quinta-feira, 16 abril, 2026
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Opinião de Valor: O El Niño e o Paraná

Evaristo E. de Miranda (*)

Evaristo Eduardo de Miranda
Evaristo Eduardo de Miranda

Com tecnologia, inovação e profissionalismo, os agricultores paranaenses minimizaram de forma inédita os efeitos negativos do El Niño na produção, até onde lhes foi possível. Esse fenômeno climático normalmente traz chuvas acima da média para o Sul do Brasil e diminui as precipitações no Norte e Nordeste. O El Niño de 2015/16 foi comparável aos ocorridos em 1982/83 e 1997/98. E, se seus efeitos foram diversificados em função das regiões, eles também variaram com o nível tecnológico da agricultura.

No Paraná, nas lavouras de inverno, o excesso de umidade comprometeu a produtividade. E trouxe problemas para o plantio e o desenvolvimento das culturas de verão, como o arroz. Quanto mais tecnificada a agropecuária, menor o impacto do fenômeno. A seca provocada pelo El Niño no Nordeste, por exemplo, teve impactos maiores em 1982/83 do que nos dias de hoje. Em 1982, a área irrigada e com agricultura moderna mecanizada eram muito menores do que atualmente. O auge do fenômeno atual ocorreu no final de novembro. Agora se sua intensidade declina e ele deve terminar no início do outono.

O alto volume de chuvas no Paraná prejudicou o arroz na região de Querência do Norte. O mesmo ocorreu no Rio Grande do Sul e nos vizinhos do Mercosul.

No arroz irrigado, as lavouras concentradas em Douradina, Ivaté e Alto Paraíso tiveram o plantio atrasado. Na região de Paranavaí, a maior área de arroz irrigado do Paraná (77,5%), o excesso de chuvas exigiu o replantio de áreas. Com tecnologia e profissionalismo, os produtores estão obtendo produtividade e qualidade dentro do esperado.

As chuvas excessivas também prejudicaram as lavouras de feijão no Paraná, facilitando a propagação de doenças e “lavando” os fertilizantes do solo. Mesmo assim, metade da safra colhida está em condições de qualidade razoáveis e os preços em alta, devido à redução da oferta, deverão ser compensadores para os agricultores paranaenses.

“Para alguns meteorologistas o frio chegará mais cedo. Modelos climáticos projetam uma nova fase de águas frias sobre o Pacífico equatorial, com a provável configuração de um episódio de La Niña. Os El Niños de 1997/98 e de 1982/83 foram substituídos por um La Niña no segundo semestre.”

Na soja, a abundância de chuvas provocou atrasos e dificuldades no plantio e nas aplicações de fungicidas, inseticidas e herbicidas. Apesar da alta pressão de ferrugem, dos dias nublados, da chuva excessiva, da ocorrência de antracnose e mancha foliar, o monitoramento das lavouras, o nível dos equipamentos de mecanização, de pulverização e a qualidade dos operadores fizeram a diferença no controle sanitário dos plantios no Paraná. As lavouras têm produzido com médias da produtividade de 3.400 kg/ha chegando a 4.400 kg/há e até mais.

O Paraná é o segundo produtor nacional da soja e o ritmo da colheita da leguminosa dita a velocidade do plantio do milho de segunda safra, cuja área plantada deverá ultrapassar os 2 milhões de hectares. Na maioria dos municípios crescerá a área plantada de milho. O preço está bom, a demanda é forte e os produtores procuram compensar as perdas da safra de verão.

Os índices pluviométricos acima da média favoreceram as pastagens, a pecuária leiteira e os reflorestamentos. E contribuíram para recuperar as reservas hídricas em solos, para a recarga de lençóis freáticos, açudes e barragens no Paraná, e na região Sul. Após quatro anos fechadas, as comportas dos vertedouros de Itaipu foram abertas, em novembro passado.

Em breve ocorrerá uma transição climática, com o final do fenômeno do El Niño. De certa forma, em 2016, cada estação do ano estará sob a influência de um fenômeno climático diferente. Isso pede a atenção dos produtores.

Os El Niños de 1997/98 e de 1982/83 foram substituídos por um La Niña no segundo semestre.

Agricultores e pesquisa agropecuária têm a responsabilidade de aproveitar crises e extremos climáticos para instrumentalizar processos de adaptação.

Existem alternativas tecnológicas para aumentar a sustentabilidade da produção frente às variações climáticas. Elas precisam ser aperfeiçoadas tecnologicamente e melhor ajustadas em suas aplicações aos diversos sistemas de produção e regiões. Ampliar a irrigação, a eletrificação, a mecanização rural, a armazenagem nas fazendas, melhorar a logística e o seguro rural, hoje quase inexistente, seriam um enorme avanço frente às incertezas climáticas presentes e futuras, sejam do El Niño ou de La Niña.

(*) EVARISTO EDUARDO DE MIRANDA, doutor em Ecologia; diretor da Embrapa Monitoramento Ambiental por Satélite; diretor do Instituto Ciência e Fé de Curitiba.

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