terça-feira, 5 maio, 2026
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No “Curta”, religião acaba mostrando vida inteligente na televisão

Flávia Pinto, socióloga e mãe de santo. Foto: Arquivo pessoal

Discutir um tema “árido” com elegância e sabedoria é lição que fica. Assim como a iniciativa do secretário Ney Leprevost de reunir lideranças religiosas  do Paraná para debater os caminhos do ecumenismo e do diálogo interreligioso…

 

A televisão brasileira, em meio ao lixo nacional e ao importado, ambos tóxicos ao extremo, às vezes pode surpreender.  E a mim me surpreende mais, pois limito hoje em dia minha assistência à TV a alguns minutos apenas.

Na quinta-feira, 20, abri exceção. Passei uma hora acompanhando um raro material sobre liberdade religiosa apresentado pelo sociólogo Sergio Besserman, ex-presidente do \IBGE, uma preciosa personalidade da vida pública do país que aparece agora com enorme destreza em série de entrevistas. Com o equilíbrio, vem entrevistando com a prudência – sem exibicionismos tão comuns a certos entrevistadores – personalidades que têm importância no universo da fé religiosa no Brasil.

O programa, no Canal Curta, celebrou o Dia da Liberdade Religiosa, que transcorre neste dia 21 de janeiro. Ou Dia da Religião, como querem outros.

Discreto, prudente, sapiente nas observações, são muitos os qualificativos que se pode aplicar a Besserman, um cidadão canonizado há anos no restrito círculo da intelligentsia brasileira.

Sergio Besserman. Foto: Divulgação

A mim me surpreenderam prazerosamente manifestações como a de uma mãe de santo carioca, Flávia Pinto, que foi no fulcro da questão: exaltou à resistência do povo negro, que resiste, lembrou, a 500 anos de
perseguições e sofrimentos para manter sua fé, sua cultura, seus projetos num Brasil de todo discriminador dos negros. Babá da Umbanda, Flávia é socióloga, escritora, ativista pelos direitos humanos e do movimento negro.

Para Flávia, o holocausto do povo negro no Brasil superou – até por questão de tempo continuado de existência – ao próprio Holocausto judaico da Segunda Guerra.  Fez a afirmação olhando firme para Besserman, um judeu provavelmente não religioso. Ele assentiu com a afirmação.

Lavagem de escadas de uma igreja católica, com um frade franciscano aspergindo água benta sobre a multidão deu o tônus do programa em que não faltou o depoimento de um pastor presbiteriano carioca,  pastor Amaral, negro, narrando sua trajetória. Disse-se, sem se apresentar como vítimas, alguém olhado com restrição em sua grei. Tudo por conta de que é um defensor das manifestações religiosas de matrizes africanas. Isto numa denominação sabidamente ortodoxa na defesa dos postulados calvinistas e interpretação “dura” das escrituras.

Encontro entre representantes de várias denominações religiosas, promovido pela Sejuf, com secretário Leprevost (ao centro)

Enfim, assista-se ao programa, que deve ser repetido no canal pago. E, por deve de justiça,  assinale-se um voto de louvor ao secretário de Estado do Paraná  que muito bem ocupa  seu espaço numa secretaria enormemente abrangente – Ney Leprevost.

Na Sejuf, Leprevost reuniu, na semana, lideranças religiosas de diversos matizes, para bater no tema da liberdade religiosa. Esse  assunto, é bom lembrar, definitivamente, significou na Igreja Católica, por exemplo, um “janela aberta para o mundo”. Tudo a partir do sopro do documento “Nostra Aetate”, do Vaticano II.

Que vivam  todos os que proclamam o nome do Senhor, com os “sotaques” mais diversos, uma abertura que a Santa Madre Católica fez a partir de João XXIII, a cuja canonização eu assisti em Roma, em 2014. João XXIII, sem ferir ninguém, derrubou um dos postulados mais fortes firmados na chamada Cristandade: “Extra Ecclesia Nulla Salus” (fora da igreja não há salvação).

Papa João XXIII
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