segunda-feira, 27 julho, 2026
HomeMemorialPASTORA, MÉDIUM E PADRE DOMINAM NOTICIÁRIO POLICIAL (PARTE 3)

PASTORA, MÉDIUM E PADRE DOMINAM NOTICIÁRIO POLICIAL (PARTE 3)

No RS, SP e AL houve, no começo dos anos 1960, as primeiras mostras do potencial eleitoral de igrejas. Nesses casos, apenas com igrejas ditas históricas

Ex-deputado Takayama

Prossegue a abordagem do avanço evangélico brasileiro no mundo da política, a propósito de uma onda de escândalos envolvendo religiosos, como a pastora Flordelis (RJ), acusada de matar o marido, um pastor; o
mediu João De Deus (condenado por estupros)  e o padre Robson Gonçalves, que teria praticado o pecado da simonia, a venda de bens sagrados. Esses dois são de Goiás.

A partir desse gancho de Flordelis, analisamos o crescimento crente no país. Explicando: Quem colhe os frutos, folgados, do crescimento crente pentecostal-neopentecostal no Brasil deste 2020, como o presidente da República e seus apoiadores, quase nada sabe da grande batalha que foi, no país, a consolidação do protestantismo, e quantas lutas teve para derrubar a hegemonia Católica, a da Igreja sob cujas bênçãos o Brasil nasceu em 1500.

Como já assinalei, o grande pulou do mundo evangélico eu o identifico a partir dos anos 1960, quando as igrejas evangélicas, ainda refratárias, no geral, à chamada inserção “nas coisas do mundo” – com a proibição do futebol, cinema, televisão, bailes… – começavam a aceitar a  entrada do púlpito crente na vida política.

NÚCLEOS METODISTAS

Assim, assinalo bem clara, no final dos 1950, o começo da  presença de núcleos metodistas do Rio Grande do Sul na vida político partidária.

No caso, o nome mais paradigmático dessa arrancada foi  Rui Ramos, grande tribuno, getulista acima de tudo, que o RS fez deputado federal (PTB, o histórico, não o de hoje), reeleito por várias  vezes.
Em Porto Alegre, no final dos 1950, a Câmara Municipal apresentava como novidade a eleição de um protestante, o ítalo-brasileiro Geraldo Stédile, natural de Caxias do Sul, metodista também.

Aberta a “cancela”, a onda evangélica só cresceria dali em diante na capital gaúcha. Isso sem contar que evangélicos luteranos sempre estiveram na política gaúcha desde o  século 19, parte da ativa Igreja Evangélica da Confissão Luterana, que congrega alemães e seus descendentes.

Em São Paulo, também em meados do século 20, a Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), claramente de tendências conservadoras em política, foi gerando seus primeiros quadros políticos de peso. Um deles, Camilo Aschcar.

Certo  que as igrejas, como a IPB,  não se engajaram como instituição nas candidaturas. Mas os votos  eram gerados pela ideia central – “irmão vota em irmão” em função da religião…

DISTANTE ALAGOAS

Na distante Alagoas, as igrejas batistas revelaram  (uso o nome no plural dado ao caráter congregacional da denominação, cada igreja  sendo independente, apenas ligada  com as outras  por uma convenção em torno
de doutrina e fé) Aurélio Vianna, pelo PSB de João Mangabeira. Ele nunca iludiu o  eleitorado: suas propostas tinham tonalidades socialistas, forte identificação com teses que dominavam o anti-americanismo reinante, como bandeiras de “O Petróleo é Nosso”, reforma agrária, participação no lucro das empresas.

Dono de uma retórica de enorme poder de convencimento, Aurélio Vianna logo se impôs em Brasília como deputado federal. Era personagem de “tonalidades libertárias no dia a dia do parlamento”, lembra um
veterano jornalista especializado em política.

Aurélio Vianna, que mais tarde  seria atingido por medidas restritivas de seu mandato pela ditadura militar, chegou  a eleger-se, depois, deputado federal pelo Rio de Janeiro.

Luiz Carlos Martins. Foto Orlando Kissner/ALEP

ESCOLA DO  PÚLPITO

Não esquecer que Viana era fruto especialmente dessa escola da oratória evangélica, tendo o púlpito como centro dos cultos, assim como Rui Ramos e Aschcar.

