
Há tanto a dizer do amigo e colega Bernardo Bittencourt Neto, 67, nesta quinta, 13, levado pelo Anjo da Morte, que nem sei por onde iniciar esse “memorandum”.
O mais correto, acho, é lembrar que ele nunca foi um politicamente correto. A começar porque jamais deixou de se identificar, sem nenhuma reserva ditada por modismos, apresentando-se simplesmente como “Negô Bitte”.
E ele, um mulato, só se referia às duas filhas como “as negrinhas”, advogadas, uma delas com mestrado em Portugal.
Foi o melhor exemplo que vi de “incorreção” carregada de amor e orgulho pela família, em que Laís, a esposa, também estava sempre presente.
Ele era assim mesmo, iconoclasta a toda prova. Mas sempre de maneira simpática, “com ternura”, para usar o clichê. Ah, também foi mestre da arte de dizer a coisa certa, no momento oportuno, com as entonações acertadíssimas. Quando necessário, trabalhava os eufemismos com o cuidado, não querendo ferir ninguém, mas sem ab-rogar do direito de fazer um gol.
Era mestre igualmente das “boutades” bem vestidas por um léxico tipicamente sulista.
Tinha, na verdade, um senso de humor nada britânico, paranista, recheado de expressões e dísticos que, em parte, trouxe de seus ancestrais suíços, portugueses e negros que se juntaram para formar sua família a partir de Rio Negro, Morretes/Paranaguá.
Um dia, vendo-me guardar uma moeda sobre uma mesa, saiu-se com esta:
“Este é o seu indês?”.
Eu entendia o vocábulo do velho Paraná; quer dizer, eu estaria guardando uma moeda para chamar mais dinheiro…

Na verdade, são variados os traços que identificaram Bernardo Bittencourt, o “Nego Bitte”, além desse saudável distanciamento das “correções” malucas que importamos dos Estados Unidos, a maioria das quais não respeita a alma índio-afro-luso-brasileira, a saudável miscigenação do povo desta terra, muito menos a grande lição de perdão e tolerância passada pelos negros e índios no processo civilizatório nacional.
Afinal, eles dão aula magna à elite de origem europeia, ao pleitear integração e ascensão na vida do país pelo trabalho.
Bittencourt, com aquele jeitão fraterno com o qual se expunha de corpo e alma desde o primeiro contato com qualquer um, jamais entrou na onda de Gilberto Freyre (respeitável, mas sujeito a equívocos e trovoadas) de que somos produtos de ‘doces’ almas, de cordiais etnias – o índio e o negro. Na verdade, o jornalista ele sempre soube muito bem onde moram nossos demônios e nossas exclusões sociais e até por isso dava aulas de integração em todos os níveis.
Bem mais velho que Bernardo Bittencourt, e dono de boa memória do Jornalismo paranaense do século 20 – e também deste -, não tenho dificuldades em nominá-lo na restrita relação de grandes pauteiros de jornais, rádios e televisão que conheci.
Bittencourt era um páreo duro para Jorge Narozniak, Mussa José Assis, Hélio Puglielli, Renato Schaitza, Adherbal Fortes Sá. Todos esses davam lições diárias da proposta/missão do ser jornalista, que até pode dispensar diploma universitário, mas que deve sobretudo conhecer a fisionomia do universo em que habita. E por isso mesmo, tais pauteiros tinham a noção precisa de quase tudo do que fora relevante no Paraná dos últimos 40 anos.
E tanto quanto isso, Bitte recitava fatos históricos com detalhes, nas minúcias de episódios que jamais comporão a história oficial.
Alguns até impublicáveis…
Formação acadêmica pela metade, cursou na UFPR Jornalismo e História.
Desistiu dos cursos, tinha que ir à luta em busca do pão diário.

Bernardo Bittencourt nunca deixou de frequentar algumas de suas mais fortes eleições pessoais, como Abelardo e José Lupion, os jornalistas Celso do Nascimento, Pedro Ribeiro (cujo blog me deu a triste notícia da morte em primeira mão), Raul Urban e Walter Schmidt, Maí e Dante Mendonça, Rosy de Sá Cardoso, Adherbal Fortes Sá Junior, Hélio Puglielli, João José Werzbitski (in memoriam), Airton Cordeiro, Antonio Carlos Costa Coelho, Szyja Ber Lorber… uma multidão, impossível nominar a todos.
Aos domingos não perdia missa na Igreja de Vila Isabel, cuja padroeira é Isabel, rainha portuguesa de quem era devoto.
Guardava um catolicismo sem “show off”, colhido no colo materno, marcado por espírito ecumênico: sua cara metade, a professora Laís, é Adventista do Sétimo Dia, realidade que um dia ele me explicou com um chiste:
– Assim, com uma adventista e um católico, lá em casa vivemos dois dias de repouso semanal…
Este é o Bernardo Bittencourt que tem de ocupar páginas privilegiadas da futura História da imprensa Paranaense que Diego Antonelli promete escrever.
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WALTER SCHMIDT REGISTRA A MORTE, COM “LEAD” E “SUBLEAD”
Vítima de mal súbito, morreu na manhã desta quinta-feira (13) o jornalista Bernardo Bittencourt Neto – o “Nego Bitta”, como era tratado carinhosamente por seus amigos. A morte se deu em casa, por volta das 8h30, quando se preparava para ir ao trabalho. Era assessor de imprensa do Hospital Evangélico-Mackenzie. Tinha 67 anos. Deixa viúva Laís Castilho Bittencourt e as filhas Juliana e Cassiana, e três netas.
Nascido em Rio Negro e criado com a família em Morretes, Bittencourt iniciou a carreira de jornalista aos 17 anos no extinto “Diário do Paraná”, passando também pelos jornais “Correio de Notícias” e “Indústria & Comércio”. Também trabalhou na RPC-TV, nos tempos do antigo Canal 12. Durante 10 anos foi repórter da sucursal de Curitiba da revista “Manchete”. Durante algum tempo coordenou o concurso Rainha das Praias e participou como jornalista e jurado do concurso Miss Paraná.
Atuou em assessorias de imprensa de diversos órgãos públicos, como Secretaria de Estado da Agricultura e na Prefeitura de Curitiba.
