
Se a mídia impressa vai mal no Brasil e no mundo todo em geral (afora a Índia e China), há exceções aqui mesmo. E curiosamente são exceções que têm forte conteúdo cultural.
Como exemplos dessas excepcionalidades mais imediatas, cito duas publicações paranaenses que, de alguma forma, foram conquistando espaço nacional e vão se consolidando junto a um público exigente: a revista IDEIAS e o jornal “Rascunho”.
A IDEIAS, de Fábio Campana (Travessa dos Editores), tem foco bem definido, na abordagem inteligente e criativa de temas como música (popular e clássica), artes plásticas, o cinema, a economia, as complicações do inconsciente (coluna de Edmilson Fabbri), o histórico paranaense pelo olhar de Luiz Geraldo Mazza, o desvendar de Curitiba na palavra cativante de Ilana Lerner, a política pelo próprio Campana. E mais: as crônicas de Adriana Siddor fazem igualmente parte desse inventário de qualidade, além de reportagens preciosas (neste número de maio, há uma entrevista oportuna com Rodolfo Feijó, sobre a Universidade da ONU).
Campana, é bom lembrar, foi, na primeira década dos 2000, o fundador e sustentador de uma das mais bem editadas revistas culturais do país, a ETC.

VIDA EFÊMERA
ETC teve vida efêmera por uma simples razão: a qualidade – gráfica e de conteúdo – era tão exigente que não havia dinheiro que bastasse para mantê-la num país que sempre preferiu os Chacrinhas, os Faustão, os Fantásticos, os vale-tudo…
ETC sumiu graças, em grande parte, à ausência de “patrocínios culturais” e às mídias publicitárias mal direcionadas e vesgas. Foi-se assim a insuperável revista para o limbo porque não era portadora do “vício de origem” – a vulgaridade – que sustenta a mídia impressa e televisiva (e agora também a digital com seus blogueiros de todos os naipes).
O CASO “RASCUNHO”

Tenho forte em minhas lembranças o ‘Jornal de Letras’, de José Condé, que a partir do Rio de Janeiro, nos anos 1960, até meados de 1970, circulava no Brasil todo. Já era naqueles dias o único jornal mensal voltado exclusivamente à literatura, e sua manutenção constituía uma guerra diária que o editor e seus colaboradores – um deles, Geraldo Edson de Andrade, meu amigo – travavam até colocar a publicação nas bancas.
Curitiba, que já teve a ETC, vive agora a experiência do jornal “Rascunho”, editado pelo jornalista Rogério Pereira, que começou na profissão trabalhando em nossa equipe, no jornal Indústria & Comércio de Curitiba, nos anos 1990. Isso graças à visão de Nilson Monteiro, que me o apresentou e foi seu avalista.
Hoje o jornalista Rogério conseguiu impor sua publicação Brasil afora.
Este é reconhecimento que tem de ser feito, com a ressalva que o meio cultural literário não acata com unanimidade o “Rascunho”. As restrições talvez tenham como eixo mais a própria personalidade de Rogério, o moço humilde de outrora, hoje com uma certa aura de “poseur”, que pode criar barreiras.
“Poseur” ou não, Rogério é objeto – estou certo – de uma boa dose de invidia, assim como a inveja nunca poupou Fábio Campana em sua trajetória com ETC e IDEIAS.
HÁ 16 ANOS
Para que a coluna passe uma visão crítica equilibrada sobre “Rascunho”, faço questão de registrar opinião que um escritor de Brasília me passa sobre o jornal e seu criador e mantenedor:
“Atualmente, o mais importante jornal literário do Brasil é editado em Curitiba por Rogério Pereira e se chama Rascunho. O impresso, que também tem endereço na internet, completou 16 anos de atividade. Num momento em que os jornais diários diminuem cada vez mais o espaço para livros, o Rascunho segue com 48 páginas dedicadas exclusivamente à literatura, seja resenhas de obras, mas também entrevistas e textos de grandes nomes do circuito dos livros, como Affonso Romano de Sant’Anna, José Castello, Nelson de Oliveira e João Cezar de Castro Rocha. “
O AUTOR
De minhas observações sobre Rogério, faço questão de reconhecer que ele também se firma como autor. O livro dele, “Na escuridão, Amanhã”, publicado pela Cosac Naify, foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e recebeu menção honrosa no Prêmio Casa de Las Américas, de Cuba, um dos mais importantes do continente. “Na escuridão, Amanhã” tem um texto primoroso e mostra um drama familiar dialogando com o imaginário judaico-cristão, no qual o sentimento de culpa é onipresente.
Simultaneamente, esse catarinense radicado em Curitiba dirige desde 2011 a Biblioteca Pública do Paraná. Em meio a algumas marcas que lá vai deixando, ele criou o jornal Cândido, mensal, apontado como um dos grandes veículos que produz reportagens e divulga inéditos — totalmente diferente do Rascunho, focado em resenhas.
OPINIÃO
A propósito da BPP, onde vivi um de meus primeiros empregos como jornalista, quero registrar: reencontrei a Biblioteca depois de muitos anos, ao participar dias atrás de lançamento de livro de Lélio Sotto Maior. A impressão que me ficou do andar térreo é de uma “feira”, com móveis, cartazes e espaços dispostos à ‘la vonté’, sem bom gosto e sem funcionalidade.
