quarta-feira, 13 maio, 2026
HomeMemorialAffonso Celso Pastore: "O preço da energia vai explodir"

Affonso Celso Pastore: “O preço da energia vai explodir”

Foto: Licia Rubinstein/Agência IBGE

(Correio Braziliense)

A queda de 0,1% do Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre do ano mostra que a economia brasileira continua com dificuldades para crescer e não há grandes avanços nas políticas econômica e fiscal do governo como o ministro da Economia, Paulo Guedes, tenta transparecer. A inflação persistente e a crise hídrica apontando para um racionamento podem piorar um cenário que já é desanimador, no entender do economista e ex-presidente do Banco Central Affonso Celso Pastore, uma das vozes mais equilibradas no debate econômico. E ele faz um alerta aos consumidores por causa da crise hídrica: “O preço da energia vai explodir”.

Pastore vê o atual governo ancorado no populismo e mais preocupado em ganhar as próximas eleições do que em resolver problemas econômicos. “É um governo que tem uma escala de prioridades que não faz justiça à sociedade que o elegeu”, pontua.

A seguir, os principais trechos da entrevista de Pastore concedida ao Correio.

Como o senhor avalia este momento que o Brasil está vivendo, conjugando retração econômica, inflação alta, crise política, ameaça de ruptura institucional?

Em primeiro lugar, vamos por partes. Quanto à economia, tenho a impressão de que não tem surpresa. O governo não atacou a pandemia com o vigor que deveria atacar. O contágio no segundo trimestre do ano foi muito forte e ajudou a derrubar a atividade econômica. Isso não era uma coisa absolutamente inesperada. Havia uma torcida por resultados melhores. Não obstante a esse fato, haverá recuperação no terceiro e no quatro trimestres, mas não na perspectiva de 2022. Estamos a 120 dias do fim do ano. Já estamos olhando 2022. O resultado de 2021 está dado. Não tem mais o que fazer. E há duas grandes mudanças em 2022. A primeira, tivemos em 2021 um impulso vindo de fora: as exportações. Uma recuperação muito forte de Estados Unidos e China – no caso da China, trouxe aumento do preço de commodities. E o Brasil bateu recordes de exportação, o que ajudou a expandir a demanda dentro do país. Em segundo lugar, tivemos um estímulo monetário fortíssimo, que ajudou a expandir a demanda e a fazer a recuperação de 2021. Agora, a inflação está muito alta. Ela está com um grau de difusão enorme. Se você pegar o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo — indicador da inflação oficial), 75% dos preços que compõem o IPCA estão subindo.

Qual o impacto disso?

Isso significa que a política monetária tem que passar para o modo restritivo. O que significa modo restritivo? Significa cortar a demanda agregada. Em essência é isso. Para poder fazer essa inflação voltar lenta e penosamente para a meta ao longo de 2022. E não vai chegar lá. Só vai chegar na meta em 2023. A taxa de juros real vai ter que ficar no modo restritivo, quer dizer, contendo a demanda. Isso significa o seguinte: o crescimento em 2022 vem para um nível muito baixo.

Com o que o senhor está trabalhando?

Antes da pandemia, a estimativa do PIB potencial do Brasil era de um crescimento de 2%. Nós vamos crescer em 2022 abaixo de 2%. Já tem gente no mercado financeiro fazendo projeções de 1,5%. É um pouco cedo para termos uma visão mais clara, mas, suponha que tenhamos um crescimento no fim deste ano de 5,2%. Uma taxa dessa é possível porque o buraco em 2020 foi enorme. E toda vez que você faz uma comparação com relação àquele fundo do buraco enorme, dá uma taxa grande de crescimento. Isso gera um carregamento estatístico para o ano que vem parecido com 1%. Se estamos falando em 1,5%, 1% é o carrego. Estamos falando em crescimento de 0,5% no ano que vem.

O senhor fala sobre uma política monetária em modo restritivo. O que é isso? Taxa de juros em torno de 10%? O senhor trabalha com essa possibilidade?

Não. Eu não vejo Selic de 10%, mas eu vejo 8% de taxa nominal. Isso sim. Modo restritivo significa que a taxa real de juros (descontada a inflação) tem que estar acima da taxa neutra. A estimativa de taxa neutra, pelas estimativas do Banco Central, do mercado e da nossa, há uma convergência para uma taxa neutra real de 3%. Bom, tem que ficar acima de 3% real. Estamos com uma inflação esperada agora de 7,5% para o fim deste ano. A expectativa de inflação para 2022 ainda está acima da meta (de 3,5%). Suponha que estivesse em 3,5%. O BC teria que subir a taxa de juros acima de 6,5%. Como a inflação está acima de 3,5% no ano que vem inteiro, a Selic vai ter que subir para, mais ou menos, 8%, e ficar o ano de 2022 inteiro nesse nível para a inflação poder voltar para a meta lá em 2023.

O senhor acha que o Banco Central está consciente disso? A impressão é que há um certo negacionismo no governo, como vimos durante a pandemia em 2020, e, agora, com a crise hídrica…

O Banco Central não tem outra saída. Ele tem que cumprir o mandato dele. Agora, ele é um Banco Central independente.

Vai ser a prova de fogo da autonomia em um ano de eleição?

(Risos) Na última ata do Copom (Conselho de Política Monetária), eles estão dizendo claramente isso. Eles demoraram muito para chegar nessa posição. Tentaram acomodar, olhando para a atividade econômica. E foram penalizados por terem represado (o início do ciclo de alta dos juros), com uma inflação que é muito mais generalizada e muito mais forte do que se tivessem começado antes. Águas passadas não movem moinhos, de forma que não adianta discutirmos isso. Mas, agora, o BC vai ter que passar para o modo restritivo e nós vamos enfrentar, realmente, a consequência econômica em 2022.

Leia Também

Leia Também