domingo, 9 agosto, 2026
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É meritório um evangélico no Supremo, diz juiz federal William Douglas, pastor admirador de Bolsonaro

Juiz federal William Douglas

(Da Folha de S.Paulo)

Amigo de Silas Malafaia “e de praticamente todos os pastores mais conhecidos do Brasil”, o juiz federal William Douglas, 53, é um dos nomes que correm por fora quando o assunto é o próximo indicado por Jair Bolsonaro ao STF (Supremo Tribunal Federal).

Uma credencial valorizada pelo presidente, afinal, ele tem: Douglas é pastor pentecostal, ordenado há 11 anos pela Igreja Batista Getsêmani.

À Folha ele diz não achar ruim que Bolsonaro tenha prometido a vaga a alguém “terrivelmente evangélico” —hoje, entre outros, estão entre as apostas o presbiteriano André Mendonça, ministro da Advocacia-Geral da União, e o presidente do STJ (Superior Tribunal de Justiça), o adventista Humberto Martins.

“Assim como já tivemos espaço para a busca de uma mulher e de um negro, vale lembrar que os evangélicos são 30% da população”, diz o magistrado. “Portanto é perfeitamente legitimo, e até meritório, que um presidente coloque ao menos um representante dessa cosmovisão [na corte].”

Membro do Diálogo e Paz, grupo plurirreligioso liderado pelo arcebispo do Rio, dom Orani Tempesta, Douglas diz ver “no diálogo entre diferentes” um pilar da democracia.

O diálogo pausa quando Douglas é questionado sobre a condução de Bolsonaro na pandemia, assim como atitudes pessoais do presidente, como não usar máscara e aglomerar em público.

Diz que prefere não se pronunciar, já que um dia poderá analisar essas questões na corte. Em março, ele se juntou ao TRF-2 (Tribunal Regional Federal da 2ª Região), responsável pelos estados do Espírito Santo e Rio de Janeiro.

Não se furta, contudo, de dar sua opinião sobre o presidente, que apontará um novo integrante do STF quando Marco Aurélio Mello se aposentar, em julho: um “patriota que quer melhorar o país”.

O que pensa de Bolsonaro defender um ministro “terrivelmente evangélico” no STF? Presidentes anteriores prestigiaram parcelas da sociedade ausentes na Corte, que precisa ter conexão de valores com a sociedade que irá julgar.

Assim como já tivemos espaço para a busca de uma mulher e de um negro, vale lembrar que os evangélicos são 30% da população. Este grupo está bem representado em todos os espaços, menos no STF. Portanto é perfeitamente legitimo, e até meritório, que um presidente coloque ao menos um representante dessa cosmovisão.

Em março, o sr. participou do culto da bancada evangélica no Congresso e lá disse que ser cristão e ser político é ainda mais difícil. O que quis dizer? Sigo a Bíblia e a Constituição, cada uma em seus devidos círculos e limites, observando os deveres e direitos descritos nos respectivos livros. Não é nada fácil ser um bom político. Quem, ao mesmo tempo, for cristão terá também outros desafios a cumprir, pois tem mais deveres.

O sr. também falou sobre a judicialização da política. Quando o sr. crê que ela tem acontecido? Quando há desequilíbrio entre os Poderes. Cada Poder tem que respeitar a autonomia, a independência e a atribuições dos demais.

Concorda que há perseguição religiosa do Judiciário e de governadores, como o deputado Marco Feliciano (Republicanos-SP) argumenta? As instituições brasileiras são amadurecidas e consolidadas. As críticas fazem parte do processo democrático.

O pastor Silas Malafaia já se mostrou um entusiasta da sua indicação ao STF. São amigos? Sou amigo dele e de praticamente todos os pastores mais conhecidos do Brasil. Há mais de 20 anos faço palestras em universidades e falo em igrejas. Malafaia, e vários outros, são na verdade entusiastas de um evangélico no STF, para que um terço do país esteja representado na Corte.

Mais de 30 grandes líderes evangélicos sugeriram ao presidente [em 2020] uma lista tríplice que incluiu meu nome. O IBDR [Instituto Brasileiro de Direito e Religião] endossou quatro nomes, sendo o meu um deles. Tudo isso, contudo, é mera sugestão. O que conta mesmo é a decisão do presidente e a aprovação pelo Senado.

O senador Flavio Bolsonaro (Republicanos-RJ) também fez campanha pelo sr. Qual é a sua relação com a família do presidente? Desconheço que ele faça campanha por mim. Nos conhecemos do mundo jurídico e acadêmico e mantemos uma relação de respeito mútuo e consideração.

