
Hoje, 26, a triste informação me chega por Sylvia, filha de Ennio Marques Ferreira (e Heloisa): o mais consistente dos agentes culturais que o Paraná já teve nos últimos 60 anos, morreu em Curitiba – no Hospital da Cruz Vermelha -, aos 95 anos. Mais uma vítima da Covid-19. “Consola-nos o atendimento dedicado do dr. Gama Monteiro, o médico amigo da família”, explica Sylvia.
Tive a honra de ter sido amigo de Ennio desde o começo dos anos 1960, quando ele assumiu a direção do Departamento de Cultura do Estado. Na verdade, foi um verdadeiro secretário de Estado da Cultura, cargo que não existia. Seus talhos de nobreza sabiam viver com destreza e eficiência uma área de todo difícil. Desconheço quem tenha se desempenhado com mais qualificação do que ele, na condução de uma área que, se hoje é difícil, conturbada, naqueles dias era de todo inóspita.

“VELHO PARANÁ”
Na primeira edição de meu livro “Vozes do Paraná – Retratos de Paranaenses”, tracei um perfil do amigo e homem público de alta estirpe. Era alguém do chamado “velho Paraná”, no que essa expressão sintetiza o melhor de homens e mulheres originários de famílias tradicionais que acabaram assumindo posições de relevo na sociedade.
Ennio era filho do agrônomo João Ferreira Filho, ambos naturais da Lapa e formandos na área da Agronomia. João chegou a ocupar o governo do Estado, interinamente, nos anos 1930/40, depois de ter sido secretário de Agricultura.
Desde cedo, em grande parte vivendo e educando-se no Rio de Janeiro, Ennio mostrou-se sensibilizado pelo fenômeno cultural. Nem a prática de esportes, como vôlei, fizera-o colocar em segundo plano essa sensibilidade única que o definiu. Tinha um olhar muito especial e crítico sobre áreas como, por exemplo, as artes plásticas. Era igualmente um artista plástico, mestre do desenho.
Historicamente, algumas das maiores realizações culturais do Paraná no século 20 passaram por Ennio, no Departamento de Cultura (então na Rua Augusto Stellfeld) e depois, no governo Saul Raiz, na Prefeitura, presidindo a Fundação Cultural de Curitiba. Nas duas instituições foi muito além de um administrador de espetáculos e coordenador de manifestações culturais.
Deixou marcas definitivas para a História, na montagem de obras mestras, como o Primeiro Curso Internacional de Música do Paraná e Festival Internacional de Música.
CURSO INTERNACIONAL
De improviso, sem consultar a vasta história de Ennio, posso garantir que áreas como a música, o folclore (Festival Internacional de Folclore), a formação em artes plásticas e o incentivo a manifestações da cultura popular preencheram seu portfólio de obras. Um homem público totalmente dedicado à causa que abraçara, é impossível falar da vida e obra de Ennio Marques Ferreira sem ligá-lo ao Salão Paranaense de Artes Plásticas, nossa mostra maior de artes, que ele cuidou e deu expressão nacional.
Nessas ações sempre soube acompanhar-se de outros nomes também de capital importância, como Fernando Velloso, Eduardo Rocha Virmond, Dalena dos Guimarães Alves, nomes que também estão na história da vida cultural do estado.
Dono de um texto límpido, o substantivo prevalecendo, ele colocou-se naturalmente também no exercício da crítica de artes plásticas. Tal fato mais facilitava sua presença no plano nacional do mundo das culturas, onde era recebido como o lorde que era.
Com mesuras e reverências destinadas aos grandes homens públicos, alguém de dignidade que se impunha desde o primeiro contato com ele. Para quem começou a vida pública cuidando de demarcações de terras (antigo DGTC, e de lá saiu todo limpo), Ennio surpreendeu a muitos, quando enveredou para a área das manifestações culturais.
