domingo, 19 abril, 2026
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Opinião de Valor: Xilos e gibis

por Júlio Schneider*

Castro Alves e Tex Willer num mesmo trabalho parece meio estranho, e só mesmo um artista como Elvo Benito Damo conseguiria ilustrar uma das grandes obras do Poeta dos Escravos usando como referências cenários do Velho Oeste do mais longevo dos caubóis dos quadrinhos. Catarinense da cidade de Caçador, Elvo cresceu em meio às artes, desenhando, declamando poesias, atuando em teatro infantil e frequentando cinema – e, independente do filme que passava, a festa já começava fora do cinema, trocando gibis, coisa comum e divertida para quem foi criança nos anos Cinquenta a Setenta, como nós.

PRIMEIRA OBRA

Aos dezenove anos de idade, em 1967, durante o serviço militar em Palmas-PR, Elvo fez o seu primeiro trabalho em xilogravura ao participar do programa É Tempo de Cultura, do governo do Estado e, dois anos depois, começou a estudar Belas Artes em Curitiba, cidade em que mora até hoje. Em 1979, impressionado com o livro Índios e Brancos do Sul do País, de Silvio Coelho dos Santos, ilustrou em xilogravura o capítulo dedicado aos caçadores contratados por donos de terras para acabar com os índios, obra que virou o poema ilustrado Bugreiros com texto de Reynaldo Jardim. Em 2014, cento e cinquenta anos depois de Castro Alves ter começado a escrever a primeira versão de Tragédia no Mar – obra que depois ganharia o nome de O Navio Negreiro, poema que descreve com imagens fortes a terrível situação dos africanos arrancados de suas terras, separados de suas famílias e tratados como animais nos navios negreiros que os traziam para ser propriedade de senhores e trabalhar sob as ordens dos feitores -, Elvo decidiu juntar a sua paixão por gravuras, literatura e histórias em quadrinhos, e começou a planejar este belo Poema Xilográfico HQ que agora vem à luz.

Em vez de trilhar a solução mais rápida e fácil de fazer as ilustrações em papel, Elvo optou pela xilogravura, a arte que une as habilidades de artesanato e desenho, e entalhou uma a uma as 207 matrizes das xilos – sem contar as que foram refeitas por não terem saído como o artista desejava. Essa montanha de matrizes pode ser vista na foto do final deste volume, reproduzida pelo próprio Elvo no desenho desta página.

A LÍNGUA DE “HONTEM”

Mantendo o português de época (“Hontem a Serra Leôa”, por exemplo), as imagens foram nascendo na madeira entalhada com referências visuais das mais variadas: alguns rostos são de grandes personagens contemporâneos, como Nelson Mandela ou Joaquim Barbosa – retratado numa famosa pose pensativa, com as mãos unidas diante do rosto -, enquanto alguns cenários, ondas do mar, vulcões e até figuras de escravos vêm de sugestões extraídas de Epopeia (a célebre coleção de HQs dos anos Cinquenta, publicada pela EBAL, a “editora especializada em publicações para rapazes, moças e crianças” como se vê na coleção de volumes encadernados que Elvo guarda com carinho), além de gibis de Jim das Selvas (de Alex Raymond) e de Tex (de Gianluigi Bonelli e Aurelio Galleppini), enquanto que, nos enquadramentos, aqui e ali salta aos olhos a influência do estilo peculiar, simples e quase caricato, de Flávio Colin, um dos mestres dos quadrinhos tupiniquins.

“Em vez de trilhar a solução mais rápida e fácil de fazer as ilustrações em papel, Elvo optou pela xilogravura, a arte que une as habilidades de artesanato e desenho, e entalhou uma a uma as 207 matrizes das xilos – sem contar as que foram refeitas por não terem saído como o artista desejava.”

A paixão dedicada à obra também se vê nos detalhes – ou detalhismo -, como num céu estrelado, uma imagem aparentemente simples, mas que guarda uma bela curiosidade na sua criação: com a ajuda de um amigo e um programa específico de computador, Elvo reproduziu a posição das estrelas de um determinado dia de 1864 no céu de Serra Leoa! Entalhadas as xilos, chegou o momento de transpor as imagens ao papel e Elvo saiu à caça de uma gráfica. Para sua agradável surpresa, o profissional ideal estava a poucos metros de seu ateliê, numa gráfica das antigas, com tipos de metal, totalmente artesanal, cujo dono, um jogador das categorias de base do Coritiba dos bons tempos e que não pôde seguir carreira em razão de um problema no joelho, ainda tinha gostos e interesses comuns aos seus: Eliseo Basso também é fã de Tex.

EM SÍNTESE

Em síntese, uma obra que não é só bela em seu visual, mas que espelha a alma do autor, com referências a quadrinhos que vêm da sua infância de leitor que devorava de tudo, de livros e revistas a gibis, e de rabiscador que fazia quadros de seus heróis dos gibis em folhas simples de papel, desenhos rústicos que, para o jovem ilustrador, pareciam obras-primas. E essa paixão e esses sentimentos perduram até hoje na alma dessa eterna criança que não cresceu e que passa os dias a brincar fazendo esculturas, transmitindo a sua experiência artística como orientador do Ateliê Livre de Escultura da Fundação Cultural de Curitiba.

Advogado, Júlio Schneider atua na sua identidade não-tão-secreta de quadrinista, como tradutor e articulista de quadrinhos, com personagens como Homem-Aranha, Wolverine, Flintstones e bonellianos como Mágico Vento, Júlia, Zagor e Tex Willer.

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