O resultado danoso da dependência de igrejas do Estado não foi compreendido por evangélicas.

Parece mentira, mas instituições religiosas que deveriam estar fazendo ou liderando grande mutirão contra a pandemia do coronavírus, estão fazendo pressão sobre o presidente da República a pedir que a Receita Federal “dê um jeito” em seus enormes débitos com o fisco federal.
Pois foi isso que aconteceu na segunda-feira, 20, quando o deputado federal David Soares (DEM-SP) teve um encontro a porta fechadas no Palácio do Planalto com o chefe do Governo e José Barroso Tostes Neto, secretário Especial da Receita Federal.
O filho de RR Soares, fundador e dono da Igreja Internacional da Graça, quer porque quer que o fisco federal resolva o imbróglio que sua igreja, e que é também de outras evangélicas – todas protegidas da Banca Evangélica. Pede que sua igreja seja perdoada dos 140 milhões que estão na dívida ativa, decorrentes de impostos não pagos à União.
Bolsonaro, que tem nesse segmento religioso uma de suas fontes de apoio, já ordenou à equipe econômica “para resolver esse assunto”, conforme relata O Estado de São Paulo em sua edição deste dia 30.
Mas a queda de braços continua, o órgão federal resiste.
Os evangélicos, e, no caso, especialmente a Igreja Internacional da Graça, estariam usando a remuneração do pastor, que é isenta de tributos, para distribuir participação nos lucros, ou pagar remuneração variável concedendo os maiores valores aos que têm “maiores rebanhos”.
Essa pode ser uma enorme encrenca que o presidente terá pela frente, depois da grita com que Moro escancarou a necessidade de independência de órgãos técnicas de influências políticas. Mesmo vindas do presidente da República.
Nem o bilionário Edir Macedo, que está entre os homens donos das maiores fortunas no Brasil, segundo a Forbes, está distante dessa encrenca. A Igreja Universal também se digladia com o fisco.
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É UMA VELHA HISTÓRIA

Igrejas dependentes e “sugadoras” do erário fazem uma velha história no país. Tudo começou com a ligação umbilical da Eclésia – que é de fato base da formação da nação brasileira -, com o poder público. Acho que frei Henrique de Coimbra entrou “de sangue doce” nesse acerto, ela apenas queria evangelizar, tudo indica.
Essa triste ligação dava-se já na Colônia por meio do regime do chamado Padroado, todo legalizado: o governo pagava para a Igreja e seu clero, e seus braços diversos, atuarem junto ao povo em geral. E havia também as fazendas que tinham seus próprios capelães.
Em contrapartida, o Império controlava a vida eclesiástica, decidindo até quem poderia aceitar ou não como bispo. Só então depois de seu placet, a Santa Sé elegeria o bispo, extensão do poder imperial.
Lembram-se da Questão Religiosa, um raro momento de rebeldia do aparelho clerical diante do Império?
Essa ligação, o Padroado, durou até o fim do Império. Com a República, a Igreja achou outras formas de se manter forte, dando sustentação política a governantes, como aconteceu com Getúlio Vargas, um dileto tutelado por Dom Sebastião Leme.
E Vargas sequer era católico; possivelmente, um “livre pensador”, como se dizia então.
Ao longo do período colonial e durante o Império, a Igreja soube estabelecer um enorme patrimônio em forma de terras e ‘soluções legais’, como o laudêmio, que até agora rendem a ordens católicas valores milionários decorrentes de transações imobiliárias. Por exemplo, a Ordem de São Bento, ganha sobre cada compra e venda de bem imóvel feita no Centro e em bairros do Rio, como Glória e Catete…
Há muito anos, diga-se, por questão de justiça, a Igreja Católica no Brasil deixou as antessalas palacianas. “Ou foi deixada por elas?”, como me questiona uma historiadora da UFPR.
Fato é que a partir do Vaticano II, com a virada decretada pelo Concílio Ecumênico comandado por João XXIII e Paulo VI, os rumos mudaram: veio a Teologia da Libertação, o avanço pentecostal, a intimidade com o sagrado foi sendo dividida com outros atores e liturgias.
O desastre moral que foi Eduardo Cunha, hoje cumprindo longa pena por corrupção, foi um dos defensores públicos da grana para RR Soares e outros pastores desse rico filão da fé.
Por isso, fico a me perguntar: se os evangélicos não aprenderam a lição histórica – triste lição – que a Igreja Católica nos deu, será que ela não vai pelo menos se assustar com a briga pela autonomia funcional dos que cuidam dos impostos?
