quinta-feira, 23 julho, 2026
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QUARENTENA DE QUARENTA OU DE VÁRIOS DIAS?

Na língua portuguesa em seu contexto popular, é muito comum ouvir-se dizer quarentena em relação a vários números de dias, o que se legitima pela Lei do Uso e pela praticidade: quarentena de dez dias, quarentena de trinta dias. No plano histórico, consta que em tempos idos, os navios dos mercadores de Veneza traziam riquezas ao lado de moléstias, trazidas de terras distantes. No século XVII, o governo local impôs aos viajantes um isolamento de quarenta dias para evitar disseminação de doenças contagiosas, número correspondente ao de quaresma, mas passou a designar 24, 48, 72 horas, meses ou até anos. A quarentena original foi criada pelo médico Achilles Proust, pai do escritor francês Marcel Proust, depois de estudar as rotas do cólera no Mar Mediterrâneo (Deonísio da Silva, De Onde Vêm as Palavras, 2014, p 388).

 

UNIFORMIDADE LINGUÍSTICA?

De fato, pensar numa língua uniforme, falada em toda parte, em toda hora do mesmo jeito, é um mito que tem trazido consequências desastrosas para a autoestima das pessoas – principalmente daquelas dos meios rurais ou de classes sociais menos favorecidas – e que tem confundido, há séculos, os professores de língua (Irandé Antunes. Língua, Texto e Ensino: Outra Escola Possível. São Paulo: Parábola Editorial, 2009. p. 21).

Para o uso em situações formais, sobretudo nos contextos técnicos científicos, convém conhecer detalhes a respeito do nome em foco e expressar valores precisos, como apregoam, por exemplo, notórios autores de metodologia científica:

“Se a precisão da linguagem é necessária a todos, ela é imprescindível aos pesquisadores e cientistas, já que a imprecisão é incompatível com a ciência” (Saul Goldenberg, Publicação do Trabalho Científico: Compromisso Ético. Acessível em http://metodologia.org/wp-content/uploads/2010/08/saul_etica.PDF, p. 5, consultado em 16-1-2015).

 

REFERENCIAL

“Nos trabalhos científicos, emprega-se a linguagem denotativa, isto é, cada palavra deve apresentar seu sentido próprio, referencial e não dar margem a outras interpretações” (Maria Margarida de Andrade, Introdução à Metodologia do Trabalho Científico. São Paulo: Atlas, 2003, p. 101).

É oportuno acrescentar que, em bons dicionários, encontram-se vários sinônimos e nomes equivalentes a respeito de quarentena, a saber: demora, dilação, espera, expectação, isolamento, observação, proibição, quadragésima, quaresma, regime, resguardo, restrição.

Em sentido corrente, quarentena significa período de quarenta dias. Em sentido preciso ou denotação indica conjunto de quarenta seres. Exemplos – quarentena de dias, quarentena de presentes (Dic. Houaiss, 2009).

 

TERMOS MÉDICOS

Separar os elementos constitutivos das palavras ajuda os estudantes a conhecer a formação e o uso inteligente dos termos em terminologia médica moderna (A. C. Frenay, R. M. Mahoney, Understanding Medical Terminology, Boston: McGraw-Hill, 1998, p. 4).

Assim, em contexto etimológico, quarentena provém de quarenta, do latim quadraginta (pronuncia-se quadraguenta), e o sufixo -ena, que traz ideia de conjunto numérico de seres, conexo com -eno, do latim -enus (Houaiss, ob. cit.). Para outros valores, estão também dicionarizados, com a terminação -ena, catorzena, centena, cinquena, dezena, dozena, duzentena, novena, onzena, quarentena, quinzena, sena, septena, setena, trezena, trintena, vintena. Com -eno, existem catorzeno, dezeno, dozeno, noveno, octeno, onzeno, quatorzeno, seno, seteno, sezeno, treno, trezeno, vinteno. Esses sufixos apresentam conexão também com os sufixos -enho, e -no.

NÃO É ERRADO

Pelo exposto, não constitui erro usar quarentena com variações numéricas implicitamente relacionadas a dias. Seu uso literal, restrito a situações formais ou não, torna-se uma questão de escolha e apoio às considerações retromencionadas.

SIMÔNIDES BACELAR

Médico, Brasília, DF

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