domingo, 17 maio, 2026
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CALÇADÃO DA RUA XV: 47 ANOS DO INÍCIO DA REVOLUÇÃO URBANA

Foi assim: da noite para o dia, literalmente, a principal rua central de Curitiba – a XV de Novembro, amanheceu nova, diferente, bloqueada para o trânsito de carros e reservada exclusivamente para os pedestres.

Abrão Assad: grande artífice, pouco marketing

A grande transformação aconteceu na madrugada anterior, graças à ousada iniciativa do então prefeito e arquiteto Jaime Lerner, em seu primeiro mandato, seguindo o projeto que detalhara e encomendara ao também arquiteto Abrão Anis Assad. Era um tempo de transformações urbana, profundas, num tempo em que o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc) estava em seu auge. Era justamente chamado de “Sorbonne do Juvevê”.

PEDESTRE É PRIORITÁRIO

Lerner, em essência, então decretava que o centro da cidade passava a ser prioritariamente reservado aos pedestres. Começava ali, a exemplo do que já ocorria em outros continentes, a chamada “humanização urbana”.

Permitia, em suma, a substituição do footing de automóvel pela escala do homem a pé, facilitando a chamada “arte do encontro”.

O bloqueio da Rua XV, num primeiro trecho entre as ruas Voluntários da Pátria e a Rua Marechal Floriano – mais tarde estendido até a Rua Presidente Faria, nesta segunda-feira, 20 de maio de 2019, completou 47 anos. O bloqueio, em 1972, no correr da madrugada, foi estratégico, porque após às 18h a Justiça estava fora de expediente para julgar o mandado de segurança impetrado pelos comerciantes.

O VELHO E O NOVO

Raul Urban e Maí Nascimento: documentação histórica

A implantação do calçadão em uma das mais antigas ruas centrais da cidade – que já se chamou Rua da Imperatriz, e popularmente é conhecida por Rua das Flores, mostra dois tempos históricos: os do velho comércio com suas então casas tradicionais ao longo de uma via estreita, e o efervescente movimento atual ao longo de um grande eixo de animação a céu aberto.

Nos anos 1970, a ideia curitibana serviu de exemplo para outros centros do país, de forma pioneira. Verdade que a própria paisagem ao longo do calçadão também mudou, mas a essência prossegue.

MARCAS DESAPARECERAM

No correr dos 47 anos desapareceram os equipamentos urbanos originalmente projetados por Abrão Assad, como as estruturas cobertas com domos de acrílicos roxos, a torre da Casa do Ingresso, as luminárias, compostas por um poste com quatro globos voltados para baixo e itens afins.

ABRÃO ASSAD

Aliás, Assad é um dos personagens mais importantes daqueles dias, ao lado de Lerner. Brilhante mas não dado ao marketing, o arquiteto vê hoje uma barbaridade a cometer-se, segundo anuncia a administração de Rafael Waldomiro Greca de Macedo: o alcaide quer mudar as estações tubo, sem maiores justificativas. Mudança que custará muitos milhões de reais ao erário.

ANTIGOS INCOMODADOS

Jornais e comerciantes, originalmente incomodados com a mudança estética, em pouco tempo aderiram à transformação. Antigos endereços comerciais deram lugar a novos usos; a antiga Cinelândia ficou no passado, bem como o mar de veículos que circulava na rua principal.

Ficou não só a lembrança do passado, como a gratidão de uma cidade que, 47 anos depois dessa transformação, faz do pedestre o principal componente dessa permanente humanização.

“O CALÇADÃO”, UM DOCUMENTO

Afora as múltiplas matérias veiculadas por jornais, revistas e outros meios nesse longo período, sobressai-se o documento “Calçadão – Vinte Anos Depois”, que compõe o Boletim Informativo número 98, da Casa Romário Martins, então publicado pela Fundação Cultural de Curitiba, em julho de 1992.

De autoria do jornalista Raul Guilherme Urban, época em que a também jornalista Maí Nascimento Mendonça era diretora do Patrimônio Cultural do Município, a publicação, hoje rara, transcrevia, de forma resumida, os mais importantes registros veiculados pelos jornais locais, a favor ou contra a cirurgia urbana que revolucionou Curitiba.

