Flordelis foi desligada da Frente Parlamentar Evangélica,
da Câmara dos Deputados, por comportamento nada cristão.
A Frente tem 190 membros.

Se a situação da pastora Flordelis – dona do Ministério Flordelis, com igrejas no RJ -, não é nada confortável, estando agora na alça da mira da Frente Parlamentar Evangélica da Câmara dos Deputados, que a desligou de seus quadros, padre Robson Gonçalves, no entanto, está em situação relativamente “confortável”, segundo seus assessores.
O sacerdote, que presidia o movimento católico Associação dos Filhos do Pai Eterno, em Trindade Goiás, e movimentado patrimônio financeiro perto de R$ 200 milhões em dez anos, alega que fez tudo certinho. E que teve todas as transações de sua associação aprovadas pelo Conselho de Administração, composto de leigos e membros da congregação Redentorista, ordem à qual Robson pertence.
Ao contrário de Flordelis, acusada de assassinato e formação de organização criminosa, e das violências sexuais do médium, o padre está caindo pelo pecado da simonia (troca de bens espirituais por
dinheiro…)
CASA PARA A IRMÃ
Só que no meio dessa alegada correção do sacerdote (desligado agora da presidência da Pai Eterno), há furos. Um deles: como explicar que ele tenha entregue uma casa de luxo, da Associação, para moradia de uma irmã sua, pessoa de poucos recursos? E a casa na praia, quem a usa, uma casa de luxo? E mais: lembram leitores assíduos deste espaço: padre Robson apareceu como o mais insistente dos líderes católicos ditos conservadores que, em live com o presidente Bolsonaro, pediram-lhe recursos publicitários
para tocar suas obras de Comunicação (no caso, a Televisão do Pai Eterno, disponível no Canal 18 da SKY).
No encontro por zoom com o presidente, meses atrás, Robson alegou justamente falta de recursos para tanto se empenhar em verbas públicas. Foi o mais incisivo no peditório publicitário.
JOÃO DE DEUS
Com meu olhar um tanto o treinado para essas realidades, acredito que Robson – embora agindo como um mercantilista religioso, acumulando bens materiais desnecessários, sob apelos religiosos -, acabará sem
imputação criminosa. Tudo porque “agiu de acordo com os estatutos da Associação”, como alega à Coluna um diretor da Associação Amigos do Pai Eterno, pedindo anonimato, “por ora”. E ao lado da Associação, é bom lembrar – ou dentro dela – está a Congregação dos Missionários Redentoristas, sabidamente instituição importante na estrutura católica mundo a fora.
Robson não escapará do julgamento moral de um povo pobre, desvalido e cheio de fé de quem ele se tornou um expert em “extorsão marcada pela simonia”, diz um padre do Studium Theologicum de Curitiba.
SÓ ENCRENCAS
Flordelis , no entanto, está encrencada até o pescoço, segundo o MPRJ e a Polícia Civil carioca. João de Deus, por sua vez, já condenado, é abusador sexual de meia centena de mulheres, em atos criminosos em que misturou crenças religiosas e exploração pura e simples da fé.
TEMPOS DE ARIGÓ
É bom lembrar que nem o notável Zé Arigó, o médium espírita famoso dos anos 60/70, que teria operado JK, escapou de acusações de abuso sexual. A vítima teria sido uma fiel kardecista. Já Chico Xavier, o “coluna do espiritismo”, uma figura nacionalmente respeitada, nunca sofreu acusação contra sua honra em qualquer plano. Na verdade, Xavier sempre se mostrou um franciscano em todos os sentidos – pobre, humilde e casto. “Sua vaidade explícita”, diz um velho jornalista que conheceu bem o médium de Uberlândia, era “aquela horrorosa peruca que exibiu a vida toda…”
ANTES, MUITO DISCRETOS
Revendo meus antigos estudos sobre o pentecostalismo brasileiro e depois o surgimento do neopentecostalismo, com Teologia da Prosperidade, doutrina nascida nos Estados Unidos, anos 1930 – foco nas grandes mudanças do protestantismo nacional. Elas começaram, um pouco mais, um pouco menos, no final dos anos 1950, início da década de 1960, quando surgiram grandes igrejas nacionais, totalmente autóctones, como a Igreja Brasil para Cristo, de Manoel de Mello, que por Curitiba passou em 1963, pregando no auditório do Colégio Estadual do Paraná, e a Igreja Deus é Amor, de David Miranda,
hoje com enorme sede na Rua João Negrão, em Curitiba, no espaço que outrora foi do conglomerado comercial Hermes Macedo.
MILAGRES, MILAGRES
Jornalista já naqueles dias preocupado com o fenômeno religioso, vi também as primeiras manifestações de David Miranda em Curitiba, no começo da década, com cultos no Alto do São Francisco precedidos de
farta distribuição de panfletos em que ele anunciava milagres a mancheias.
As ilustrações de propaganda mostravam muletas amontoadas num canto, ao lado do pregador. Esse foi um dos marcos das grandes mudanças, seguido – ou ao mesmo tempo – da metamorfose na mentalidade política de líderes evangélicos, que passaram a não mais criminalizar o mundo da política.
(CONTINUARÁ)
