segunda-feira, 3 agosto, 2026
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“PAVILHÃO DA CURA”  

Está mais ou menos dentro do espírito do catolicismo popular (e  simplório) do prefeito Rafael Valdomiro Greca de Macedo, a crítica: funcionários da Saúde, do Hospital de Clínicas, e  de sindicatos de funcionários públicos, apelidaram de “Pavilhão da Cura” o centro de vacinação único que a Prefeitura montou no Parque Barigui.

O local, do ponto de vista de equipamentos parece que  é bem aceitável.

O problema é a inexplicável determinação de que toda vacinação em Curitiba seja feita no “Pavilhão da Cura”. Essa centralização, que joga todas as “luzes” sobre essa ação da Prefeitura (leia-se, Greca), causa mal estar explicável.

O que não se explica é porque, em plena pandemia, desemprego e aumento da pobreza, um morador da Caximba ou do Sítio Cercado, por exemplo,  tenha que se deslocar ao distante Barigui. Com gastos, incômodos e muito tempo gasto nesse deslocamento.

“PAVILHÃO DA CURA” (II) 

Quem por primeiro reclamou em redes sociais e em manifestações publicas contra a centralização do local único de vacinação, foram funcionários da área de Saúde da Prefeitura.

“Quer dizer que  as UPAs e UBSs, que agüentam a barra do atendimento o ano todo, não servem para vacinar? – perguntou uma enfermeira da Prefeitura. E mais: “Quem se importa com a clientela pobre que atendemos, que terá de fazer deslocamento desnecessário,  quando a vacina chegar para todos?”

 “PAVILHÃO DA CURA” (III)       

O caldo engrossou mesmo foi quando o pessoal do Hospital de Clínicas  da UFPR – nosso maior e mais importante centro de atendimento pelo SUS – resolveu protestar. “Então, temos de deixar nossos doentes com COVID, apanhar um ônibus e nos deslocarmos ao Barigui?”, registrou uma liderança dos profissionais do HC.

Outro, menos paciente, saiu-se com essa: “Esse é um novo pátio de milagres do prefeito Greca…” Imagem mais bíblica, impossível.

ODEBRECHT, A FIRMA 

Malu Gaspar segue uma das marcas mais fortes do jornalismo brasileiro dos últimos anos, depois do encurtamento do mercado de trabalho em veículos de imprensa.  A jornalista, que já atuou nos grandes órgãos de Rio e  São Paulo, concretiza em 620 páginas o livro “Organização”, a história da Odebrecht. Faz um corte amplo em torno da empreiteira que acabou sendo sinônimo de corrupção e de triste  aliança de distribuição de propinas ao setor público em trocas de obras ou  para o  recebimento de pagamento por  obras feitas.

Malu Gaspar.

ODEBRECH, A FIRMA (II) 

Já vou adiantando: essa “biografia” da mais importante construtora que o país já teve, não focaliza prioritariamente o período petista de Governo, especialmente o liderado por Lula, quando a empresa, graça a amizade do ex-presidente com Emílio Odebrecht, esteve no auge, com obras financiadas pelo BNDES mundo afora. Uma delas, e cheia de encrencas, foi a que o Governo financiou para a Odebrecht construir usinas  no Equador, e que depois virou escândalo mundial.

Malu Gaspar não faz proselitismo anti-PT ou  a qualquer outro segmento político. Ela  vai à raiz dessa organização, nascida  no século 19, comandada por um Odebrecht natural do Rio Grande do Sul mas que começaria como empreiteiro em Blumenau, SC. Depois, houve mudança para Pernambuco e Bahia. Em salvador nasce, de fato, a empreiteira de grande porte.

ODEBRECHT, A FIRMA (III) 

Fascinante, o  livro da Companhia das Letras   prende o leitor com pequenos insights ou também quando aprofunda abordagens. Um dos momentos curiosos é o do encontro do patriarca Norberto, pai de Emílio (atual líder da organização) e avô de Marcelo, com o então presidente Geisel. (Marcelo foi “hóspede” em Curitiba por 2 anos, no presido de Pinhais e na PF de Curitiba, condenado em ações da Lava Jato). Teimoso, Norberto não descansou, num dado momento, enquanto não foi recebido por Ernesto Geisel, a quem expôs estar sendo preterido injustamente em obra que ganhara na Petrobrás, anos 1970.

Ernesto Geisel.

O curioso do primeiro encontro dos dois, que depois teriam bom relacionamento, foi a descoberta mútua de  laços comuns. Um deles, o fato de o general presidente ter sido educado por um pastor luterano, seu preceptor. Foi também um pastor da Igreja Evangélica da Confissão Luterana (Sinodal) , em Salvador, quem educou Norberto. Fica claro que os dois eram fluentes em alemão, pois.

ODEBRECHT, A FIRMA (IV)      

Norberto era um homem  que apaixonava seus colaboradores. Funcionários o amavam, literalmente, tal sua capacidade de fazer amigos e cultivar amizades de seus funcionários. Era um cavalheiros no trato com seus empregados.

O empreiteiro  tinha sua ética “bem justificada”, fora dos padrões filosóficos clássicos. Dizia-se contra pagar propinas. Mas admitia exceção. Uma delas: quando tivesse milhares de pessoas para  garantir salários e uma fatura que lhe exigiria pagar propina para ter dinheiro em mãos, não titubeava. Pagava. Mas sempre fazendo ressalva de que esse era um desvio  ético de servidores públicos, ao qual se dobrava para manter seu negócio e  alimentar  seus  apoiadores.

Quando concorreu à ampliação do Galeão, Odebrecht acabou contando com um “empurrão” do general Ernesto Geisel, que recomendou ao brigadeiro Araripe, ministro da Aeronáutica: “Se puder, dê  a obra a Norberto, ele é um encrenqueiro, mas cumpre  com a palavra…”

Marcelo Odebrecht – Norberto Odebrecht – Emílio Odebrecht.

ODEBRECHT, A FIRMA  (V)     

As relações tumultuadas entre Marcelo Odebrecht, 52, e seu pai Emílio, fazem momentos preciosos do livro de Malu. Eles literalmente não se davam e Marcelo nunca escondeu desrespeitar o pai, o que fazia até publicamente. Emílio,  era comedido, não agredia.

A verdadeira paixão paterna de Marcelo e seu modelo foi o avô, Norberto, por quem acabou, de alguma forma, devendo sua formação um tanto espartana, com valorização da disciplina meio à militar.

Enfim, não vale spoiler. O livro está aí, não custa barato. É boa companhia na pandemia, ajuda a entender momentos preciosos da história contemporânea do país.

 

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