sábado, 11 julho, 2026
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UMA RECEITA DE SANIDADE, COM NEURÓTICOS ANÔNIMOS

Encontro nacional trará 400 membros da Irmandade N/A Curitiba.

Cartaz convite para os N/A

Divulgação do Grupo Serenidade, do N/A – Curitiba

Todas as segundas e quartas-feiras um grupo se reúne por duas horas no auditório da Unidade Básica de Saúde Ouvidor Pardinho, em Curitiba, para estudar os Passos e as Tradições da irmandade de Neuróticos Anônimos (N/A), cujo 41º Encontro Nacional ocorrerá neste fim de semana em Curitiba.

As reuniões se iniciam com a leitura do tema do dia, e a ela se seguem as reflexões sobre o assunto em pauta, assim como depoimentos voluntários das experiências de recuperação de cada um.

Nesse ambiente se encontram homens e mulheres de todas as idades, unidos por um propósito comum: ajudarem-se mutuamente a se recuperarem da neurose, por meio da prática do programa de N/A.

TERAPIA DO ESPELHO

As reuniões se assemelham a sessões de análise, embora não se adote nenhum método científico, apenas a literatura de Passos e Tradições, herdada do AA, com as devidas adaptações. É um processo de auto diagnose, automotivação e moto-próprio.

O sistema é denominado “terapia do espelho”, porque obedece um ritmo de depoimentos voluntários que pode despertar nos indivíduos a compreensão da própria doença emocional e o aprendizado para lidar com as situações que afligem de maneira diferente a cada pessoa.

É um permanente processo de autoconhecimento que leva à identificação dos “gatilhos” dos desequilíbrios emocionais. À medida que são conhecidas as causas das compulsões, a aplicação dos Passos e das Tradições orienta a substituição de processos doentios, que se consolidaram na personalidade do neurótico ao longo da vida, por comportamentos novos e saudáveis.

PARA TODA IDA

Não é raro novatos na irmandade sentirem uma melhora significativa com a frequência a poucas reuniões. A impressão de cura é tão forte que a pessoa acredita não precisar mais frequentar as sessões de recuperação, que é como também são conhecidas as salas de N/A.

Contudo, assim como acontece com os alcoólicos anônimos e outras pessoas vítimas de compulsões, o doente emocional precisa constantemente dar combate aos seus focos de perturbação. Por isso, nas reuniões de N/A, os membros da irmandade, em qualquer estágio de cura que se encontrem, sempre se denominam “um neurótico em recuperação”.

A seguir, o depoimento de um membro do N/A de Curitiba, bastante ilustrativo do perfil característico do doente emocional e das transformações que a prática do Programa de N/A é capaz de processar na vida das pessoas que desejam recuperar-se da neurose.

AS RÉDEAS DA VIDA

É, homem, faixa de 40 anos:

“Eu era muito tímido, tinha uma dificuldade enorme de me socializar, acabava me isolando e buscava o tempo todo “fugir” das pessoas. Eu queria me aproximar, desejava isso, mas quando estava junto com pessoas era horrível, era como se minha energia fosse sugada a cada minuto que eu passasse com elas. Essas características apareceram na pré-adolescência, pois na infância eu estava sempre entrosado com os amigos e com a vida, com a escola, os estudos e as brincadeiras. Vivi assim apesar de vir de uma família disfuncional, com um pai depressivo que acabou desenvolvendo o alcoolismo. Meu irmão seguiu o mesmo caminho. Minha mãe possui uma baixa autoestima. Depois que abandonei os esportes, que eram uma obsessão para mim, mergulhei fundo numa terrível depressão.

Tive um problema crônico com insônia que levou 13 anos pra ser resolvido. Quando conseguia “pegar” no sono, tinha pesadelos muito ruins, que pareciam reais e não sabia se tinham ou não acontecido, de tão recorrentes. Depois de um tempo, já não me sentia parte de nada, não pertencia a nenhum lugar, não possuía vínculos com ninguém ou coisa alguma, a não ser com a minha insanidade e meus pensamentos obsessivos e torturantes sobre o passado, que duravam noite e dia. Eu tinha muita raiva do mundo, da minha família e principalmente de mim. Por isso, resolvi que deveria cometer suicídio. A dor era maior do que a vida, naquele período. Eu estava me despedindo da vida. A depressão é incapacitante e tira muitas oportunidades, tira energia, distorce pensamentos e percepções. Eu só enxergava o pior em mim e nas pessoas, só me identificava com a dor, com o sofrimento e com tudo o que era decadente e destrutivo. Na depressão, não há vida. Há uma incapacidade de viver a vida que está logo ali, naquela tarde ensolarada, enquanto você só possui trevas por dentro.”

“VOLTEI A DORMIR”

E prossegue:

Em recuperação, voltei a dormir com apenas uma reunião de N/A. Parei com o abuso de bebidas e da maconha. Eu fazia uso diário dessas substâncias para deixar a vida mais suportável. Hoje sei que é uma canoa furada, que as drogas só intensificam qualquer transtorno emocional preexistente, mas na época era o que eu tinha e precisava desesperadamente para tentar sobreviver. Eu mantive meu emprego. Hoje me relaciono bem com as pessoas, me sinto bem na presença delas e não preciso me isolar. Tenho inúmeros recursos a mais do que eu possuía. Estou bem mais articulado. Eu só tinha livros, músicas e minha própria companhia, que não era nada agradável naqueles dias. Hoje tenho a capacidade de me relacionar com as pessoas, se eu quiser. E também fico bem comigo mesmo.”

NEM ISOLADO DO MUNDO

E finaliza o depoimento:

“Não me sinto só nem isolado do mundo, pois esses sentimentos foram os mais insuportáveis para mim. Até o tratamento com psicólogos e psiquiatras foi enormemente mais proveitoso depois de N/A, pois antes de conhecer as irmandades N/A e AA eu não estava apto a receber nenhum tipo de ajuda, estava blindado pela doença. Hoje apenas frequento as salas de apoio dos Anônimos e estou tendo uma evolução que seria impensável até há algum tempo. Não uso nenhum tipo de substância, lícita ou ilícita, que altera a minha mente e isso já faz muitos anos. Transito bem pelas tensões e obrigações do dia. Educo minha filha de 7 anos muito bem e me esforço para ficar bem em várias áreas da minha vida, pois está tudo interligado.”

Novos Horizontes, publicação nacional de N/A
Livro Verde: guia básico da literatura de N/A
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