quarta-feira, 29 abril, 2026
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Opinião de Valor: Gigante no açúcar, anão no mel

Foto: Wirakorn Deelert/ Shutterstock

O consumo interno de mel é uma realidade triste e amarga. Cada brasileiro consome em média 60 gramas de mel por ano, contra mais de 1 quilo nos EUA

Evaristo de Miranda – Revista Oeste

Brasil é um gigante mundial na produção de açúcar e um anão, dos bem pequenos, na produção de mel. Já falta e pode faltar ainda mais do precioso mel no mercado interno. Falta mel porque falta produção; falta produção porque falta produtividade nas colmeias. E não haverá maior produtividade sem tecnologias modernas e um manejo mais profissional das colmeias.

Nos tempos bíblicos, não existia o açúcar. O mel era um elemento central da promessa divina a seu povo: uma boa terra espaçosa, onde corriam leite e mel (Is 3,8; Nm 14,8; Dt 6,3; 11,9; 26,9; 26,15; 27,3). Quem conhece as férteis terras vulcânicas da África do Leste, da América Central e das ilhas do Pacífico, as terras roxas do Brasil ou os ubérrimos solos da pampa argentina e da Ucrânia achará essa promessa, no mínimo, um exagero. Evocar o Vale do Jordão como terra boa e espaçosa parece ironia terrestre ou sarcasmo celeste.

Lá, a terra não é boa; é explorada desde o calcolítico; está erodida e desgastada; falta espaço; cada polegada é disputada mortalmente; o conflito estende-se à água, elemento raro na região; sobra gente, pretendente e ocupante (ou vice-versa), nessa estreita faixa de terra, de cada lado do Rio Jordão. A imagem do leite e mel não é apanágio do judaísmo. Ela também está presente na mitologia grega. Zeus foi alimentado numa gruta secreta pelo leite de Amalteia e pelo mel de Melissa. Aqui, apesar de Deus ser brasileiro, a terra ampla e os mitos abundantes, falta mel e sobra açúcar.

Em 2020, a produção nacional de mel foi da ordem de 52.000 toneladas (aumento de 60% com relação a 2004). É pouco, muito pouco. O Brasil é o 11º produtor mundial. Deveria estar entre os primeiros. O maior produtor é o Paraná. O Sul representa 38% da produção nacional; e o Nordeste, 37%. Quase empatadas, as duas regiões somam 75% da produção nacional.

O mel é como uma commodity, seu preço acompanha o mercado mundial. Com a praga da covid, o mundo aumentou a demanda por mel, na busca de maior imunidade. Os preços subiram e chegaram a mais de US$ 5/quilo. Com a valorização do dólar, exportar mel é bom negócio. Em 2020, o Brasil exportou cerca de 46.000 toneladas: 75% aos EUA e 12% à Alemanha. Mais de 88% de sua produção! O mel brasileiro é de qualidade e puríssimo. A exportação para a Alemanha, país extremamente rigoroso nas análises da qualidade do mel importado, o comprova.

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