
Na noite de domingo,10, Walter Schmidt me informa que o jornalista Cícero do Amaral Cattani, 81, acabara de morrer, lá pelas 21h30, no Hospital Nossa Senhora das Graças. Em situações ditas “normais”, a obrigação seria de meramente registrar o desaparecimento de um singular jornalista. Mas o caso de Cícero comporta um olhar mais amplo, que faça justiça a esse gaúcho de Santiago que no começo dos 1960 escolheu Curitiba para viver e expressar-se numa profissão marcada, no Brasil, por opositores de toda a natureza, um universo enorme.
Dos opositores, os mais salientes hoje, nesta era da Tecnologia internética, estão os êmulos da profissão, que se postam nas redes sociais sem o mínimo senso de apuração dos fatos. Sem cerimônias, proclamam-se jornalistas… Trata-se de fauna que compõe torcidas à esquerda e/ou à direita do espectro político. Doenças infantis e igualmente danosas na formação da cidadania e na informação das gentes.
Conheci Cícero nos 1960, ele repórter, redator depois um dos editores da edição diária do jornal Última Hora, de Samuel Weiner. O que, naqueles dias, não era pouca coisa, dada a impressionante presença da UH no país todo. Sempre tivemos um bom relacionamento, e se não fomos muito próximos, nos respeitávamos e nos apoiávamos em momentos essenciais.
Fiz questão de citar Samuel Wainer – o mago de uma rara escola de jornalismo, a UH – porque sempre identifiquei em Cícero alguns positivos rompantes, como aqueles encontrados em Weiner. Quando me pedem referências sobre jornalistas dos dias de meu pleno exercício jornalístico em redações, nunca esqueço de Cícero do Amaral Cattani, pai de Carolina, a que seguiu as pisadas paternas na profissão.
Ele esteve na mesma dimensão de outros “magos” de um jornalismo exercido com amor, em primeiro lugar. E em busca, sempre, e ao mesmo tempo, da defesa da sociedade abrangente. E, por isso, encontrando opositores e percalços, como os muitos que marcaram a trajetória de Cícero.
Cícero cedo aprendeu as chaves básicas de uma mídia impressa que então – entre 1960/90 – dominava plenamente a fala com a opinião pública do país: um português “sem polainas”, o substantivo no lugar dos adjetivos e advérbios, a obediência essencial ao “lead” – o guia da notícia, e uma cultura geral que garanta tranqüila computação do fato. E, por última, mas não de menos importância, um jornalismo que se flexiona ao outro lado da notícia, e ao mesmo tempo sabe separar o puramente noticioso do opinativo. Tudo sob o sacro imperativo da checagem dos fatos, tal como Cattani agia.
Não tenho dificuldades em garantir: entre os de minha geração – passando por Mussa Assis, nosso exemplo maior -, Cícero foi um referencial. Por exemplo: ninguém sabia construir melhor que ele uma manchete. Sabia apregoá-la com a precisão exigida, “cada toque do teclado da máquina (de escrever) seguindo o valor semântico das palavras”.
Tudo pensando no leitor/consumidor do jornal – foi a explicação que me deu, certa feita quando discutíamos um livro sobre a técnica de títulos de um jornalista do Estadão. Ao longo de sua vida longa, Cícero incursionou por outras áreas.
Por muitas vezes, foi conselheiro de governantes e políticos de vários naipes. Foi também dono de hotel/resort e dono de veículos de comunicação, em anos diversos. Nos últimos anos, mantinha um blog noticioso/opinativo precioso.
Num mergulho mais amplo, até entendo bem essa alma inquieta, às vezes olhada como “fora dos cânones estabelecidos”, que podia registrar decibéis de inconformismos. Tudo porque o sopro de vida inicial de Cícero do Amaral Cattani veio impregnado da inquietude intelectual dos gaúchos da fronteira, misturada com o DNA italiano. Quer dizer: pela “lei” de tão forte herança cultural, ele apenas seguiu o rito da história. Uma caminhada que nem o Anjo da Morte pode interromper.
(AMGH)
