quarta-feira, 29 julho, 2026
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FALA DO PAPA SOBRE HOMOAFETIVOS TRATA DE DIGNIDADE E RESPEITO, DIZ PRESIDENTE DE COMISSÃO DA CNBB

Dom Ricardo Hoepers, bispo da cidade de Rio Grande, RS | Igreja de Santo Agostinho, em Curitiba

Para a Igreja, casamento será sempre, e apenas,  entre homem e mulher, um sacramento. Mas homoafetividade reclama tratamento respeitoso, diz o curitibano dom Ricardo Hoepers, um dos nomes mais acatados da CNBB dos dias de hoje. A entrevista foi dada ao Estadão de domingo, 25.

O apoio do papa Francisco ao avanço da união civil de casais gays, revelado no documentário Francesco, recém-lançado em Roma, desperta uma reflexão sobre a forma como são tratadas as pessoas que sofrem discriminação e preconceito, avalia o bispo Dom Ricardo Hoepers. Presidente da Comissão para a Vida e a Família da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), ele diz que o papa mostrou estar de “coração aberto” aos sofrimentos de pessoas LGBT e transmitiu ao clero “serenidade”, ao tratar de um tema tão complexo para a Igreja.

“É uma fala sobre dignidade e, acima de tudo, de respeito que devemos ter para com todas as pessoas”, disse o titular da Diocese de Rio Grande (RS), em entrevista por escrito ao Estadão. “É para refletirmos sobre nosso nível de sensibilidade e humanidade em relação àqueles que sofrem discriminação e preconceito a ponto de serem excluídos de suas famílias e dos direitos sociais.”

QUESTÕES REAIS

Leia entrevista a seguir:

Como o senhor e demais bispos receberam o posicionamento do papa?

O papa Francisco é muito sincero, voltado às questões reais da vida cotidiana, e tem uma sensibilidade pastoral tão aguçada que nos impressiona com seu nível de humanidade. Trata-se de uma palavra em um documentário e, portanto, o papa fala com o coração aberto sobre os reais sofrimentos das pessoas de condição homoafetiva. Em uma sociedade que exclui com preconceitos e violência, é uma fala sobre dignidade e, acima de tudo, de respeito que devemos ter para com todas as pessoas.

LIDAR COM O COMPLEXO

O que essa frase do papa transmite para a Igreja? Transmite muita serenidade em lidar com temas complexos. O papa é o homem do diálogo, ele sabe ouvir, porque conviveu com as pessoas nas periferias geográficas e existenciais, quando era bispo na Argentina.

Seu olhar, em primeiro lugar, é de reconhecer a dor. Por isso, fala da misericórdia e compaixão e, nos chama, como na última encíclica (Fratelli tutti), a sermos todos irmãos.

GARANTIR SEGURANÇA

Qual o significado de o papa ter reconhecido o “direito a ter família” de homossexuais?

Primeiro, por causa das condições que, em alguns países, muitas pessoas de condição homoafetiva se encontram: abandonadas pelas suas famílias, discriminadas pela sociedade e à margem dos direitos de terem uma cidadania respeitada. Em segundo, porque essa condição discriminatória pode levar à violência e à exclusão social. Portanto, diante desses perigos, o papa entende que a lei deve buscar garantir a seguridade que toda pessoa merece por ser cidadão de direitos.

Esse posicionamento ocorre no momento em que o papa é alvo de campanhas políticas contra si, inclusive de católicos identificados como mais conservadores. Pode despertar mais oposição a ele?

Não acredito que uma palavra dita, dentro de um contexto de um documentário, sobre direitos humanos, possa causar uma oposição. Ao contrário, o papa Francisco se tornou uma voz profética e de grande liderança. Graças ao seu humanismo e humildade, ele vem mostrando que o mundo precisa de diálogo e isso pode salvaguardar os mais vulneráveis do mundo inteiro, como no caso quando ele defendeu a minoria muçulmana no Myanmar.

NADA MUDA NO CASAMENTO

Essa declaração abre discussão mais ampla na Igreja, com mudanças na doutrina ou dogmas em relação ao casamento em si?

Não, nada muda. Em nenhum momento o papa falou sobre esse assunto do ponto de vista doutrinal ou dogmático. Sobre família, ele já realizou dois sínodos e escreveu uma exortação apostólica pós-sinodal chamada Amoris laetitia. Esse documento afirma que continuamos a caminhar em pleno acordo com a tradição da Igreja sobre a sacralidade do matrimônio e sua dignidade no plano de Deus: “o matrimônio cristão, reflexo da união entre Cristo e a Igreja, realiza-se plenamente na união entre um homem e uma mulher, que se doam reciprocamente com um amor exclusivo e livre fidelidade, se pertencem até a morte e abrem à transmissão da vida, consagrados pelo sacramento que lhes confere a graça para se constituírem como Igreja doméstica e serem fermento de vida nova para a sociedade (Amoris laetitia, n. 292).