Só não surpreendeu sua companheira de decênios, a professora universitária (UFPR) de Matemática Heloisa Sá e Silva Ferreira, e os filhos Heloisa e Silvia (minhas afilhadas de casamento), e Paulo. Numa boa síntese que posso fazer nesse momento difícil, comparo-o, de alguma forma, ao Francisco de Assis, o povorello que revejo no desenho que um dia me presenteou, trabalho que reflete um elegante olhar sobre o transcedental.
Não posso esquecer de registrar o pioneirismo de Ennio, com Manoel Furtado, com a fundação da galeria de arte Cocaco, em cujo território foram se acercando nomes referenciais, como Fernando Calderari, Lôio Pérsio, Kracjberg…
Paz e Bem, amigo Ennio NB: a família pede que não mandem mensagens para Heloisa, nos próximos 5 dias, nem se fale da passagem de Ennio. Ela também está num período crítico da Covid-19.
ENNIO, ALMA DE ARTISTA
Enviado por Cleto de Assis, artista plástico, educador, poeta
Nascido em Curitiba em 1926, é pintor, desenhista, crítico de arte, administrador e animador cultural. Neto de João Cândido Ferreira, ex-presidente do Estado, e filho do professor João Cândido Ferreira Filho, secretário de Estado da Agricultura durante o governo interino de Clotário Portugal. Na infância reside em Jacarezinho, mudando-se a seguir para o Rio de Janeiro.
Além de frequentar as principais galerias de arte também frequenta a casa do arquiteto Dante Autuori, onde costumam comparecer artistas como Cândido Portinari, além de músicos famosos. Em 1952, permanece durante três meses na Suíça, tendo a oportunidade de visitar vários países europeus. Transfere-se para Curitiba em 1953.
Funda, dois anos depois, com o radiotelegrafista Alberto Nunes Matos, … Ennio Marques Ferreira, fiquei-lhe devendo uma visita. Faltarão no relato final de minha vida alguns daqueles encontros sempre produtivos, onde eu bebia muito de sua visão de esteta, continuamente preocupado em apoiar as artes do Paraná. Com seu corpo, vai-se mais um grande amigo.
Não por culpa do vírus insidioso, mas pela própria rota vital, que nos destina ao cessar definitivo. Exceção feita às pedras, que não têm alma, nem sensibilidade.
E Ennio sempre foi uma pessoa extremamente sensível, alma de artista, deixando de lado o próprio talento para voltar-se mais atentamente para a curadoria das artes, para a promoção de artistas conhecidos e desconhecidos.
O marchand frustrado, mas que deixou a pequena Galeria Cocaco, o primeiro ponto de comercialização das artes plásticas da ainda provinciana Curitiba – que incentivou o que se conhecia, à época, como “arte moderna” – como um dos marcos da virada para uma nova era da cultura paranaense O conheci quando, estudante de Belas Artes, passei a fazer parte dos colaboradores voluntários que ajudavam o então Diretor do Departamento de Cultura da Secretaria de Educação do Paraná a montar exposições de pintura.
Ennio, sempre às voltas com os parcos recursos financeiros destinados à área cultural, improvisava quase tudo para chegar aos resultados profissionais de sua curadoria, em um tempo em que o termo curadoria ainda se confundia com o termo curandeirismo.
Nesse caminho da improvisação criativa, Ennio contava com meu entusiasmo de artista nascente para utilizar toscos rabiscos de buril na madeira (pretenciosas xilografias) para ilustrar catálogos, por falta de caixa para pagar clichês de metal.
Como paga, indicava-me para desenhar capas de livros de autores que o procuravam para tal. Ennio, meu amigo querido que se foi ontem: temos muitos causos para relembrar. Mas quero, hoje, apenas afundar-me na saudade que seu afeto deixa entre nós. Sentimento que se agranda e entristece pelo fato de não tê-lo visitado, nos últimos tempos. Você estará sempre entre as memórias mais preciosas que acumulei nesta passagem por aqui.
Até breve.
*Biografia publicada por Adalice Araújo
