quinta-feira, 23 julho, 2026
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OPINIÃO DOS OUTROS: E daí? O que faremos? (parte I)

Cleto de Assis (*)

Sabemos que a História, como ciência, estuda a vida humana através do tempo. O historiador olha pelo retrovisor e analisa o que ficou para trás, não só como testemunho do desenvolvimento do homem, mas também para entender e explicar o tempo presente. Já a vida futura pertence mais ao reino dos videntes, das cassandras que por aí existem, a animar ou a assustar os ingênuos. Ressalve-se a licença científica dada a alguns estudiosos que, com os dados do passado e do presente, podem sinalizar eventos que ainda não ocorreram, principalmente baseados em dados estatísticos de probabilidade. É o caso de um cientista e escritor brasileiro, médico do Hospital Oswaldo Cruz, em São Paulo, que publicou, bem antes desta pandemia que tanto pandemônio criou, três livros importantes, que podem ser considerados como trilogia dos vírus, dada a sua interrelação, e que pouca gente das esferas governamentais deve ter lido.

 

CAMINHADA DO VÍRUS

No primeiro livro, edição de 2008, o infectologista Stefan Cunha Ujvari descreve a caminhada dos vírus, bactérias, parasitas e outros microrganismos pelo mundo, junto aos passos dos viajantes de sempre, que somos nós. Importante notar, do ponto de vista biológico, que esta constante relação do homem com o microcosmo faz parte da vida, numa eterna interdependência. Os microrganismos carregam os mesmos instintos de sobrevivência dos ditos animais superiores e, muito mais antigos que nós, originados nas primeiras bactérias, multiplicam-se exponencialmente e ocupam, proporcionalmente, mais espaço em nosso corpo do que as células que nos mantêm vivos. Calcula-se que existem, no organismo humano, cerca de 10 trilhões de células, enquanto carregamos 100 trilhões de bactérias, boas ou más, dentro e fora desta carcaça ambulante.

Na seguinte obra, editada em 2011, com um título bastante atual – “Pandemias – a humanidade em risco” – Ujvari mostra o quão estamos à mercê das infecções causadas pelos vírus os mais diversos, que podem surgir a qualquer momento nas diferentes regiões do planeta ou em nossa própria casa brasileira.

 

FAVORECENDO A DOENÇA

O terceiro livro da trilogia ujvariana concentra a sua análise no meio ambiente. Sua sinopse diz que ele “mostra a contradição típica destes tempos em que o progresso dota a humanidade de recursos eficazes no combate às infecções causadas por seres vivos, mas também favorece a doença pela modificação que opera na natureza”.

No momento em que vivemos, talvez a pandemia tenha se instalado universalmente por três razões principais: a falta de saúde preventiva, a desatenção dos governantes às pesquisas científicas e a velocidade dos meios de transporte, que podem deslocar, em poucas horas, uma pessoa infectada para regiões muito distantes. De repente, a surpresa não tão surpreendente, por ser recorrente: os países de origem, também por culpa da ignorância ou safadeza política de governantes, escondem as epidemias que nascem em seus respetivos territórios, atrasando as ações preventivas dos demais.

Sempre dentro de sua especialidade médica, Stefan Cunha Ujvari é autor de outros dois livros, que ainda não li: “A história e suas epidemias” (2003) e “Perigos ocultos nas paisagens brasileiras: como evitar doenças infecciosas” (2010). E porque, de certa forma, exalto a sua contribuição? Em primeiro lugar, porque trata-se de um cientista brasileiro, provável sofredor dos parcos incentivos à pesquisa em nosso país, mas que denota, em seus escritos, uma lógica pertinente à grande necessidade de saúde preventiva. Inicia no conhecimento do trotar das bactérias junto ao corpo humano, até as causas das enfermidades, endemias, epidemias e pandemias, centradas no desequilíbrio do relacionamento homem & meio ambiente.

 

UM PANDEMÔNIO

Quando falei em pandemônio, logo no início deste artigo, quis mostrar, em primeiro lugar, que o saber científico não é bem entendido, nem respeitado por governantes e boa parte das populações, que dançam dentro da insegurança das informações. Do ponto de vista dos informantes, com todo o respeito à ciência da Comunicação, há certo aproveitamento da confusão para elevar o tom dos acontecimentos: o avião só é notícia quando cai, já dizia o velho e irônico aforismo do jornalismo.

Resultado: mais confusão, desentendimento entre política e ciência, desinformação entre a população, maior avanço das enfermidades. As autoridades parecem querer se desculpar pela falta de infraestrutura médica capaz de tratar epidemias com segurança física. Os órgãos representativos da ciência médica não transmitem nem autoridade, nem segurança em suas notas oficiais. E os institutos de pesquisa, no caso brasileiro, reclamam por falta de verbas adequadas para assegurar a união da sapiência com a rapidez para alcançar, a tempo, instrumentos e produtos terapêuticos eficazes.

 

HIDROXICLOROQUINA

Miremos a polêmica instaurada sobre o uso da cloroquina, medicamento originário dos povos do Peru pré-colombiano, que utilizavam a casca de uma árvore, a Chinchona, para curar calafrios e febre. Dela surgiu a quinina, aplicada primeiramente em casos de malária, na região amazônica da América Latina. E do seu extrato os laboratórios isolaram a hidroxicloroquina e a cloroquina. Mas os seus usos foram reduzidos há muito tempo, por ter sido notada a interação negativa com determinados antibióticos e, principalmente, os efeitos adversos de ambas as drogas irmãs.

Em Pandemias, Ujvari registra que a “adição de iodo ao sal de cozinha preveniu o bócio endêmico, patologia da tiroide ocasionada pela falta desse elemento. Animado com o resultado, o governo [brasileiro] adicionou, no início da década de 1950, cloroquina (droga do tratamento da malária) ao sal de cozinha e o distribuiu à população amazônica. O povo, com níveis circulantes da droga no sangue, seria picado pelo mosquito, mas não adoeceria e a enfermidade poderia ser extinta. A estratégia não teve sucesso. E o pior, acredita-se que os baixos níveis da droga na população que não matavam o parasito podem ter induzido o surgimento de formas resistentes à cloroquina, que hoje não tem efeito para uma espécie do parasito brasileiro”.

(CONTINUARÁ)

(*) CLETO DE ASSIS, professor, comunicador social, artista plástico

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