terça-feira, 19 maio, 2026
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OBITUÁRIO – IGNEZ SPACASSASSI (1930-2020)

Vida longa e plena

 

Vó Ignez: ultima foto

Os jovens Faustino Spaccassassi, 23 anos, e Antonietta Pietrocola, 21 anos, começavam a vida de casados naquele início de década. Os anos 1930 seriam tribulados, especialmente para paulistanos como eles – ambos filhos de italianos, que para cá imigraram no final do século 19. Naquele 21 de janeiro de 1930, Dia de Santa Inês, vinha ao mundo a primogênita do casal: Ignez Spacassassi. Ignez, com “g”, como ela fazia questão de lembrar.

 

Lua de mel no Rio de Janeiro, com o marido João Nunes

“QUEBRA PEDRA”

Primeira neta de uma família numerosa, rapidamente se tornou o xodó das nonnas Amabile e Giuseppa e dos nonnos Donato e Giacomo. Os Spaccassassi (quebra pedra), aliás, tiveram a benção de contar com a longeva matriarca até os anos 1950: a “nonninha” Maddalena Di Marcantonio, natural da região italiana do Abruzzo, recebeu um festão de 102 anos, com direito a notícia no jornal e “cobertura” do radialista Nhô Totico.

Curiosamente, ele também era natural de Descalvado (SP), cidade natal de Faustino Spaccassassi, onde a família trabalhara inicialmente nas lavouras. Quando a história da imigração italiana foi contada pela novela “Terra Nostra”, a bisneta de Maddalena e filha de Faustino fez parte da figuração.

 

Paixão pelo Palmeiras, com o filho Jadir e os netos Andre e Beatriz

PARQUE ANTARCTICA

Ignez tinha apenas dois anos quando estourou em São Paulo a Revolução Constitucionalista, guerra civil depois lembrada pelo feriado do 9 de julho. Aos 12 anos, a família completou-se com o nascimento do caçula Geraldo Spaccassassi.

Seu pai era pedreiro e trabalhou na construção do Parque Antártica, o estádio original do Palestra Itália. O Palmeiras, aliás, se tornou uma paixão legada pelo patriarca, hoje na quinta geração de palestrinos orgulhosos (e sofredores). Faustino tinha lugar cativo na arquibancada e, quando o time vencia, levava pizza para comemorar em casa. Ignez, já nos últimos anos de vida, fez parte do Coral do Palmeiras e frequentava assiduamente o clube – atividade que dividia com seus bordados e costuras.

 

Ignez foi guia de turismo por 30 anos

VENDO GETÚLIO

Ainda criança, na garupa do pai, assistia a comícios de Getúlio Vargas.

Não se vive 90 anos em São Paulo sem presenciar a história sendo contada. E como Ignez gostava de histórias! Talvez por isso a vida acabou a encaminhando para o ofício de guia de turismo, que exerceu por mais de 30 anos. Mesmo aposentada, continuava viajando com grupos de amigas, especialmente para a Região Sul, sua favorita.

 

Ignez com a mãe Antonietta e os netos Felipe e André, anos 90

SEU NOME ERA JOÃO

Em 1951, Ignez casou-se com João Nunes, filho de um português da Ilha da Madeira e de uma italiana. Da união vieram os filhos Jorge e Jadir, além da nunca esquecida Maria Ignez, infelizmente natimorta. Anos depois, acabaram se desquitando e cada um seguiu seu rumo. As décadas vindouras trouxeram mais descendentes, ao todo cinco netos (Alexandre, Cláudia, Felipe, André e Beatriz), seis bisnetos (Thaís, Giovanna, Gabriela, Alice, Bento e Olga) e dois trinetos, Kaio e Manuela.

 

CONTANDO A VIDA

Ignez não cursou nenhuma faculdade, mas especializou-se na arte de contar histórias sobre os locais que visitava, sem ser enfadonha. Sempre que vinha a Curitiba, por exemplo, contava sobre a história da Santa Felicidade que deu nome ao bairro do Madalosso – parada obrigatória.

Neste 29 de maio de 2020, Ignez se foi enquanto dormia. Serena, com os braços sob a cabeça em posição devocional. Deixa a saudade de quem desfrutou de sua convivência e 90 anos de boas lembranças. Uma longa e plena jornada que agora entra para a nossa história familiar.

(Com amor, do seu neto André Nunes, 30/05/2020)

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