Portanto, a frase do papa no documentário é para refletirmos sobre nosso nível de sensibilidade e humanidade em relação àqueles que sofrem discriminação e preconceito a ponto de serem excluídos de suas famílias e dos direitos sociais. Está falando, enfim, das nossas coisas humanas que temos de melhorar e acreditar em um mundo melhor, onde haja a globalização da solidariedade, sem discriminação e violência contra o ser humano. É tempo de cuidar, cuidar de todos!

NÃO HÁ “DISCUSSÃO NOVA”

Por que levantar tal discussão neste momento do pontificado de Francisco?

Não entendo como “discussão nova” ou diferente de tudo o que o papa já vem anunciando em seu pontificado. Tudo o que ele disse está em coerência com sua proposta e seu carisma. Desde o início, ele cita a globalização da indiferença e critica o modus vivendi na qual a sociedade está se desmanchando em seus valores. O papa nunca deixou de se pronunciar sobre aqueles que sofrem algum tipo de discriminação ou violência. Ele se tornou a voz dos que se tornaram invisíveis nas periferias geográficas e existenciais.

CONFIRMA SENSIBILIDADE

É uma frase que avança em posições anteriores do papa Francisco sobre o tema?

Não. Só confirma sua sensibilidade para as questões humanitárias de respeito à dignidade humana. Ao falar dos direitos das pessoas homoafetivas, dentro do contexto do documentário, quis confirmar que ainda existe, em muitos lugares do mundo, pessoas discriminadas, violentadas, abandonadas e até mortas por causa de sua condição homoafetiva. Isso fere diretamente o respeito à dignidade humana, ao mandamento do amor ao próximo e a fé que temos que todas as pessoas são amadas e queridas por Deus.

UM LÍDER VETADO PELO BAIXO CLERO

Pode ser que o então padre Ricardo Hoepers, pároco de Santo Agostinho em Curitiba, estivesse  faltando com a burocracia da Igreja, quando, em 2014, 3 meses antes de ser ordenado bispo, ele me confidenciou em primeira mão: “ A minha mãe e o senhor são as primeiras pessoas a saber. … fui escolhido bispo pelo papa Francisco”.

Só muitos dias depois a notícia se tornou pública e oficial.

Foi assim: numa visita curta ele, que vinha há anos sendo o orientador espiritual do Instituto Ciência e Fé de Curitiba “Fidelis et Constans”,  confirmava a esperança de um sem número de amigos seus, admiradores de seu espírito pastoral e de sua agilidade intelectual, gente como Cícero Urban, Raul Anselmi Junior, José Lucio Glomb e Suely, Eleidi Freire-Maia, Euclides Scalco, Flávio Arns, Rafael Pussoli, Diego Antonelli, padre André Biernaski, Guilherme Barbosa de Souza, Eliane Fontoura, Iracema de Freitas e Porfíria de Freitas, André Nunes,  Hélio de Freitas Puglielli , dentre outros, partes de um quase imensurável universo de cristãos para quem ele se tornara parte essencial de suas vidas.

“O episcopado” , os amigos diziam, seria “o caminho natural” do então padre Ricardo.

Por justiça, sou obrigado a registrar  quanto a carreira desse doutor em Teologia Moral, pelo Anselmiano, de Roma, foi construída com não poucas dificuldades. O melhor exemplo foi dado por uma assembléia de 2013 , do clero da Arquidiocese de Curitiba, convocada pelo arcebispo dom Peruzzo para indicar à Nunciatura Apostólica (Embaixada da Santa Sé) nomes de sacerdotes locais para eventualmente assumirem o episcopado.

Na ocasião, colocado o nome de padre Ricardo Hoepers, foi vetado pela assembléia dos presbíteros, assim como outros padres o foram. Não houve qualquer óbice explicitado que justificasse o veto de Hoepers. O arcebispo, sei, teria, diante do insucesso do “plebiscito”, lamentado as negativas, dizendo que ela até refletiria mal junto à Nunciatura. Mostraria um clero desunido…

Sou obrigado a reconhecer que foi a decisão pessoal do arcebispo dom Peruzzo, em endossar o nome do então padre Ricardo, que o levou ao episcopado e  a assumir, em seguida, a Diocese de Rio Grande, RS. Plenamente integrado no mundo gaúcho, Ricardo vive a realidade de uma diocese sem riquezas, pequena, mas cultural e economicamente expressiva, com enorme porto marítimo e uma universidade federal respeitada.

Não foi difícil dom Ricardo Hoepers, aquele que nunca foge de um debate na defesa da fé cristã, e sobretudo da preciosidade da vida humana, ser escolhido pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) para presidir a Comissão para a família desse colegiado.

A entrevista ao Estadão, acima publicada, em que faz uma exegese segura das posição do papa Francisco sobre a homoafetividade, dá bem a dimensão do prelado a quem, estou certo, não faltarão novas posições na defesa da chamada nau de Pedro no Brasil . Realidade que, de alguma forma intui quando o fiz personagem do meu livro “Vozes do Paraná, Retratos de Paranaenses” número 2. em 2009.

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