terça-feira, 12 maio, 2026
HomeMemorialDireito dos deficientes: boa intenção ou tiro no pé?

Direito dos deficientes: boa intenção ou tiro no pé?

Cartaz da Campanha
Cartaz da Campanha

Ditados populares como “De boas intenções o inferno está cheio” ainda encontram significado na política atual. Em Curitiba, não é diferente. A mais nova polêmica envolvendo as redes sociais da prefeitura (ou “prefs” como é apelidada pelos internautas) mobilizou portais e jornais no início da semana, envolvendo um suposto Movimento pela Reforma de Direitos que, por meio de um outdoor no bairro Pilarzinho e em sua página no Facebook, pedia o fim dos “privilégios” a deficientes físicos. Tudo parte de uma campanha que buscava o efeito contrário: conscientizar sobre a situação dos deficientes.

Mas não foi o que aconteceu. Muitas pessoas não gostaram de ser enganadas com um outdoor e mensagens na internet que pareciam reais, disparando absurdos sobre vagas para deficientes, meia-entrada, cotas em concursos públicos, entre outros temas. Mesmo após a explicação – feita em coletiva de imprensa convocada na tarde da terça-feira (1º) – boa parte dos internautas continuou criticando a “prefs” pela campanha.

2 – REPERCUSSÃO

Mirela Prosdócimo e Gustavo Fruet
Mirela Prosdócimo e Gustavo Fruet

“Foi utilizado recurso público para divulgar um material com aquele conteúdo? Por mais que eu entenda a proposta da campanha, fica difícil de aceitar”, comentou um dos seguidores na página do Facebook. Outra usuária completou: “Vocês conseguiram chatear profundamente deficientes, amigos e familiares. Sério mesmo que ninguém apontou que a ideia era péssima no brainstorming?” O resumo do sentimento geral dos indignados com a campanha veio de outra seguidora: “O fim justifica os meios? Continuo achando um tiro no pé, de um mal gosto extremo!”

Mas a defesa da campanha também veio, como na fala da usuária que disse que “às vezes é necessário chocar para fazer as pessoas pensarem. A maioria das propagandas já existentes não recebem tanto apoio e atenção.

Ao invés de criticar, porque não continua a propagar todo o discurso e luta que fizeram ontem quando houve a comoção nas redes sociais?”

As respostas da página oficial da prefeitura seguiram mais ou menos o mesmo texto, de que os criadores da campanha, “integrantes do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência, vão aproveitar o impacto gerado para divulgar mensagens afirmativas e educar sobre o tema.

Infelizmente, esse assunto nem sempre recebe a atenção que merece”.

“Afinal, dinheiro público foi gasto numa campanha que, bem ou mal, poderia ter sido melhor executada. Para usar outra expressão popular, este pode ter sido um “tiro no pé”

 

3 – A EXPLICAÇÃO

A seguir, parte da justificativa da campanha feita pela prefeitura:

“Olá, eu sou a Mirella Prosdócimo, Presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência. E estou aqui para falar dessa campanha do Movimento pela Reforma dos Direitos. Eu sei que vocês ficaram chocados com as reivindicações feitas pelo Movimento. E o choque que vocês sentiram diante das propostas absurdas é o nosso alívio.

Nós colocamos essa campanha no ar. E conseguimos chamar a atenção de milhões de pessoas para os nossos direitos. Porque o desrespeito que chocou as pessoas na internet, ainda ocorre e muito na vida real.

O absurdo na internet durou só um dia, mas as pessoas com deficiência enfrentam esse desrespeito todos os dias. As políticas afirmativas existem para que as pessoas com deficiência possam viver com dignidade.

Por isso, resolvemos aproveitar que quinta-feira, dia 03 de dezembro, é o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência, para levantar essa questão”.

4 – TIRO NO PÉ

Não há dúvidas das boas intenções da campanha da prefeitura, mas os efeitos talvez não tenham sido mensurados como deveriam. Num primeiro momento, vereadores repudiaram publicamente na Câmara. O senador Romário ficou sabendo, via redes sociais, e acusou o “movimento” de incitação ao crime. A União de Pais pelo Autismo, mesmo após a explicação, continua repudiando a campanha em seu Facebook. Entre tantas outras reações…

O fato do anúncio em outdoor ser falso também foi questionado, tendo como base o artigo 1º do Código de Ética do Conar. Colunista da Gazeta do Povo, Rogério Galindo pontuou que “o maior problema da campanha parece ser o fato de ter colocado em questão a legitimidade de direitos que a sociedade não estava questionando. (…) O “manifesto” lançado pela falsa associação criada pela prefeitura questionava pontos que em geral nem são discutidos – provavelmente porque já aceitos – como descontos em eventos culturais”.

Com prestações a dar aos curitibanos em 2016, Gustavo Fruet poderia passar sem polêmicas como essa em sua “prefs”. Afinal, dinheiro público foi gasto numa campanha que, bem ou mal, poderia ter sido melhor executada. Para usar outra expressão popular, este pode ter sido um “tiro no pé”.

Leia Também

Leia Também