Ainda não se analisou bem o papel do culto evangélico no Brasil. Mas ele  teve o condão de, centrado na Palavra (mesmo que, depois, com sessões de curas e libertação de demônios), substituir a repetitiva
liturgia católica, que sempre excluiu a participação ativa dos fiéis. A bem da verdade, no catolicismo, no Brasil, só a partir do Concílio Vaticano II (1963/65) os fieis deixaram a passividade e começaram até a
fazer papeis ativos, como de Leitores nas missas, entre outras ações litúrgicas, além de ministros da Eucaristia. Sem mencionar a introdução da figura de diáconos casados ordenados.

OS GARCIA NO PARANÁ

O presbiterianos do Brasil (IPB) do Paraná  fizeram parte dessa arrancada para a política partidária ao eleger, no começo dos 1970, Olavo  Garcia, de Londrina, educador, dono de escola secundária tradicional, a deputado estadual pela |UDN. Cumpriu vários  mandatos com boa aceitação e, como era regra naqueles tempos, “sem escândalos”.

Não posso esquecer que ao mesmo tempo, em São Paulo, o jornalista/radialista e poeta Rafael Gioia Junior, batista, começava uma carreira de enorme repercussão, como vereador, deputado estadual e deputado federal. O forte de sua eleição era o “voto de irmãos”, sempre lembrando em suas campanhas ser  filho de um ex-padre, Rafael Gioia Martins, que, convertido batista, faria duras campanhas no final dos
anos 1950 Brasil a fora contra a doutrina e a organização católicas. O pregador foi implacável com a instituição que o educou.

Rafael Gioia Martins fez intensas campanhas, inclusive em Curitiba, na Primeira Igreja Batista, na época  localizada na Rua Visconde de Guarapuava, com Rua Des.Westphalen, então liderada pelos irmãos Walter
e Werner Kaschel, quadros formados em seminários da Junta de Richmond, Estados Unidos.

O batista Giopia Junior terminou carreira como ministro do Tribunal de Contas do estado de São Paulo, cargo que, dizem línguas afiadas, “só não é melhor que o Paraíso”.

PIMENTEL DE CARVALHO

A grande força a despertar os evangélicos para sua potencialidade de votos no Paraná foi um homem humilde, com enorme liderança, dono de uma vida correta e fiel ao Evangelho – pastor Pimentel de Carvalho, da Assembleia de Deus (Avenida Cândido de Abreu). Manso, simples, gerou frutos políticos ao seu redor. Um deles, o discutido pastor Takayama, que teve pelo menos  5 mandatos  de deputado, em Curitiba e Brasília. E outros assembleianos também seguiram os mesmo caminhos do legislativo.

Com Pimentel de Carvalho, sem que ele fizesse nenhum esforço para isso, na fidelidade de seu ministério, foram juntando-se forças políticas que até agora fazem as Assembléia de Deus ter  muitos votos no Estado. A Cantora Mara Lima é um dos frutos do pastor que morreu octogenário,  na primeira década dos 2000.

A FAMÍLIA LOSSO

Igo Losso

Um dos mais paradigmáticos envolvimentos de grupos religiosos em torno do ideal “irmão vota em irmão”  a história registra na família Losso, membros atuantes da Igreja Adventista do Sétimo Dia que, entre os 1960 e1980, teve deputado federal (Luis, o pai, e depois, Igo Iwant, filho) e mais dois membros que ocuparam a vereança em Curitiba e uma cadeira na Assembleia Legislativa. Todos filhos de Luis (in memoriam) que hoje se dedicam à advocacia e ao magistério.

Atualmente, o adventista do sétimo dia mais representativo é o deputado Artagão de Mattos Leão, oriundo de tradicional família de Guarapuava de origem basicamente católica.

Os evangélicos na política paranaense não têm, graças sejam dadas, nenhum representante com o currículo criminoso da deputada Flordelis (PSD-RJ) e sua gangue eclesiástica.

TIRA E BOTA A SANTA

O certo é que a presença do mundo crente desalojou até um espaço considerado sagrado pelo mundo católico: a antiga Capela Nossa Senhora Aparecida, instalada nos tempos de Aníbal Kury na Assembleia
Legislativa, agora é ecumênica.Com um detalhe: quando o culto é evangélico, a santa católica é escondida. Entra uma bíblia no lugar das imagem da Padroeira do Brasil.

Mesmo o católico consistentemente  fiel à ortodoxia, deputado Luiz Carlos Martins  não teve dificuldades de aceitar a estranha arrumação no território do sagrado. Afinal ele sabe ler os sinais dos tempos, expressos no “ó tempo, ó costumes”, de Virgílio.

(CONTINUARÁ)

Leia Também

Leia Também