
Perpetrado em 30 de maio de 2010, o assassinato do escritor e jornalista curitibano Wilson Bueno ainda reclama justiça. Em decisão controversa – e até hoje pouco esclarecida – o júri popular que se reuniu em 31 de março de 2014 absolveu o réu confesso Cleverson Petreceli Schimitt, embora o tenha considerado autor do crime. O caso, no entanto, ainda percorre os meandros judiciários. Em novembro do ano passado, oito meses após a esdrúxula absolvição, o Tribunal de Justiça acolheu recurso do Ministério Público e decidiu por novo julgamento. Como a defesa recorreu dessa decisão, o assunto está sendo encaminhado para o STJ.
2 – DESAVENÇA
Aos 61 anos, Wilson Bueno foi assassinado pelo garoto de programa Cleverson por conta de uma desavença sobre valores a serem pagos a ele pelo escritor. Bueno havia recém concluído o livro Mano, a noite está velha, publicado no ano seguinte por sua editora, a Planeta. A obra somou-se aos 15 títulos anteriores do autor. Seu apuro formal, que criava um estilo de prosa e verso elegante, refinada, sem ser pernóstica, fez de Wilson Bueno um dos escritores mais significativos da atual literatura brasileira.
3 – BIOGRAFIA
Luiz Manfredini, também jornalista e escritor, que dividiu os folguedos da infância e começo da adolescência com Wilson Bueno, de quem era vizinho, na Rua Augusto Stelfeld, anos 1950, é uma grande autoridade na obra do escritor de “Mano, esta noite está velha” e “Mar Paraguaio”. E está há pelo menos um ano trabalhando na biografia de Bueno, envolvido com arquivos familiares e documentação que membros da família do escritor franquearam à pesquisa.
O livro de Manfredini pode ser editado por uma grande editora paulista, que no momento examina o projeto que lhe foi mostrado pelo autor.
De qualquer forma, Manfredini – com ou sem edição de uma grande editora nacional – promete uma profunda imersão na vida e obra de Bueno que, teve Jamil Snege como mentor; e era um dos seus grandes amigos e com quem costumava ter longos papos literários. Os dois tinham pontos em comum, como o interesse por linguagem experimental, ocasionalmente. E algum tipo de iconoclastia do mundo ao derredor também identificou os dois.
4 – LEMBRANÇAS
Para o volume 7 de meu livro Vozes do Paraná, Luiz Manfredini – um dos personagens dessa coleção que enfoca modernos construtores do Estado -, revelará várias curiosidades que identificaram os primeiros dias dos dois meninos, com seus projetos de se tornarem escritores. Isso quando tinham nada mais que 10 anos de idade.
– Eram outros tempos, diz Manfredini, para revelar que ele e Bueno “brincavam” de fazer jornal. Um bom exemplo foi “O Rui Barbosa”, que imprimiram em mimeógrafo, na seção infanto-juvenil da Biblioteca Pública do Paraná. O periódico teve vida efêmera, mas foi mostra suficiente de a quanto poderiam ir – e foram – os dois garotos.
5 – OS CONTOS
Naqueles dias, conta Manfredini, os dois produziam muitos contos, para um reduzido círculo de crianças da escola e a piazada da Stelfeld.
Numa dessas incursões no caminho das letras, depois, com seus 13 anos, os dois garotos foram à indústria da Famílias Trevisan, na Rua Emiliano Perneta. Pediram e foram recebidos por Dalton Trevisan, que os presenteou com livros dele e dispensou-lhe atenção e palavras de estímulos.
Disse-lhes coisas como “prossigam”.
Um dos primeiros impulsos de Bueno e Manfredini foi o de ligarem-se a um centro cultural. Foram abrigados por Vasco Taborda, que os acolheu no Centro de Letras do Paraná onde fundaram o Centro Juvenil de Letras.
– Mas cedo, o Bueno e eu nos cansamos da linguagem acadêmica e das récitas lítero musicais. Partimos para uma certa vanguarda – “isso mesmo”.
A ânsia dos dois meninos por se imporem e abrirem novos caminhos levou Manfredini, por exemplo, receber um dia, pelos correios, volumes de Jorge Amado. Eram obras do baiano, autografadas com dedicatória ao menino que manifestara ser seu leitor.
A biografia mostrará que a partir da juventude, com seus 17 anos, eles foram tomando caminhos diferentes: Manfredini para o mundo da política e Bueno fixando-se, depois, no Rio, onde firmaria a ser certeza de que nascera mesmo para ser escritor.
