quarta-feira, 29 abril, 2026
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Odisseia de Celso Garcia para apostar no nelore

Na terceira edição do livro “No tempo do Seo Celso – Não Existe Impossível”, Domingos Pellegrini detalha a odisseia e a teimosia de Seo Celso em importar da Índia novas matrizes de gado nelore

 

Por Eloi Zanetti

Da mistura formada por dezenas de nacionalidades que ocuparam e colonizaram a região Norte do Paraná emergiram importantes figuras que contribuíram para o desenvolvimento do nosso país. Não raro vemos expoentes oriundos dessa miscelânea em áreas de forte expressão econômica e cultural – são os casos de Celso Garcia, carinhosamente chamado por Seo Celso, fundador da Viação Garcia e um dos responsáveis pela melhoria genética do rebanho bovino brasileiro, e também é o caso do seu biógrafo, o escritor Domingos Pellegrini

Na terceira edição do livro No tempo do Seo Celso – Não Existe Impossível, Pellegrini detalha a odisseia e a teimosia de Seo Celso em importar da Índia – apesar do pesadíssimo lobby dos fazendeiros de Uberaba – novas matrizes de gado nelore, gir e guzerá, alguns com linhagem registrada por mais de 300 anos. Celso e seu parceiro Ildefonso dos Santos iniciaram em 1955 uma peregrinação que durou mais de ano por diversas regiões indianas, procurando, escolhendo e comprando as melhores matrizes e abrigando-as em locais arrendados enquanto esperavam para uma viagem épica ao Brasil.

Amigos e inimigos

Os criadores do Triângulo Mineiro, que na época detinham o monopólio de fornecimento desses animais, descobriram a intenção de Celso e moveram mundos e fundos para prejudicá-lo na empreitada. Por várias vezes o precioso gado, escolhido com apuro e comprado a duras penas, foi ameaçado de sacrifício por ordem de burocratas do Ministério da Agricultura.

Celso continuou sua jornada e embarcou a boiada mesmo sem ter certeza de que poderia desembarcá-la no Brasil, onde a proibição da importação era rigorosamente controlada desde 1921 – o que favorecia os criadores mineiros, que há muito tempo ficavam com as melhores peças para si e vendiam os exemplares inferiores a preços abusivos – era pegar ou largar. Para ganhar tempo e driblar a marcação cerrada dos mineiros, Celso levou sua preciosa carga para a Ilha de La Mere, na Guiana Francesa, onde, com muita dificuldade, permaneceu por vários meses seus peões e filhos permaneceram por vários meses. O cerco mineiro era tão cerrado que ameaças vinham de todos os lados; chegaram a utilizar a embaixada brasileira em Paris para solicitar ao governo francês a proibição do desembarque e o sacrifício dos animais. Antes haviam pedido formalmente ajuda da Interpol para rastrear os movimentos do Seo Celso. Mas Celso dizia que “como amigo, posso ter meus defeitos mas, como inimigo, sou perfeito”, e, com ajuda de amigos, continuou a procurar onde desembarcar seu gado.

Celso aporta a boiada na Ilha das Cobras – Paranaguá

Para forçar a liberação de entrada, pois tinha certeza que o gado estava em boas condições sanitárias, Celso trouxe os animais para o litoral paranaense onde abrigou-os novamente em quarentena por mais de nove meses.

Com tratadores experientes para o gado mas sob constante ameaça burocrática, Seo Celso iniciou nova peregrinação pelos corredores e gabinetes governamentais. Ao mesmo tempo, os mineiros, por meio de fake news, fizeram o maior alarde nos principais jornais do país que, sem investigar os fatos, entraram na história criando a imagem do Seo Celso como a do inimigo público número um da pecuária brasileira. A imprensa estimulada publicava continuamente manchetes como “Barca traz da Índia para o Paraná gado doente que será exterminado ao desembarcar”.

Um dos seus principais aliados foi o governador Moisés Lupion, que chegou a colocar em risco sua administração por apoiar ações não permitidas pelo governo federal. Outro amigo era o advogado Hosken de Novaes, que o orientava pelos intrincados caminhos jurídicos. Até o presidente Juscelino Kubistchek apoiou a ideia mas, preso a um cruel cipoal burocrático manipulado por interesses comerciais, pouco podia fazer para ajudá-lo. Com as mudanças políticas, assume Jango Goulart e seu ministro da Agricultura, Antonio Barros de Carvalho, contrariando técnicos, zootecnistas e interessados, dá permissão para o desembarque.

E o Brasil viu que o gado era bom

Depois de tudo, vendo que o gado era bom e que nunca houvera ameaça sanitária, os próprios mineiros, antes ferrenhos inimigos, iriam até a fazenda do Seo Celso para ver se conseguiam alguns exemplares. Idealista, Celso não só abriu-lhes as porteiras como vendeu animais e sêmen a preços abaixo do mercado. Criadores latinamericanos e de outros países vieram a Londrina para ver a grande conquista e encomendar crias e sêmen. A pista de pouso da Fazenda Cachoeira ficou tão movimentada que chegou a receber mais de seis aviões em um só dia.

Seo Celso deixou um legado valioso

Mais tarde entram em cena o govenador Ney Braga e seu Secretário da Agricultura, Paulo Pimentel, que apoiam uma ideia do próprio Celso – o plano Troca-Troca, isto é, quem tinha touro de baixa linhagem podia trocar por tourinho nelore de criadores que foram convencidos, por Seo Celso, a fazer, para o governo do Paraná, preço muito baixo, para depois ganharem com a expansão do mercado no futuro. O preço era irrisório e com um ano de carência para pagar. Assim foram alocados cinco mil bezerros que deram início ao fortalecimento da pecuária no Paraná, enquanto a pecuária de todo o país também se transformava com os reprodutores, as matrizes e o sêmen que ele fornecia a quem quisesse, e essa transformação se intensificou depois da segunda importação, já legalizada e feita com outros criadores de várias regiões. Se o Brasil é hoje grande exportador de carne deve muito a Seo Celso e seus amigos, como ele dizia, “com os amigos se faz tudo”.

Como nasceu o livro

Em 1970 o iniciante repórter Domingos Pellegrini, ao entrevistá-lo, percebeu o carisma do personagem, mas não deu conta da sua jornada épica. Só muitos anos depois veio a ideia de transformar a história em livro, ao mudar de vida seguindo um conselho de Seo Celso então já falecido há vinte anos. Ao solicitar à família permissão para escrever a biografia ouviu de um dos filhos: quer escrever sobre o meu pai, converse com seus amigos – ao todo foram 70 entrevistas durante dois anos. O escritor vasculhou três baús de documentos, muitas notícias em jornais e revistas, fotos, diários de viagem, cadernetas e diários de viagem de Seo Celso.

A terceira edição, ampliada, sai trinta anos depois das anteriores, que se tornaram muito valorizadas nos sebos, e pode comprada no site Mercado Livre.

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