
Vestindo um jaleco como o dos professores, que assim se resguardam dos danos do giz, Lincoln Fedato me lembra um antigo mestre. Essa associação “fatalmente” se fazia com professores, anos atrás, do ponto de vista visual. Ele usa um “guarda-pó”, e assim pode ser confundido com um mestre de escola. Pela exposição que vai fazendo, de duas horas, dentro de uma lógica apoiada em fatos históricos, mostra-se, no entanto, muito além: revela-se um pouco scholar.
Ele sai-se bem na aula que acompanho pelo Youtube. Não posso dizer que domina as técnicas pedagógicas. Mas não faz feio esse engenheiro a quem acompanho num vídeo de 2012. Está dando uma aula catequética sobre a doutrina de Allan Kardec na Sociedade Brasileira de Estudos Espíritas (SBEE), em São José dos Pinhais, para um público heterogêneo: adolescentes, universitários, donas de casa, aposentados, profissionais liberais de diversas áreas. Seu tema é o kardecismo, cujo nascimento, diz na aula, foi codificado em 1857 –, um ano antes de Darwin balançar o mundo com sua Teoria da Evolução.
A sede da instituição, na cidade da Região Metropolitana de Curitiba, serve para aglutinar a vizinhança, também é centro cultural e opera como alternativa às crianças. A SBEE foi fundada por um ícone do kardecismo curitibano, o professor universitário Maury Rodrigues da Cruz, da UFPR, e tem unidades em várias cidades.
2 – CONSTRUINDO MELHOR
Dias antes, em longa entrevista com Lincoln – num dos encontros que tivemos, colhendo material para este livro -, fui solidificando certezas sobre o engenheiro Fedato. Uma das mais fortes é a de que o moço, 42 anos, é um notável exemplo de quanto o conhecimento científico e as preocupações com o transcendental não são necessariamente excludentes; e que, na maioria das vezes, quando juntos, impulsionam e consolidam valores éticos.
O mesmo Lincoln, que prega com cores racionais o maravilhoso de sua crença kardecista é também dono de uma construtora em franca exposição na sociedade abrangente pela qualidade diferenciada de seu modus operandi:
“Construímos, construímos melhor, construímos um mundo melhor”.
Mais que isso: ao ganhar o prêmio Bem Feito, da Gazeta do Povo, em 2015, o dirigente da Engevita viu reconhecidas práticas empresariais lá exercitadas, e que a diferenciam na categoria média empresa de construção.
O mantra de qualidade da empresa revela uma definição de vida de seu fundador. E uma das pedras de esquina desse Norte fica bem definida, é o ser humano. “Ele é o centro de nosso projeto”, explica Lincoln, para resumir: “quando construímos com qualidade, com ótima qualidade, estamos economizando para quem contratou nossos serviços; nossos funcionários são parceiros de um projeto em que não se coloca o lucro em primeiro lugar”.
3- O COMEÇO DA ENGEVITA
A construtora de Fedato, Engevita, começou em 1999, me lembra o engenheiro, enquanto procura o primeiro esboço da logomarca da empresa, que ele mesmo criou, num momento de “designer”. Exibe-a. Foi feliz, a marca é eficiente comunicadora visual.
A empresa foi engatinhando nos dias iniciais. No começo, instalou-se num barracão modestíssimo, talvez uns 40 metros quadrados, todo de madeira.
Foi o primeiro marco de um velho sonho – “pensei em ser engenheiro já aos sete anos, e disse isso à minha mãe”, explica.
Formou-se em Engenharia Civil pela PUC-PR aos 21 anos. Antes da firma onde implantaria um novo olhar humanista sobre o trabalho (diria, se ele fosse católico, que se inspirou na doutrina social da Igreja), ele atuou em empresas de grande porte, como a Andrade Gutierrez.
4 – QUALIDADE SEMPRE
Vegetariano “sem fanatismos”, o biótipo de Lincoln é de um homem organizado, tem o físico em harmonia com o psicológico. E mais do que isso, ou até para acentuar essa característica, ele é o construtor de obras civis regidas por doutrina de vida bem definida, se assim se podem classificar algumas das máximas da empresa. A primeira delas, a do primado da qualidade – “até por sair mais barato trabalhar com qualidade”.
A primeira observação que faço é que todos lá – umas 90 pessoas, engenheiros, arquitetos, administradores e operários – trabalham com um uniforme. Vestem, juntos, a mesma camisa. Todos também, sem exceção, são registrados e têm acesso aos benefícios sociais que a Engevita oferece.
Mais que um simbolismo, o uniforme – em verde – dá uma ideia de comunhão/compromisso, o do “construir melhor para um mundo melhor”. O resultado não tardou a surgir: a empresa de Lincoln, que eu classificaria também como sendo uma escola, já fidelizou centenas de clientes, gente com enorme poder de reproduzir sua recomendação à maneira de Fedato de trabalhar, com um toque artesanal num mundo cada vez mais comandado pela impessoalidade.
(parte do perfil de Lincoln Fedato que estará no volume 8 de meu livro Vozes do Paraná).
