
Ricardo Pussoli tinha orgulho de ser empreiteiro de obras, a maioria delas no âmbito do poder público. Acho que sentia-se construindo, como parte da equipe do Criador, aquele em quem tanto confiou.
Se vivo estivesse, poderia continuar exibindo a mesma marca profissional que o identificou por 70 anos, a de empreiteiro muito diferenciado; e a de ter sido peça singular na edificação da vida curitibana no século 20, pois em Curitiba se criou e se projetou. E onde se fez paradigmático, cada vez mais raro, pela boa qualidade dos serviços prestados.
As diferenças que ele fazia no mundo dos construtores de obras públicas eram muitas. A começar porque, sem alardes e sem criar atritos, não aceitava cartéis: ele é quem, dizia com orgulho, definia o preço de seu serviço. Não entendia outra forma de trabalhar. E tudo sob o signo de uma ficha pessoal limpíssima.
2 – LUCRO, UMA CONSEQUÊNCIA
As equações que expunha, por exemplo, ao desenhar suas obras, eram claras, definindo tempos, custos, meios e resultados com absoluta singeleza. O lucro para Pussoli – e essa ideia ele me passou com muita firmeza – seria, como cansava de dizer, “apenas consequência do bom trabalho feito”.
No começo de sua vida empresarial em Curitiba – “um pequeno e solitário entre gigantes bem estabelecidos e com sólidas raízes no patriciado da cidade” -, como explica seu filho, o engenheiro Rafael Erico Pussoli, as dificuldades a vencer foram enormes.
Talvez a maior delas, a grande barreira, tenha sido ganhar a confiança dos contratantes de obras. Afinal, as dúvidas até poderiam – para aqueles tempos – fazer sentido: não era fácil entender como aquele jovem, ilustre desconhecido catarinense, pobre, neto de italianos, prometia obras de qualidade em, pelo menos, a metade do tempo usualmente dispensado por outros empreiteiros. E, o mais surpreendente: com uma qualidade acima de quaisquer contestações. E não raras vezes com preço inferior ao da média vigente. Pussoli prometia e entregava.
3 – TRABALHO DURO
Devoções políticas, Ricardo não as tinha. Não elegia suas admirações pelo que representassem partidariamente. No entanto, Pussoli nunca escondeu que no seu panteão de singulares paranaenses sempre habitaram nomes como Ney Braga, Jaime Lerner, Jayme Canet Junior, Ivo Arzua Pereira, Parigot de Souza, Omar Sabbag, Saul Raiz… Para Saul, destinou, sem meias palavras, o qualificativo – “o engenheiro mais inteligente do Paraná”, garante Rafael Pussoli.
A operosidade de Saul e a dele andavam juntas em momentos únicos da cidade, como quando das obras da nova Rua Mariano Torres (que o curitibano se acostumou a chamar de Rua do Rio); de Jaime Lerner se via como um companheiro de jornada: Lerner genial em suas concepções e Ricardo Pussoli ajudando, muitas vezes, a materializá-las.
Ricardo Pussoli morreu deixando muitos legados no mundo da engenharia, tendo construído obras que são verdadeiros marcos de Curitiba. Uma das mais expressivas foi a Rodoferroviária, projeto de Rubens Meister, que continua muito útil e não estaria ultrapassada, pois foi prevista com ampla visão de futuro, segundo opinam engenheiros.
A mim me fascinam diversos ângulos desse homem que acabou construindo, a par de marcos de Curitiba, também uma ampla fortuna material hoje em parte atingida pelo Brasil de crises. Um dos lances mais impressionantes de Ricardo Pussoli foi um forte espírito público que fez prevalecer no seu trabalho.
A ponto de financiar obras para a Prefeitura. Uma delas, no Governo Sabbag, a da construção da Rodoferroviária, em 1969. Deve ter perdido dinheiro, embora todas as medidas anti-inflacionárias pactuadas. Mas nessa significativa presença que Ricardo legou à cidade, e com o financiamento que garantiu, ele alegrou-se sempre. Estava apenas confirmando a sua profissão de fé empresarial: daria sempre preferência ao trabalho e não à especulação.