EM TODO O BRASIL

Essa cirurgia seria, depois, amplamente abordada pelos meios de comunicação nacional (como o Estadão, O Globo, Jornal do Brasil, Veja…). A mudança foi o mais visível ponto de partida da revolução urbana promovida por Jaime Lerner, e que, em seguida, seria com frequência abordada também pela mídia internacional como fato exemplar.

Na verdade, perdi a conta de quantas vezes acompanhei a cobertura jornalística dada a Curitiba e Lerner por veículos internacionais de imprensa, como a revista Time, os jornais Le Monde, o The New York Times, a revista Newsweek, as redes de TV Fox e CNN, Deutsche Welle, BBC… E as premiações nacionais e internacionais que Lerner e equipe receberam, também não sei mais enumerá-las. São muitas.

OLHAR JORNALÍSTICO

Aramis Millarch, Lubomir Ficinski, Rafael Dely, Eduardo Ceneviva: foram essenciais na revolução urbana

Outros importantes profissionais da imprensa, além de Urban e Maí Nascimento, se engajaram na defesa das mudanças urbanas que transformariam Lerner num ícone mundial. Dentre os curitibanos, tenho de registrar os nomes de Aramis Millarch, Jorge Narozniak e Paulo Roberto Marins de Souza que faziam no Diário do Paraná (in memoriam) defesa acendrada das mudanças. Dante Mendonça também sempre esteve entre os incondicionais defensores da revolução de Lerner que, por outro lado, encontrava na TV Iguaçu (grupo Paulo Pimentel) seu mais consistente grupo de opositores.

Jaime Lechinski, que se iniciava no jornalismo, também cedo mostrou grande interesse pela obra de Lerner. Depois se transformaria em amigo e assessor de imprensa do urbanista.

Antes de Lechinski, pioneiramente, Luiz Julio Zaruch foi o homem de imprensa de Jaime no primeiro momento, na Prefeitura.

Desse grupo de defensores da obra de Lerner eu também participei e, meses depois, Jaime me nomearia para fazer parte do primeiro Conselho da Fundação Cultural de Curitiba, composto por nomes como Eduardo Rocha Virmond, Newton Freire-Maia, Jaime Guelmann… Ali na FCC convivi com algumas das melhores partes da alma de Curitiba que estava a se consubstanciar, como Maria Elisa Ferraz Paciornick e Constantino Viaro.

VINICIUS E TOQUINHO

Isso sem contar que naqueles dias – recordo bem – Lerner passou a ser um “darling” da melhor e mais crítica comunidade de artistas de expressão nacional, de que eram parte Gilberto Gil, Veloso, Antonio Carlos Jobim e a inolvidável dupla Vinicius de Moraes e Toquinho.

Toquinho e Vinicius depois viriam inaugurar o Teatro Paiol (que está muito esquecido, por sinal), amigos que eram de Lerner e Aramis Millarch, por dever de justiça quando se lembram os 47 anos do Calçadão da Rua XV, tenho de nominar o jornalista Aramis Millarch. Ele foi mais que braço direito da primeira administração Lerner. Não exagero se disser que ele foi o grande condutor de Lerner nos caminhos da mass mídia, até o segundo governo da prefeitura. Depois Jaime caminharia como ninguém melhor que ele no relacionamento com a mídia.

Estas são anotações, enfim, para a História. Elas ajudam a desmistificar políticos que hoje, sem cerimônia alguma, querem se contar entre o grupo eu mudou a cidade “sitiada, aldeia sinistra” num modelo para o mundo.

O orgulho da cidadania curitibana é obra de Lerner, apoiado que foi por nomes como Abrão Assad, Ceneviva, Lubomir Ficinski, e – especialmente – Rafael Dely. Sobre Dely e seu papel na revolução de Curitiba nunca se dirá tudo.

Calçadão Rua XV de Novembro em 1972. Comerciantes da região tentaram impedir as obras do calçadão, temendo prejuízos. (Foto: Acervo Cid Destefani)
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