
Por Aroldo Murá G. Haygert
No dia 31 de agosto de 2014 fiz parte de um grupo de jornalistas de Curitiba que a fidalguia de Maí Nascimento Mendonça e Dante Mendonça propiciou. Foi momento histórico, ‘para sempre memorável’ – como se dizia outrora. Aconteceu no atelier do Dante.
O casal reuniu, a pretexto de um mocotó de ressuscitar defuntos – preparado por Marisa Valério-, alguns referenciais amigos da jornalista Rosy de Sá Cardoso, que naquele ano completaria 90 anos. O encontro, regado a críticas aos tempos já então bicudos, e com pitadas de rememorações saudosas, foi em vão no propósito da homenagem.
Rosy não aceitou – “de forma alguma” – ser homenageada. O argumento-chave é de que “não fiz nada para merecer festa…” Desculpa esfarrapada. Ela há anos já era uma bússola para o jornalismo do Estado.
Paparicada por todos, e sem jamais exibir leve traço de abatimento pela idade, Rosy foi taxativa em sua não aceitação da festa, quando Dante mencionou a disposição do grupo de promover um grande baile-jantar,
pelos 90 anos dela que se avizinhavam.
Na verdade, sou dos poucos resistentes que acompanharam o nascimento de Rosy de Sá Cardoso – de tradicionais famílias do Paraná, neta que foi do general João Gualberto – para a vida de um jornal diário. Isso aconteceu no extinto Diário dos Paraná, começo dos 1960, ela impondo-se como repórter de qualidade, muito debruçada sobre temas jornalísticos humanos. Essa qualidade, que ela iria impor naquilo que os manuais de redação (como Fraser Bond) acabavam denominando tais matérias de “features”.
Eram reportagens sempre pedindo espaço privilegiado dado à qualidade e a oportunidade dos assuntos enfocados. Pediam tratamento gráfico especial. A maioria da produção ia, então, para o caderno de domingo (depois, chamado DP Domingo, que editei).

Com Rosy não tinha a ditadura do “lead”, então um dogma que o Jornal do Brasil e o Diário Carioca ajudaram a transplantar dos Estados Unidos para nossa realidade. A história, com ela, tinha de correr à solta, sem estreitos limites de técnicas raptoras do encantamento do texto…
Não posso esquecer que o debut de Rosy em meios de comunicação foi como cantora, nas rádios PR-B2 e Guairacá. Bonita como só ela na juventude (traços que manteve ao longo dos anos, com as naturais marcas do tempo), Rosy fez algumas incursões pelo jornal O Dia (ligado ao grupo de Moisés Lupion), anos 50, mas sem a permanência que teve no DP.
Depois seu caminho foi a Gazeta do Povo, com a qual mantinha um vínculo de forte ligação e que, soube, ainda a remunerava. Na GP foi a globe-trotter que percorreu o mundo, como editora de turismo ao lado de Marian Guimarães.
Confesso que sempre tive dificuldade para traçar um esboço, de leve que fosse, da alma da Rosy de Sá Cardoso. Ela não era de confissões, resguardava-se muito, não dava ponto de partida para falar de seus domínios mais pessoais. A pessoa que melhor a conhecia foi sua irmã Regina, a fiel escudeira e guardadora de sua memória que, há 20 anos a precedeu na visita do Anjo da Morte.

No DP, naqueles dias dos anos 1960, Rosy já fazia o papel de nosso Google (ou enciclopédia, como se dizia então). Em meio àquele universo da redação de tantos nomes respeitados culturalmente – como Sylvio Back, Adherbal Fortes de Sá Junior (primo de Rosy), Roberto Novaes, Mário Camargo Maranhão, Leo Kriger, Oscar Milton Volpini —, ela se impunha.
Um impor-se que começou por romper o “clube do bolinha”: foi a primeira mulher na redação ao lado de dona Berenice Arruda, esposa de Arns Voigt, o alemão diagramador do caderno dominical. Sem pesquisar, recordo de uma matéria que muito me impressionou, reportagem históricas de Rosy: a saga que foi a construção da Catedral Metropolitana de Curitiba, com seus acentos épicos e alguns momentos de “thriller”, até com assassinatos e outras mazelas compondo parte do cenário sagrado que ali se ergueria na Praça Tiradentes.
Rosy, pelo o que a entendia, era, no mínimo uma agnóstica: nenhum traço de preocupação com o transcendental. Também não criticava crenças.
Um dia, me confessou: “Tenho horror a essa história de afilhados…”
Se desprezava essa marca da vida brasileira – o compadrio – acabou deixando seus bens materiais para um sobrinha afetiva que mora fora daqui. Mais que isso: deixou aos que se interessam pela história da imprensa do Paraná marcas de um jornalismo personalíssimo, resistente a modismos, preocupado em passar para o futuro momentos raros que ia colhendo, e passando para as laudas dos jornais.
Salve Rosy, que acaba de se encantar.
