Eu pertenço à categoria dos chamados “esclarecidos” e quase sempre bem informados. Por isso, me surpreendo: acreditava que a hanseníase estava extinta ou quase, no Estado. Até porque a gradual desativação do antigo Leprosário São Roque, em Piraquara, foi ocorrendo ao longo dos últimos 20 anos. Lá funciona agora um serviço de atendimento a doenças dermatológicas do Estado.
Para surpresa minha, o Instituto Aliança Contra a Hanseníase, de Curitiba, informa, com base em dados oficiais da Coordenadoria Estadual de Hanseníase do Paraná, que a doença, negligenciada, persiste: o Paraná registrou 550 novos casos de hanseníase em 2018.
80 VÍTIMAS EM CURITIBA
Só em Curitiba a doença conhecida popularmente por lepra fez 80 vítimas no ano passado. Os números são da Coordenadoria Estadual de Hanseníase, órgão ligado à Secretaria de Saúde do Paraná. Para alertar e combater a doença negligenciada, foi lançado no dia 29 de abril, em Curitiba, o Instituto Aliança contra a Hanseníase, instituição sem fins lucrativos que pretende reunir ciência, filantropia e educação para tirar o Brasil do 2º lugar no ranking de países que contabilizam a doença.
CHOCANTE REALIDADE
A entidade foi fundada pela dermatologista e hansenologista médica Laila de Laguiche.
Apesar da invisibilidade, a hanseníase faz parte de uma chocante realidade no Brasil. O país é o segundo com o maior número de casos no mundo, atrás somente da Índia. Segundo dados do Ministério da Saúde e da Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2017 foram detectados 26.875 novos casos no território brasileiro, o que representou mais de 93% das ocorrências registradas em países das Américas.
EM 2016, 25.218 CASOS
Em 2016 foram 25.218 casos. Dados preliminares já apontam 26.667 casos em 2018. Só no Paraná foram 550 casos, sendo que a taxa de reincidência chegou a 9,9%, contra 4% a nível nacional.
PIOR NO PARANÁ
Entre os dados que mais despertam atenção está o aumento do número de casos paranaenses entre as crianças. A incidência infantil aumentou 20% de 2017 para 2018. Além disso, houve queda de 11% do número de notificações, o que indica um problema de subdiagnóstico, segundo a dermatologista e fundadora do Instituto, Laila de Laguiche. “São poucos os profissionais de saúde que sabem identificar a hanseníase, o que torna o diagnóstico tardio e revela que nossos números estão subestimados”, alerta.
DEFORMIDADES FÍSICAS
“Além disso, quanto mais demorado o diagnóstico, maiores os riscos de sequela”. O avanço da hanseníase pode levar à deficiência física. Em 2018, 50% dos casos paranaenses apresentaram algum grau de incapacidade física no diagnóstico, sendo que 12,9%, ou seja, 67 pessoas, demonstraram deformidades físicas aparentes. “É como se a cada semana tivéssemos mais de uma pessoa adquirindo deficiência física no Paraná”, conclui a médica.
Em 2017, 10,2% dos casos representaram deficiências irreversíveis.
O vice-prefeito Eduardo Pimentel no eventoO discurso do arcebispo de Curitiba, dom José Antonio Peruzzo