraquara, PR
Ex-Leprosário São Roque, em Piraquara, PR

CEM GENES

A estimativa é de que este número possa chegar a 100 genes de um total de 25 mil que o ser humano carrega consigo.

Desses, 20 genes já descobertos, pelo menos quatro foram resultados das pesquisas do grupo coordenado por Mira.

GENE PARK2

O primeiro foi descoberto em 2004. “Foi identificada uma variação no gene PARK2 na população brasileira e do Vietnã que predispunha à hanseníase. Importante salientar que o gene todo mundo tem. São variações no gene que pode gerar predisposição para a doença”, explica o pesquisador.

A missão é desvendar quais são os demais genes que contribuem para tornar o indivíduo suscetível a desenvolver hanseníase. “São vários genes que atuam em conjunto, muitos ainda desconhecidos. É uma doença poligênica”, ressalta Mira.

MAPEAMENTO

Futuramente esses estudos podem contribuir para que seja viável um mapeamento genético dos seres humanos a fim de identificar quais são as pessoas mais propícias a desenvolver a doença, o que poderia ajudar a evitar o surgimento da hanseníase. “Hoje, isso ainda não é possível. Mas no futuro deve ser”, aposta o pesquisador. Além disso, os estudos podem contribuir para o aperfeiçoamento dos tratamentos existentes.

Jesus curando leproso
Jesus curando leproso

CURA

Enquanto o futuro não chega, as pessoas que adquirem a doença atualmente podem ser perfeitamente curadas. O tempo de tratamento pode ser de até um ano. No entanto, se não tratada, a doença pode levar a deformidades graves, levando o doente a sérias incapacidades físicas. “A doença afeta os nervos, que não regeram mais”, afirma Mira.

NO MUNDO

Em todo o mundo, cerca de 250 mil novos casos surgem anualmente. No Brasil, em 2015, segundo o Ministério da Saúde, foram confirmados 28,7 mil novos diagnósticos de hanseníase – no Paraná foram 761 casos.

TRATAMENTO

O tratamento pode ser buscado no sistema público de saúde. O tratamento específico da hanseníase, recomendado pela Organização Mundial de Saúde – OMS e preconizado pelo Ministério da Saúde é administrar uma associação de medicamentos, procedimento chamado de poliquimioterapia.

“É um tempo longo para tratar e pode gerar efeitos colaterais. Mas as pessoas não devem desistir”, ressalta o pesquisador.

ENTENDA

A hanseníase é uma doença crônica, infectocontagiosa, cujo principal agente etiológico é a bactéria Mycobacterium leprae. A doença atinge pele e nervos periféricos podendo levar a sérias incapacidades físicas.

O ser humano é reconhecido oficialmente como a única fonte de infecção, embora tenham sido identificados animais naturalmente infectados – o tatu, o macaco mangabei e o chimpanzé. Embora acometa ambos os sexos, observa-se predominância do sexo masculino.

A hanseníase é transmitida principalmente pelas vias respiratórias de pacientes não tratados. “A forma de impedir que se contraia a doença é evitar o contato com o doente”, diz o professor Marcelo Mira.

ACABAR COM O MAL

A Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou neste ano uma estratégia global para acabar com a hanseníase. A agência quer que os países assumam compromissos mais fortes e acelerem os esforços para pôr um fim à transmissão, assim como à discriminação e ao estigma da doença.

O objetivo é reduzir até 2020 a zero o número de crianças diagnosticadas com a doença e, com isso, diminuir o ritmo de novos diagnósticos para menos de um para cada um milhão de pessoas.

213 MIL CASOS

Segundo a OMS, foram registrados mais de 213 mil casos de hanseníase em 2014. Aproximadamente 94% desse total foram detectados em apenas 13 países e o Brasil é um deles.

Os dados da Organização mostram ainda que Brasil, Índia e Indonésia juntos, são responsáveis por 81% dos casos da doença em todo o mundo.

(Leia ampla reportagem de Diego Antonelli, no Jornal Universidade Ciência e Fé, de outubro, entregue gratuitamente nas livrarias Vozes, Paulus, Paulinas e faculdades como a FAE e Espírita Bezerra de Menezes).

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