É um admirador de Bolsonaro? Sim. Ele é um patriota, alguém que quer melhorar o país. Nunca vi um presidente ser tão atacado. Foi eleito legitimamente. Penso que a voz das urnas deveria ser mais respeitada.

O presidente e seu entorno têm tido vários embates com o Judiciário. Acha que a relação de Bolsonaro com o STF pode ser pacificada? O Judiciário tem interferido em atribuições exclusivas do Poder Executivo. Isso desrespeita a Constituição e as urnas. Os Poderes podem e devem se entender melhor, mas para isso cada instituição precisa atuar com mais cautela e equilíbrio, dentro de sua seara.

A determinação do ministro Luís Roberto Barroso para instalar a CPI da Covid no Senado seria um exemplo? Não seria gentil comentar a decisão monocrática de um ministro sem nem ter conhecimento dos detalhes do processo em questão. Creio que o STF e o Senado certamente vão conseguir superar qualquer dilema que possa existir sobre esse assunto.

Como vê a discussão sobre abolir a Lei de Segurança Nacional? Como magistrado me cabe apenas aplicar a Constituição e as leis. Mudar as leis é tarefa constitucional do Poder Legislativo.

Ela foi usada contra críticos do presidente. Concorda com a premissa de que quem caluniar ou difamar o presidente da República pode ser enquadrado na lei? A lei vigente deve ser cumprida. O que me causa espécie é o tratamento diferente para conservadores e progressistas. A isonomia é princípio constitucional.

Lamento que venha existindo “dois pesos e duas medidas” quando o assunto é tratamento aos Poderes e aos que são de opiniões diferentes. Como magistrado de carreira e professor de direito constitucional, penso que temos que resgatar o tratamento igual para todos.

Pode exemplificar quando houve esse tratamento distinto? A cultura do cancelamento, em que internautas e influenciadores se arvoram no direito de acusar, julgar e punir quem quer que seja com base em parâmetros próprios, subjetivos e não estabelecidos em lei.

Refere-se a Felipe Neto, influenciador que chamou o presidente de genocida? Não estou falando de ninguém em particular. Como magistrado, costumo fazer análises apenas dos casos concretos que estão sob meu julgamento.

O STF também a usou para prender o deputado bolsonarista Daniel Silveira. Concorda com a tese utilizada pelo relator do caso, Alexandre de Moraes? O ministro decidiu, e o plenário referendou sua decisão. Este assunto deve ser resolvido entre os Poderes.

Na véspera da Páscoa, o ministro Kassio Nunes Marques liberou a realização de atividades religiosas presenciais. O que achou da decisão? ​Concordo. Não estamos em estado de sítio ou de defesa, e as disposições do artigo 5º da Constituição são cláusulas pétreas. O Estado não pode impedir o funcionamento das igrejas, apenas cobrar medidas sanitárias, como distanciamento, uso de máscara e álcool em gel. Também não pode dispor sobre como cada cidadão exercerá sua religião.

No plenário, 9 dos 11 ministros discordaram de Kassio Nunes Marques. Cármen Lúcia, por exemplo, diz que aglomerar é até um ato de falta de fé. O que acha de essa visão ter preponderado na Corte? Como magistrado, respeito as opiniões divergentes.

Epidemiologistas argumentam que seguir o protocolo, no caso de templos fechados e cultos longos, não garante segurança. Respeito a ciência, a opinião dos epidemiologistas e os argumentos dos religiosos.

Vê a liberdade religiosa a perigo no Brasil? Em muitos aspectos, sim. O caso mais grave a ser enfrentado é a invasão de terreiros de umbanda e candomblé por traficantes autodenominados “evangélicos”.

O sr. disse, em artigo, que a compra de vacinas pela iniciativa privada é “digna de veemente aplauso”. Vê o risco de empresas disputarem imunizantes com governos num momento em que não há doses para todos? Diante desse cenário emergencial, e sabendo que a iniciativa privada já imuniza com eficiência parcela significativa da sociedade brasileira contra a gripe, sem custos para o SUS, isso não é furar fila, mas sim criar filas múltiplas e dar celeridade à imunização. Sou contra, no entanto, ao abatimento do gasto com as vacinas no Imposto de Renda. Não pode existir vacina privada paga com dinheiro público.

RAIO-X

William Douglas, 53
Formado em direito pela UFF, onde já lecionou, foi delegado de polícia e defensor público. É hoje juiz federal do TRF-2. Membro da Associação Interreligiosa de juristas para o Diálogo e a Paz, foi ordenado pastor batista em 2010.

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