domingo, 5 julho, 2026
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Prefeitura destrói memória; livro de Carneiro Neto recupera “Pasquale”

Restaurante “Lá no Pasquale”: demolido

Consumou-se o que não se poderia esperar: no dia 20, quarta-feira, nove dias antes do aniversário de Curitiba, máquinas e homens da Prefeitura, por determinação do prefeito Rafael Waldomiro Greca de Macedo colocaram por terra um dos marcos da Capital no século 20, espaço que abrigou por dezenas de anos as instalações de “Lá No Pasquale”, restaurante e símbolo “praiano” de Curitiba, no Passeio Público.

A feijoada da casa era apenas o pretexto – embora muito apreciada – para o encontro de uma fauna humana heterogênea e, ao mesmo tempo, muito especial. Fauna que fazia opinião e repercutia os humores da cidade.

O fato da demolição das instalações do “Lá no Pasquale”, em si, já é um golpe na memória da cidade. Mas o que mais choca é o contraditório da demolição determinada pelo alcaide, figura nascida e embalada no colo de Jaime Lerner (que com ele rompeu), ao lado de quem proclama ter aprendido a defender e zelar pelos marcos de Curitiba. O que, agora, prova não ser verdade.

LIVRO DE CARNEIRO NETO

Antonio Carlos Carneiro Neto, jornalista, um dos acadêmicos que justificam muito bem sua escolha para uma antiga instituição, a Academia Paranaense de Letras (APL), me assegurou nesta segunda-feira: “Vou tentar fazer o que o poder público está desmontando com a demolição”.

E anunciou que ainda neste semestre vai lançar uma preciosidade, o livro “Lá no Pasquale”.

Memorialista maior de Curitiba – junto com Dante Mendonça e, às vezes, Luiz Geraldo Mazza, e também Raul G. Urban -, Carneiro disse-me que está “chocado”, particularmente porque aquele espaço testemunhou fatos verdadeiramente históricos e bem documentados. Um deles – lembrou – foi o lançamento da candidatura de Ney Braga ao Senado, em 1966. O jornalista era o mascote da turma que aplaudia a indicação, um coro puxado por notáveis políticos do entourage de Ney, como Maurino Carraro, Norton Macedo, Véspero Mendes, Nireu Teixeira, Borsari Neto…

ALMA DE CURITIBA

No “Lá no Pasquale” a cidade que fazia opinião, criava, gerava fatos políticos, futebolísticos e culturais, tinha encontro marcado.

Especialmente nos sábados, mas o “corripel” de notáveis que animaram e se animaram no endereço não tinha fim, avançava pela semana toda, noite a dentro.

Para os “millenials”, os jovens que acham que tudo começa com eles, é bom lembrar: por lá passou a cidade, dos anos 1950 ao início dos 1990.

Essa fauna humana era marca da casa Comandada por João Pasquale – e dona Isaura, sua mulher, a “escrava Isaura”.

A demolição decretada por Rafael Waldomiro não apaga da memória de milhares de Curitibanos o quanto o endereço foi vital na arquitetura humana de Curitiba: políticos, futebolistas, jornalistas, intelectuais de todos os matizes eram seu público.

No “Lá no Pasquale”, assim como na Boca Maldita, a cidade sempre teve um dos seus melhores termômetros. Era também palco e plateia curitibanos.

GURU ABANDONADO

Dizia Jaime Lerner, no apogeu dos tempos do Passeio – e que isso sirva de refresco ao alcaide Rafael Waldomiro, porque são palavras de seu antigo guru e criador: – “O Pasquale é a nossa praia. Referência de gerações. Não imagino Curitiba sem o Passeio, nosso primeiro Parque, nem o Passeio sem o Pasquale, nosso anfitrião de sempre…”

Rasgar a memória, senhor prefeito, não faz bem à História e à Cidadania.

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