terça-feira, 4 agosto, 2026
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“EU ERA FÃ DA LAVA-JATO”, DIZ HACKER QUE VAZOU MENSAGENS DE MORO

Cineasta José Padilha

(Da Veja)

A sessão da Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) que
concedeu, na terça 9, ao ex-presidente Lula o acesso às mensagens da
Lava-­Jato apreendidas na Operação Spoofing, em 2019, teve um espectador
atento. Na noite anterior, a ansiedade impediu que ele pregasse os olhos
na casa onde mora com a avó, em Araraquara, a 250 quilômetros de São
Paulo. No fim do dia, Walter Delgatti Neto, 31 anos, o hacker
responsável por vazar as conversas que deixaram em má situação a
força-tarefa de Curitiba e o então juiz Sergio Moro, comemorou: por 4
votos a 1, os ministros decidiram a favor do petista. Operação Lava Jato
A tensão se justificava, ao menos na sua óptica particular: para ele, a
decisão conta pontos a favor da autenticidade do material e pode ajudar
em sua defesa.

Delgatti responde, com outros três réus, por organização criminosa,
lavagem de dinheiro e crimes cibernéticos. Por isso, um dos momentos que
mais celebrou foi o voto de Gilmar Mendes. “Se os diálogos não
existiram, os hackers de Araraquara são uns notáveis ficcionistas, já
que escreveram tudo isso”, disse. Solto pela Justiça em outubro de 2020,
após um ano e dois meses de prisão provisória, ele tem a vida restrita,
mas ainda assim ostenta uma certa euforia e se vê como o “personagem
principal” do crepúsculo da Lava-Jato. Mas sua relação com a operação
não foi sempre assim. Ele conta que era um admirador da investigação e
revela que invadiu o Telegram de Deltan Dallagnol porque se identificou
com o procurador após assistir a uma palestra numa universidade em
Ribeirão Preto. Delgatti, estudante de direito — e já hacker —, diz que
queria se informar sobre as investigações citadas e, ao entrar na conta,
descobriu que o procurador não eliminava nenhum arquivo.

“FUI ENGANADO”

“Eu era fã. Mas, assim que entendi a manipulação deles, eu me senti
enganado. Vi que a Lava-Jato era mais política do que jurídica.”

A QUEDA

Operação Spoofing: prisão ocorreu em julho de 2019 – Daniel
Marenco/Agência O Globo Para ele, no entanto, os golpes sofridos pela
operação ainda estão longe do fim. O conteúdo apreendido pela Polícia
Federal ocupa mais de 7 terabytes e ainda é uma incógnita. Para se ter
uma ideia, o que foi cedido por Delgatti ao site The Intercept Brasil
somava 56 gigabytes, ou seja, menos de 1%. “Eu acredito que o material
todo tem poder para anular toda a Lava-Jato, sem dúvida”, disse ele a
VEJA, sem entrar em detalhes a repeito de quais possíveis bombas ainda
estariam guardadas. A euforia momentânea contrasta com a sua rotina
diária. Além da tornozeleira, Delgatti não pode sair da cidade sem
permissão judicial. Em razão das restrições, não consegue trabalhar.
Vive da aposentadoria da avó, com a ajuda do irmão e dos advogados.
Antes da prisão, morava em um apartamento alugado em Ribeirão Preto, com
um BMW e um Land Rover na garagem — o primeiro foi devolvido à
financeira e o segundo, apreendido. Diz apenas que ganhava dinheiro com
games na internet e ajudando os colegas com trabalhos acadêmicos. Hoje
reclama muitas vezes de não ter dinheiro para tomar uma condução.

UM MERO CACHÊ

O único valor que disse ter ganhado nesses dias foi um cachê pela
colaboração ao documentário do cineasta José Padilha sobre a Vaza-Jato —
ele não revela o valor, mas diz ainda não ter data para receber o
dinheiro. Apesar da situação em que se encontra, Delgatti traça planos.
Com problemas de dicção, faz sessões de fonoaudiologia e prepara uma
candidatura a deputado federal em 2022.
Quer se filiar a uma legenda de esquerda, apesar de reclamar de ter sido
abandonado pelos partidos desse espectro político, ao qual acredita ter
ajudado. Apesar dos processos, pode se candidatar por não ser condenado
em segunda instância e não estar vetado pela Lei da Ficha Limpa. “Ele
poderá ser candidato até porque dificilmente esse julgamento será antes
das eleições”, afirma o advogado Ariovaldo Moreira. O plano parece pouco
factível, assim como era há alguns anos a possibilidade de um pequeno
criminoso do interior paulista colocar nas cordas uma parte importante
da Justiça brasileira. E, convenhamos, no Congresso Nacional, que tem
tradição em ter em suas cadeiras dezenas de parlamentares na condição de
réus, não seria de estranhar a chegada do hacker confesso.

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