
É possível que no dia de Finados que se aproxima, correntes da Igreja Católica (com padres-cantores, “pop stars) e grupos evangélicos se apresentem em cemitérios, para celebração de missas e cultos; digo porque, nesse terreno da Morte e seu culto já vi de quase tudo, incluindo a absurda “devoção” que em países latinos – México, Guatemala, Colômbia, Argentina) – multidões têm pela “Santa Morte”, um espectro sinistro em forma de imagem sempre cercada de velas devocionais acesas.
Trata-se de infeliz absorção de marcas do catolicismo popular, um tipo de sincretismo rerligioso, “canonizado” pela população mais simples. Além de ser devoção de megatraficantes, como foi Pablo Escobar. Hoje em dia, o Finados está em baixa, fato que pode ser constatado cotejando números de visitas aos chamados campos santos feitas nos anos anteriores, com os de agora.
No espaço de hoje, em Opinião de Valor, Marlise Groth recolhe sapientes recomendações de psicóloga da UniCuritiba sobre a Morte e o Luto, e como enfrentá-los. Na minha infância – até os 13 ou 14 anos -, fui fortemente afetado pela passagem da morte. Chegava ao ponto, me lembro bem, de no dia em que via um féretro passando na rua no conseguia dormir, e pedia socorro ao meu irmão Plauto. Ele só teve paciência por um tempo, depois passou a me negar a mão, não hora do meu susto com a morte que me impedia de dormir.

Esse impacto só sumiu sob a orientação de um douto sacerdote. E olha que os enterros aos quais presenciei naqueles dias – final dos 1940, começo dos 1950 -, em Irati, tinha enorme plasticidade, com os cavalos e a carroça amplamente em enfeitados com bandeirolas e adereços algumas figuras do ‘ santorum’ católico. A feérica decoração dos dois pares de cavalos e todo o resto, repetia apenas o que a maioria da população de Irati de então, descendente de poloneses ou poloneses, natos, tinha como regra acolhida pelos padres locais, boa parte deles filhos de poloneses.
Nosso mortos não merecem veneração? A sociedade secularizou-se “de súbito”? Ou estamos só “deixando que os mortos cuidem dos mortos” conforme o próprio Jesus recomendou? O cúmulo da praticidade diante da Morte e do Luto foi a adoção,partir dos anos 1980, no Brasil, da cremação dos corpos, precedida de uma sentida despedida em que não falta um(a) Cerimoniário (a) para tornar mais amena a perda do ente querido. Tudo com direito a exibição de filmes e slides em que o defunto faz sua derradeira apresentação.
Cá entre nós, enquanto examino um Rituale Romanum, com papel bíblia, edição de 1952, impresso na Bélgica, cheio de observações sobre finados, atribuo esse desinteresse de agora pelo antigo culto dos defuntos queridos também à secularização E esse “relaxamento” em relação aos mortos tem muito a ver com a maneira como a sociedade interpretou inovações do Concílio Vaticano II. Para os católicos de certos naipes, a \Morte passou a ser olhada como uma “falha técnica” do corpo.
A ciência “apenas perdeu”. Essa mudança brusca de visão da passagem desta para outra Vida foi da água para o vinho. Pois lembro bem que as estações de rádio, por exemplo, só apresentavam música clássica no Finados. “Em atençãos aos mortos”. E em casa, os jovens não poderiam nem cantar. Muito menos ir ao Cine par ver o Roy Rogers, um “must daqueles dias.” Tempo e costumes, pois.
(AMGH)
